O Rio ganha com a chegada da NFL, mas o entusiasmo exagerado da imprensa com o futebol americano contrasta com a resistência ao uso do Maracanã pelo Vasco. E a tentativa de barrar uma bela parceria comercial do clube torna tudo ainda mais absurdo
Alvaro Tallarico
Não sou fã de futebol
americano. Já tentei assistir algumas partidas, procurei entender melhor as
regras e até reconheço que existe uma complexidade tática interessante naquele
esporte. Mas confesso que minha paciência costuma acabar muito antes de o jogo
terminar. São tantas interrupções, substituições, reuniões e intervalos que,
quando a partida finalmente engrena, alguém pede outro tempo. Ainda assim,
fiquei satisfeito com a chegada da NFL ao Maracanã. O Rio precisa receber
grandes eventos, movimentar o turismo, atrair investimentos e aproveitar melhor
o potencial de um dos estádios mais conhecidos do planeta. Apesar de grande
parte da mídia estar forçando uma barra para empurrar esse futebol americano
para nós, brasileiros, amantes da bola redonda.
Porém, o confronto entre
Dallas Cowboys e Baltimore Ravens é mais uma oportunidade de mostrar a
capacidade da cidade de receber espetáculos internacionais. A NFL sabe produzir
um grande evento como poucas organizações esportivas. Existe uma indústria inteira
funcionando ao redor de cada partida, com experiências para os torcedores,
produtos exclusivos, festas, música e uma estrutura de entretenimento que vai
muito além do gramado. Quem acompanha o Super Bowl sabe que, muitas vezes, o
intervalo desperta tanto interesse quanto o próprio jogo.
Aliás, talvez seja justamente
esse o segredo do futebol americano, saber vender muito bem tudo aquilo que
acontece enquanto a bola não está em movimento.
O que me incomoda é a maneira como parte da imprensa brasileira abraça qualquer produto cultural norte-americano, muitas vezes com um entusiasmo que beira a reverência, e a falsidade. Basta a NFL desembarcar por aqui para surgirem reportagens, transmissões especiais, comentaristas explicando as regras e uma cobertura que parece determinada a convencer o público de que estamos diante do acontecimento esportivo mais fascinante do ano. O brasileiro pode até aprender a gostar de futebol americano, mas não precisa ser tratado como alguém que ainda não descobriu uma maravilha da civilização...
Há uma diferença enorme entre
divulgar um evento internacional e tentar fabricar uma paixão nacional. O
futebol americano tem seus admiradores no Brasil, muitos deles bastante
dedicados, mas ainda está longe de ocupar o espaço cultural do nosso futebol. Graças
a Deus... E não há problema algum nisso. O curioso é perceber o esforço para
tornar atraente um esporte que, para boa parte do público brasileiro, continua
sendo um exercício de paciência. O sujeito passa mais tempo tentando descobrir
por que o árbitro interrompeu a partida do que acompanhando uma jogada.
Chato...
Reconheço que sou suspeito.
Gosto de futebol, de arquibancada, de jogo corrido e daquela tensão que cresce
quando o time precisa de um gol nos minutos finais. No futebol americano, mal
consigo me envolver emocionalmente com uma jogada e já aparece um intervalo
comercial. Parece que o esporte foi inventado para caber perfeitamente entre os
anúncios de televisão. Talvez por isso tenha se transformado em um negócio tão
extraordinário nos Estados Unidos e seus "valores".
Mas uma coisa é achar o
esporte chato. Outra, completamente diferente, é torcer contra sua presença no
Rio. Quero que a NFL volte, que traga outros times, que atraia turistas e que o
Maracanã receba cada vez mais eventos dessa dimensão. A cidade tem vocação para
isso e não deveria desperdiçar oportunidades por preconceito esportivo ou
rivalidade entre clubes.
Nesse contexto, uma das
iniciativas que mais gostei foi a colaboração entre Vasco, NFL e Approve. A
coleção conseguiu unir a identidade de um clube tradicional do futebol
brasileiro à estética do futebol americano sem parecer uma simples tentativa de
colocar dois escudos na mesma camisa para faturar com a novidade. As peças
ficaram lindas, estilosas, atraentes, têm personalidade e representam uma
aproximação comercial que faz sentido para o Vasco.
Até porque o clube tem
história na modalidade. O Vasco Almirantes (antigo Patriotas) foi uma
iniciativa importante para o desenvolvimento do futebol americano no Brasil e
conquistou o campeonato nacional em 2014. A ligação entre a Cruz de Malta e a
bola oval, portanto, não surgiu agora, por conveniência de uma campanha
publicitária. Existe uma trajetória que ajuda a explicar por que essa
colaboração combina tanto com o clube.
Acho interessante quando o
Vasco explora possibilidades que ultrapassam o futebol tradicional. O clube tem
uma identidade muito forte, uma torcida espalhada pelo Brasil e uma história
que permite estabelecer conexões com diferentes públicos. A parceria com a NFL
é uma dessas oportunidades, especialmente porque pode apresentar a marca
vascaína a consumidores que acompanham o esporte norte-americano e talvez nem
conheçam direito o futebol carioca.
O problema é que, no Rio,
aparentemente nem uma coleção de roupas consegue escapar da imbecilidade de
certos dirigentes...
Segundo as informações
divulgadas sobre os bastidores do evento, Luiz Eduardo Baptista, o BAP,
presidente do Flamengo, teria entrado em contato com a direção da NFL para
impedir a exposição e a comercialização dos produtos da parceria entre Vasco,
NFL e Approve no Maracanã. A iniciativa também previa uma ação publicitária no
estádio, mas os produtos acabaram direcionados para a loja da liga no Leblon.
A atitude é de uma pequenez
impressionante. Estamos falando de um evento internacional, organizado por uma
liga norte-americana, que não tem absolutamente nada a ver com a disputa
esportiva entre Vasco e Flamengo. Qual seria o prejuízo para o Flamengo se um
torcedor comprasse uma camisa do Vasco em colaboração com a NFL? O que
exatamente mudaria para o clube rubro-negro se a Cruz de Malta aparecesse
durante uma partida de futebol americano?
É difícil encontrar uma
justificativa esportiva para essa interferência. A impressão é que o Maracanã
precisa ser protegido até mesmo de uma estampa vascaína, como se a presença da
marca de outro clube pudesse ameaçar o território de quem administra o estádio.
E a situação fica ainda mais
contraditória quando lembramos que o Vasco tenta utilizar o próprio Maracanã
para enfrentar o Boca Juniors na semifinal da Copa Sul-Americana. O clube
encontra resistência dos administradores do estádio, justamente Flamengo e
Fluminense, e busca alternativas para receber uma das partidas mais importantes
do ano.
Não ignoro que existam
contratos, compromissos comerciais, questões operacionais e regras para a
utilização do Maracanã. Mas gostaria de entender por que parece existir tanta
disposição para adaptar o estádio às necessidades de uma liga estrangeira e tamanha
dificuldade para negociar sua utilização em uma semifinal continental
envolvendo um clube da própria cidade.
O Maracanã pode receber uma
partida da NFL, com todas as transformações necessárias para adaptar o campo,
instalar estruturas e acomodar um espetáculo completamente diferente daquele
para o qual foi construído. Ótimo. É assim que um equipamento estadual dessa
importância deveria funcionar: recebendo eventos relevantes e gerando
oportunidades para o Rio.
Mas, quando o assunto é Vasco
x Boca Juniors, a conversa muda. Surgem obstáculos, impasses e uma disputa
institucional que parece interminável. E, no meio disso tudo, ainda aparece a
notícia de que a direção do Flamengo teria atuado para impedir que a colaboração
comercial do rival tivesse espaço justamente durante o evento norte-americano.
É uma contradição difícil de
engolir. O futebol americano, que ainda precisa conquistar grande parte do
público brasileiro, encontra as portas do Maracanã abertas. Já uma semifinal de
futebol sul-americano, envolvendo dois clubes de enorme tradição e torcidas
apaixonadas, enfrenta uma batalha para definir onde será disputada.
Não estou defendendo que o
Vasco abandone São Januário. Pelo contrário, gostaria muito de ver Vasco e Boca
naquele estádio mágico, patrimônio brasileiro, com a atmosfera que somente uma
partida desse tamanho pode proporcionar em uma arquibancada tão próxima do
campo. Imaginar os argentinos chegando a São Januário, com a torcida vascaína
fazendo uma festa monumental, é algo que me anima muito mais do que qualquer
touchdown no Maracanã. Mas essa deveria ser uma escolha esportiva e estratégica
do clube, não uma decisão imposta pelas dificuldades de utilizar outro estádio
da cidade. Afinal, um Vasco x Boca no Maraca movimenta o país, a América
Latina, zilhões de vezes mais do que NFL...
Também não tenho nada contra o
Flamengo defender seus interesses na administração do Maracanã. O que considero
lamentável é a rivalidade ultrapassar os limites do futebol e atingir até uma
parceria comercial que poderia ajudar a promover o esporte, os clubes cariocas
e o próprio evento da NFL.
Enquanto isso, vemos uma
cobertura forçadamente empolgadíssima da bola oval, com reportagens explicando
cada detalhe do espetáculo norte-americano, celebridades nas arquibancadas e
comentaristas tentando nos convencer de que três horas de interrupções são uma
experiência esportiva imperdível. Não duvido que o evento seja um sucesso,
especialmente fora de campo. A NFL domina essa arte, e o Rio oferece um cenário
perfeito para transformar uma partida em uma grande festa.
Vou continuar achando futebol americano chato, embora respeite quem goste. Vou continuar elogiando a chegada de grandes eventos internacionais e torcendo para que a cidade receba muitos outros. Também espero que a parceria entre Vasco e NFL seja um sucesso, porque é uma iniciativa criativa, tem ligação com a história do clube e merece alcançar o público para o qual foi concebida.
O que não consigo aceitar com
a mesma naturalidade é essa aparente necessidade de controlar até a presença
comercial do rival em um evento que nem sequer pertence ao futebol brasileiro.
BAP pode defender os interesses do Flamengo, naturalmente, mas impedir a
exposição de uma coleção do Vasco, caso se confirme sua intervenção, não
representa qualquer conquista esportiva. Parece apenas mais um capítulo de uma
rivalidade administrativa que já passou dos limites.
No fim, o Maracanã vai receber
um espetáculo internacional, a NFL vai promover sua marca e o Rio terá mais um
grande evento para celebrar. Só espero que, depois de toda essa festa
norte-americana, a cidade também consiga encontrar espaço para uma partida de
futebol que realmente mexe com a paixão de milhões de brasileiros.
Porque seria bastante irônico
descobrir que é mais fácil colocar Dallas Cowboys e Baltimore Ravens no
Maracanã do que permitir que o Vasco receba o Boca Juniors.
Por isso, os arredores do
Maraca acordaram com protestos. Corretos e pontuais.
Título, Imagem e Texto: Alvaro
Tallarico, Diário
do Rio, 27-9-2026, 16h57
MANIFESTAÇÃO Torcedores do Vasco alugam avião faixa para fazer manifestação na Orla do Rio sobre time poder jogar no Maracanã. Confira: https://t.co/Uglgi3RuuI
— Emerson Rocha (@emerson_rocha) September 27, 2026
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