Leah Levy Cohen Ligia
Enquanto Israel se prepara para votar,
uma viagem secreta a Abu Dhabi virou a notícia do dia e trouxe de volta a
pergunta que o país tenta responder há quase três anos: quem sabia o quê antes
de 7 de outubro? Segundo a Associated Press, Benjamin Netanyahu teria viajado
aos Emirados Árabes Unidos no fim de semana para pedir ao presidente Mohamed
bin Zayed que negasse ter feito um alerta sobre uma possível grande ofensiva do
Hamas pouco antes do massacre. A notícia se baseia em fontes que não se
identificaram, o gabinete de Netanyahu nega ter recebido o tal aviso e os
Emirados, até agora, não parecem com nenhuma pressa de participar desse animado
campeonato de desmentidos. É muita diplomacia para uma conversa que,
oficialmente, talvez nem tenha existido, e muita gasolina de avião para pedir
que alguém confirme que nunca disse aquilo que supostamente disse.
Em qualquer outro lugar, essa história
já seria suficientemente rocambolesca para alimentar uma campanha eleitoral
inteira. Em Israel, porém, ela precisa disputar espaço com guerras em várias
frentes, ameaças do Irã, Hamas, Hezbollah, Houthis, soldados mobilizados há
anos, famílias exaustas, uma economia pressionada e um país que ainda não
conseguiu descobrir onde termina o trauma e começa a campanha. Aqui, até a urna
precisa de capacete, colete e aplicativo do Pikud Haoref. O eleitor israelense
não vai escolher apenas um governo. Vai decidir o que fazer com o homem que
estava no comando quando aconteceu a maior tragédia da história recente do país
e que, apesar de tudo, continua sendo visto por uma parcela enorme da população
como o único político com experiência suficiente para conduzir Israel no meio
desse incêndio regional.
As pesquisas colocam o campo contrário a Netanyahu na frente em número de cadeiras, mas isso não significa necessariamente que esse grupo conseguirá formar um governo. Em Israel, ganhar eleição é só a primeira fase do videogame. Depois é preciso montar uma coalizão com partidos que discordam entre si sobre religião, serviço militar, assentamentos, economia, tribunais, árabes, judeus, sábado, domingo e provavelmente até sobre qual hummus merece o nome de hummus. É possível ter mais cadeiras, comemorar diante das câmeras, distribuir abraços e descobrir, poucas semanas depois, que ninguém consegue se sentar à mesma mesa sem começar uma nova guerra civil antes da sobremesa.
E Netanyahu conhece esse jogo como
poucos. Para os seus adversários, ele representa um governo que precisa
responder pelo fracasso de 7 de outubro, pelas divisões internas e pelas
decisões tomadas antes e depois da tragédia. Para seus eleitores, ele continua
sendo o homem com cancha, relações internacionais, experiência militar,
habilidade política e estômago para enfrentar as ameaças que cercam Israel. É
uma fidelidade que deixa muita gente perplexa, mas que existe e não cabe
simplesmente na explicação preguiçosa de que milhões de pessoas enlouqueceram
ao mesmo tempo. Há quem olhe para tudo o que aconteceu e diga que ele precisa
ir embora. Há quem olhe para exatamente as mesmas coisas e conclua que este é o
pior momento possível para substituí lo. A democracia tem dessas crueldades:
entrega os mesmos fatos a todo mundo e cada eleitor devolve uma conclusão
diferente.
Enquanto Israel discute uma viagem
secreta, um possível alerta anterior a um massacre real e a responsabilidade de
quem governava o país, o Brasil também vive sua campanha eleitoral. Só que,
como o Brasil não gosta de economizar no surrealismo, resolveu colocar Nossa
Senhora Aparecida no palanque. Começou a circular a informação de que Flávio
Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil caso fosse
eleito. Era mentira. Não existia proposta dele nesse sentido. A história ganhou
força depois de um comentário exibido na GloboNews sobre uma suposta
mobilização de setores evangélicos para alterar o título da padroeira. O
comentário entrou nas redes, foi simplificado, temperado, embalado e servido
como se fosse um fato diretamente ligado a Flávio Bolsonaro. Pouco depois, a
própria GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas pelo erro.
O projeto que acabou sendo arrastado
para a confusão era de 2007, apresentado por outro deputado e arquivado no ano
seguinte. Ou seja, pegaram um projeto enterrado havia quase vinte anos, deram
uma lustrada, colocaram Flávio Bolsonaro sentado em cima dele e enviaram para
as redes sociais com a velocidade de quem distribui santinho na porta da
igreja. E, quando a mentira foi desmentida, já era tarde. Ela havia sido vista,
compartilhada, comentada, amaldiçoada e transformada em munição eleitoral. A
verdade chegou depois, um pouco ofegante, pedindo licença e carregando uma nota
de correção que quase ninguém tinha interesse em ler.
Então apareceu Lula, atual presidente
e candidato à reeleição, para oferecer ao país uma contribuição memorável sobre
a diferença entre fato e viralização. Durante uma entrevista, ele foi avisado
de que a história era falsa. A jornalista ainda insistiu: “Mas foi uma fake
news, presidente.” Lula respondeu que não sabia se era fake news e que o “dado
concreto” era que aquilo estava muito forte nas redes sociais. Está inaugurado,
portanto, o novo método brasileiro de verificação de fatos. Se está circulando bastante,
pode não ser verdade, mas já adquiriu concretude eleitoral. A partir de agora,
talvez os jornalistas possam demitir os checadores e contratar administradores
de grupos de WhatsApp. A verdade deixou de depender de provas. Basta alcançar
um número respeitável de encaminhamentos e receber três emojis de indignação.
Para completar o raciocínio, Lula
lembrou o episódio de 1995 em que um pastor evangélico chutou uma imagem de
Nossa Senhora Aparecida na televisão. A agressão à imagem aconteceu de verdade
e foi repugnante. A suposta intenção de Flávio Bolsonaro de retirar o título de
Padroeira do Brasil não aconteceu. Mas a campanha eleitoral brasileira
conseguiu colocar os dois episódios no mesmo liquidificador e apertar o botão
da indignação máxima. O fato verdadeiro emprestou emoção à mentira atual, e a
mentira atual ajudou a ressuscitar o fato verdadeiro. Pronto, estava produzida
a vitamina perfeita para uma campanha em que a fé vale voto, a indignação vale
compartilhamento e a cronologia é apenas um detalhe decorativo.
Depois entrou em cena o Supremo,
porque no Brasil nenhuma confusão está completa enquanto não aparecer um
ministro para derrubar a decisão de outro ministro. André Mendonça havia
determinado a retirada de publicações que apresentavam como verdadeira a história
envolvendo Flávio Bolsonaro. Flávio Dino derrubou a ordem no caso de uma
postagem do humorista Antonio Tabet, entendendo que ela estava protegida pela
liberdade de expressão e não mencionava nominalmente o candidato. A decisão
também alcançou outras publicações removidas pelo mesmo fundamento. Isso não
transforma automaticamente a notícia falsa em verdadeira, mas devolve parte do
conteúdo às redes e acrescenta à campanha o tradicional campeonato brasileiro
de decisões judiciais. A santa entrou na eleição, foi retirada por liminar,
voltou por decisão do Supremo e agora já tem mais movimentação processual do
que muito candidato à Presidência.
A ironia fica ainda mais saborosa
porque Lula passou anos denunciando as fake news, condenando a desinformação e
defendendo a necessidade de responsabilizar quem espalha mentiras nas redes.
Bastou aparecer uma mentira eleitoralmente conveniente para a discussão ganhar
uma delicada flexibilidade ideológica. Se a fake news prejudica o meu lado, é
uma ameaça à democracia e precisa ser combatida com todo o peso das
instituições. Se prejudica o adversário, convém observar que ela está
circulando muito forte e talvez mereça alguns minutinhos de contemplação antes
que alguém a retire. A mentira, pelo visto, não tem caráter político próprio.
Ela apenas procura um bom palanque e alguém disposto a lhe oferecer microfone.
Como se a santa, a fake news e os
ministros não fossem suficientes para fechar o domingo, Lula também foi
questionado sobre um uísque que Daniel Vorcaro teria lhe dado. O presidente
disse não saber se recebeu a bebida, mas acrescentou: “Se me deu, já bebi.” Há
respostas que precisam de explicação, e há respostas que chegam prontas para
entrar na história política nacional. O país começou o dia discutindo Nossa
Senhora Aparecida e terminou imaginando o destino de uma garrafa de uísque.
Entre a fé e a adega, o debate público brasileiro encontrou sua vocação.
Israel e Brasil terão eleições quase
em paralelo, mas parecem participar de modalidades diferentes do mesmo
campeonato. Em Israel, discutimos uma viagem secreta, alertas anteriores a 7 de
outubro, responsabilidade política, segurança nacional e quem tem condições de
conduzir o país durante guerras em várias frentes. No Brasil, discute se uma
mentira sobre Nossa Senhora Aparecida pode continuar circulando, quem tem
autoridade para retirá la das redes e se o presidente bebeu ou não o uísque
enviado por um banqueiro. Não digo que uma democracia seja mais complicada do
que a outra. Apenas observo que, enquanto uma campanha viaja secretamente a Abu
Dhabi, a outra faz escala entre a basílica, o Supremo e o bar.
Aliás, Netanyahu deveria aproveitar a
experiência e tomar umas aulas com Lula. Bibi está sendo julgado, entre outras
acusações, por ter recebido charutos e champanhe de empresários. Quanta falta
de malandragem política. Bastava olhar seriamente para a câmera e responder:
“Eu não sei se recebi. Mas, se recebi, já fumei e já bebi.” Pronto. Os charutos
viravam fumaça, o champanhe evaporava e o processo poderia ser arquivado na
adega. Lula não concede entrevista. Lula oferece consultoria.
E vocês, o que consideram mais
perigoso numa eleição: um fato grave ainda sem respostas ou uma mentira
conveniente que continua circulando depois de ser desmentida?
Se esta crônica fez você rir para não
chorar, compartilhe. O absurdo também precisa ficar bem documentado.
Título, Imagem e Texto: Leah Levy
Cohen Ligia, Facebook,
28-9-2026, 15h53
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