sábado, 3 de fevereiro de 2018

O estado da América. E também da presidência Trump

José Manuel Fernandes


No espaço de poucos dias assinalou-se a passagem de um ano de Presidência Trump (e vale sempre a pena recordar esse ano em 52 capas), o Presidente dos Estados Unidos esteve em Davos, onde não tinha estado o ano passado, aí tendo repetido que vai “pôr sempre a América primeiro”, o departamento de Defesa divulgou o seu Summary of the 2018 National Defense Strategy e, por fim, proferiu o seu primeiro discurso do Estado da União, um longo discurso de 80 minutos cuidadosamente encenado e onde, depois da “carnificina”, anunciou ter chegado o “novo momento americano” (é um discurso que cujo resumo pode recordar em 6 citações selecionadas pelo Observador). Trata-se pois de um bom momento não apenas para olhos para o que foram estes 12 meses do mais improvável Presidente dos Estados Unidos, como para procurar perceber se as suas mais recentes intervenções denotam alguma inflexão no estilo e prioridades do seu mandato. Como veremos as opiniões dividem-se.

Uma boa introdução a todos estes temas é o Conversas à Quinta desta semana – Trump reinventou-se? Não: reinventou a Casa Branca –, o habitual programa do Observador com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto (podcast aqui). Tratou-se de uma discussão muito informada e que, como sempre, fugiu à análise fácil. Falou-se, por exemplo, de como o seu discurso desta semana pareceu realmente “presidencial”, tão presidencial e que não é difícil imaginar outros presidentes republicanos a proferi-lo. E discutiu-se a relação dessa pose com o “governar pelo twitter”, analisando-se a diferença entre a retórica que incendeia o debate público pelo escândalo e as políticas seguidas por uma administração onde pontificam algumas figuras gradas do establishment de Washington.

(Ainda no Observador, referência para uma das raras análises ao discurso do Estado da União, a de Diana Soller. É um texto que se interroga sobre Quem quer ser amigo dos Estados Unidos?: “Quem são afinal os “amigos” de quem estamos sempre a ouvir falar (...) ? Não sabemos verdadeiramente. Sabemos apenas quais são as duas condições necessárias: apoiar as posições e políticas (externas) dos Estados Unidos e estarem dispostos a pagar o preço, ou seja, a serem igualmente portadores do fardo, pelo menos financeiro, da vontade política americana.”)

Passando agora ao que se escreveu nos Estados Unidos, se é verdade que o discurso do Estado da União suscitou muitas críticas, tanto entre os democratas como nos sectores republicanos anti-Trump, a verdade é que a reação da opinião pública surpreendeu, pois esta foi bastante positiva (basta ver a sondagem da CBS: 43% Of Democrats Approved Of Trump's State Of The Union; Buries Poll; o apoio entre os republicanos foi esmagador, sendo também maioritário entre os independentes).

Como é que Trump conseguiu esta espécie de milagre? Duas das análises mais interessantes que li saíram em publicações de orientações opostas. Na conservadora Nacional Review, Michael Brendan Dougherty procurou explicar The Trump Show da seguinte forma: “The effect is that he can monopolize the media’s attention for months with bad behavior the way that a reality-TV star monopolizes attention for segments between commercials. He reportedly says that some countries are “sh**holes,” he’s the subject of a crazy rumor involving a porn star, and he has that historically low approval rating. The media, acting as the unintentional collaborators in the Trump Show that rules everyone’s lives, set expectations for his behavior laughably low. Then the star emerges for the final segment of the episode, in this case the State of the Union. Instead of the gibbering, cursing, charmless jerk of the earlier segments, we get someone else. Trump gives his best reading of a long speech full of the usual SOTU emotional blackmail and wedge issues. The American audience laps it up. Polled Republicans almost unanimously love the speech. Almost half of Democrats say the same. He always seems to pull through in the end, our Donald.”

À esquerda vale a pela ler uma longa análise de Ezra Klein no jornal online Vox, onde se defende que Trump is winning. Eis o seu argumento: “This is, I think, Trump’s true purpose in public life: to have everyone talking about him, looking at him, reacting to him. He cares more about his coverage than his impact; he is much more committed to what’s said about him on Fox & Friends than what’s written about him in the history books. Trump’s Reality Show White House has been an unstoppable force, dominating our attention, coarsening our politics, making us angrier and more afraid and more distant from each other. In this, he’s succeeding — winning, even.”

No que diz respeito ao discurso propriamente dito, a síntese da edição europeia do Politico é bem conseguida – From ‘American carnage’ to ‘American heart’: How Trump toned it down. Eis um dos pontos interessantes da sua leitura do discurso, muito na linha do que já vimos atrás: “Many times in the past we’ve seen the president deliver a fine, even traditional speech only to completely undercut it within 48 hours with the ‘real’ Donald Trump – a sort of reality star Frankenstein who clumsily tramples villages and causes such an uproar that people start chasing him with pitchforks,” said Matt Latimer, a speechwriter for former President George W. Bush.”

Outro ponto interessante e que resulta deste primeiro ano de mandato é que, apesar de todas as polémicas e dos baixos índices de popularidade, Trump continua a ter uma sólida base de apoio. Dois politólogos, Jan Zilinsky e Joshua Tucker, procuram explicá-lo em Why don’t Trump voters feel betrayed? Because they’regetting what they wanted. O seu ponto de partida é um inquérito que realizaram no final de 2016 onde pediram aos eleitores para dizerem o que esperavam da Presidência Trump, tendo verificado que “The responses to our open-ended question suggest that Trump’s appeal was not so much based on the ways he was different from a typical Republican but rather that supercharged conservatism was a big part of what made him appealing.” Quase ponto por ponto vê-se como o actual dono da Casa Branca tem feito exactamente o que os seus eleitores esperavam que fizesse – pelo menos tem criado a ilusão que o tem feito.

Mais: para esses eleitores contam muito os bons resultados económicos, mesmo sendo certo, como escreve Charles Lane no Washington Post, que Trump doesn’t deserve the credit for the economy. Neither does Obama.  Na verdade “The credit goes to the woman who helped set the most important prices in the world: U.S. interest rates.” Ou seja, para a presidente da Reserva Federal.

Da mesma forma esses eleitores incomodam-se pouco com aquilo que Max Boot, que esteve com os neoconservadores, critica em After the State of the Union, Trump’s foreign policy is still a mystery, também no Washington Post. Para ele, “In general, it is hard to know where Trump is headed in foreign policy because of the continuing conflict between his isolationist and protectionist impulses, and the more internationalist worldview of his senior advisers. The State of the Union provided no help in explicating the administration’s path ahead.

Saindo dos Estados Unidos vale a pena ver o que escreveram dois influentes colunistas alemães, de orientações diferentes, mas ambos muito críticos:

Josef Joffe, editor do conservador Die Zeit, faz uma dura crítica às medidas protecionistas da administração em The Trump Deception, no The American Interest: “Protectionism is like dope. First you get a brief rush, and then you crash. Junkies know this, but they go for meth, crack, and smack over and over again. So do trade warriors. They think they can enjoy the kick without having to pay the price down the line. They believe that trade walls are good for the nation, damn the evidence. “This time it is going to work,” they say, beguiling the credulous. But it never does, not for advanced economies as heavily enmeshed in world markets as is the United States.

Joschka Fischer, antigo líder dos Verdes e ministro dos Negócios Estrangeiros, assume alguma perplexidade num artigo do El Pais, El factor Trump y la política exterior de Estados Unidos, um texto onde começa por reconhecer que “En el primer año de la presidencia de Donald Trump, los daños causados por su Gobierno en el ámbito de las relaciones internacionales han sido menores de lo que se temía”. Mas é uma constatação que não o tranquiliza: “Los “adultos en uniforme” de la Casa Blanca (el secretario de Defensa James Mattis, el asesor de Seguridad Nacional H. R. McMaster y el jefe de Gabinete John Kelly) han asegurado la continuidad de la política exterior de Estados Unidos, y lo mismo parece ser cierto en la política económica y comercial. ¿Significa eso que el mundo puede descansar con alivio? Por supuesto que no. Todavía pende un gran signo de interrogación sobre la política exterior estadounidense en la forma de Trump mismo. Es muy poco claro lo que desea, lo que sabe realmente y lo que sus asesores le cuentan o lo que callan. Puede que una política exterior coherente no resista los cambios de ánimo y las decisiones espontáneas de Trump.”


Mas se estes dois colunistas representam de alguma forma a leitura das elites europeias, há que estar consciente de que nem todos pensam da mesma forma no Velho Continente, como nota Bill Wirtz do RealClearWorld em There's Plenty of Love For Trump in Europe. É uma análise onde se refere um tema a que já nos referimos várias vezes em anteriores newsletters, um tema a que nem sempre se dará a devida atenção, o das clivagens Este-Oeste na União Europeia: “The harder Western European nations push back against Trump-style populism, the more emboldened newer members will become to rebel against the Brussels status quo.  Divisions such as the one over Jerusalem will likely become more commonplace. In fact, these kind of diplomatic decisions could put comparably small Central and Eastern European nations on Trump’s radar. The European Union's strife has proven it is disconnected to its own members. The more you move towards the East, the less countries care about the politics of the person, and more the interests that a good relationship with the United States can bring. Meanwhile, Western Europe seems to be more preoccupied with how they can mock the U.S. president than how to work with him.”

Antes de terminar, uma nota final para sublinhar que no Summary of the 2018 National Defense Strategy se clarifica o que deve ser lido como uma mudança importante de prioridades, algo bem sintetizado neste parágrafo da introdução: “We are emerging from a period of strategic atrophy, aware that our competitive military advantage has been eroding. We are facing increased global disorder, characterized by decline in the long-standing rules-based international order—creating a security environment more complex and volatile than any we have experienced in recent memory. Inter-state strategic competition, not terrorism, is now the primary concern in U.S. national security.”

Este é um tema a que seguramente teremos de regressar, mas por este semana é tudo. Tenham um bom fim-de-semana.
Título e Texto: José Manuel Fernandes, 3-2-2018

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