sábado, 22 de abril de 2017

O prof. Marcelo no jardim-de-infância

Alberto Gonçalves


Os pasmados são livres de elogiar fervorosamente a zelosa atuação do prof. Marcelo. Mas convinha notar que cada elogio é um atestado de menoridade a Portugal.

Uma avioneta caiu em Cascais e o lugar do acidente foi invadido pelas entidades necessárias: ambulâncias, mirones, estagiários televisivos e o prof. Marcelo. Num instante, a chegada do prof. Marcelo tornou-se o centro da notícia, e o rosto dele omnipresente nas intermináveis reportagens que encheram o dia e animaram a melancolia das redacções. De cada vez que alguém falava para uma câmara, o prof. Marcelo plantava-se atrás, a abençoar o que era dito. Ao que tudo indica, o prof. Marcelo não coordenou a logística, não prestou primeiros-socorros aos feridos, não ressuscitou os mortos e, ao contrário do que se esperaria, nem sequer emitiu qualquer palpite.

Então, o que fez ali? Na TVI, salvo o erro, um sujeito tentou uma explicação: o prof. Marcelo evitou o pânico. Sem ele, a acreditar nesta apologia, multidões teriam corrido pela A5 afora, numa debandada em que valeria tudo incluindo arrancar olhos. Com ele, imperou a calma. Para os que acham que “calma” está longe de ser a palavra mais adequada a um desastre aéreo, não achem. No dia seguinte, e só no dia seguinte, o prof. Marcelo apresentou a própria versão dos acontecimentos: “Estava próximo e as notícias que tinha eram, felizmente, porque depois não se confirmou, muito piores”.


Apetrechado do extravagante optimismo com que troca os sintomas de ruína económica por boas novas, o prof. Marcelo limitou-se a acomodar às circunstâncias a sua visão alternativa (digamos) da realidade. De facto, a avioneta podia ser um 747, o parque de estacionamento do Lidl podia ser a audiência do Rock in Rio e – se por redobrado azar o prof. Marcelo não estivesse próximo – Portugal podia agora chorar milhares de vítimas fatais. Assim, chora apenas cinco, o que, de acordo com o prof. Marcelo, é quase motivo de festança.

Enquanto o champanhe não refresca, vale a pena uma perguntinha: o que é isto? Ao que consta, é um Presidente da República. Os cépticos, aliás uma minoria desprezível, dividem-se em inúmeras teorias para decifrar o comportamento do prof. Marcelo desde que entrou em Belém, no caso da avioneta e no resto. O que é que, afinal, fundamenta o alegre frenesim do homem?

Uns defendem que o prof. Marcelo se encontra francamente ao serviço dos poderes vigentes. Outros julgam que o prof. Marcelo procura armazenar legitimidade e “peso” para o dia em que o arranjinho governamental nos devolver à bancarrota. Outros ainda juram que o prof. Marcelo possui um medo fóbico da impopularidade. Outros, por fim, garantem que a euforia inconsequente é o estado natural do prof. Marcelo. Todos terão um pedacinho de razão.

A mim interessa menos a psicologia do prof. Marcelo do que a essência dos respectivos súbditos. É inegável que, voluntariamente ou não, o prof. Marcelo recuperou a tradicional figura do pai coletivo e, ao invés de Soares ou Cavaco, adaptou-a à sensibilidade da época. Os portugueses de sempre precisam de quem pareça protegê-los. Os delicados portugueses de hoje precisam de quem o faça com meiguice ou, para usar o ridículo termo em voga, “afetos”. A mistura de ambos os atributos descreve o sucesso imediato do prof. Marcelo, e descreve-nos melhor a nós, o “povo menino” a que se referia um falecido poeta – um poeta que acrescentava: o que não dá é para ser país.

No fundo, não é ao prof. Marcelo que compete poupar nas fantasias e esclarecer os cidadãos acerca da fraude em que os afundam. São os cidadãos que, se querem merecer o nome, a deviam identificar. Os pasmados são livres de elogiar fervorosamente a zelosa atuação do prof. Marcelo. Mas convinha notar que cada elogio é um atestado de menoridade a Portugal.

Nota de rodapé

Soube-se recentemente que os representantes de alguns clubes da bola recebem um relatório semanal com as opiniões que, a bem da isenção de cada um, devem reproduzir nos programas televisivos em que participam. No fundo, isto não é mais do que a imitação do que acontece no mundo partidário, onde os comentadores do ramo – invariavelmente independentes – se limitam a debitar o evangelho aprendido na respectiva sede. Umas vezes, é o futebol que segue a política. Outras, como quando governantes contemplam jogos ao lado de dirigentes desportivos ou se atropelam para tirar uma “selfie” com Cristiano Ronaldo, é a política que anda a reboque do futebol. O importante é que a velha e saudável promiscuidade não se perca.

Por sorte, nem todos se contentam em manter viva a tradição: há aqueles que procuram renová-la. O PSD, por exemplo, arriscou um passinho em frente e, na sensata convicção de que duas desgraças juntas produzem uma benesse coletiva, propôs à câmara de Loures um senhor que se notabilizou a falar de pênaltis na CMTV. Além de constituir um gesto de simpatia para com os autarcas que passaram a analistas de arbitragem, a coisa promete. E já começou a cumprir.

Para início de conversa, o sujeito em causa, um tal André Ventura, acusou o FC Porto de “ingerência eleitoral”. Certas almas ofenderam-se sem razão. É natural que o sr. Ventura leve para a disputa as únicas referências que compreende, mesmo que absurdas. Se o escolhido fosse um cozinheiro, toda a gente esperaria que a campanha se centrasse no plágio de ementas. E, a julgar pelas amostras, aposto que o PSD candidatou um cozinheiro algures. Falta de respeito pelo poder local? Talvez, e o engraçado é que o poder local merecia ainda pior.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 22-4-2017

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