segunda-feira, 24 de abril de 2017

Covarde e desleal, esquerdista Boff deixa Lula e rola em si mesmo

Depois de Paulo Henrique Amorim, chegou a vez da face mais visível da Escatologia da Libertação chutar seu aliado histórico. Que monumento moral!

Reinaldo Azevedo

Boff, com o PT no peito, na campanha de Dilma em 2014. Em 2017, quando acordou certa manhã, ele havia se transformado num inseto monstruoso. Imagem: Reprodução
É… Nada como viver tempos interessantes. Dia desses, Paulo Henrique Amorim resolveu abandonar o barco de Lula. Escrevi a respeito. Agora, outro notório esquerdista, que há muito vive à sombra do petismo, faz a mesma coisa: Leonardo Boff, o ex-frei do que chamo “Escatologia da Libertação”. Já volto a ele. Quero antes fazer algumas considerações gerais.

Coragem e lealdade
Já escrevi e reitero que há duas qualidades que admiro independentemente de conteúdo ou postulações: coragem e lealdade. Não posso pensar em nada mais asqueroso do que seus respectivos contrários: covardia e traição. Ainda que eu repudie a causa deste corajoso ou daquele; ainda que eu possa achar que o beneficiado pelo amigo leal não vale o esforço, aplaudirei sempre as duas virtudes, mesmo que combata seus protagonistas. Só vale a pena viver assim. E, por óbvio, quero-me e sou corajoso e leal. A leitura de “A Ilíada” explica com mais riqueza o que vai aqui. Se um dia tiverem tempo, leiam-na.

Ao fazer essa lembrança, relevo que trato de virtudes antigas, que não têm marca ideológica. Até porque a esquerda pode ser notavelmente traiçoeira e covarde em nome da “causa”. Há rica literatura, muito especialmente a política, a respeito. E a direita pode praticar as duas coisas em nome do “pragmatismo”, já que costuma ter pouca imaginação para utopias.

“Causa” e “pragmatismo” são, pois, vestes que os pusilânimes e os vigaristas envergam sob o pretexto de cuidar da coisa pública. Cedo ou tarde, os fatos os aguardam. Se cedo, melhor: talvez haja tempo para aprender alguma coisa. Se tarde, nada a fazer. A terra há de comer mais um infeliz.

Vamos a Boff.

Este senhor, certa feita, escreveu um artigo com um ataque violento contra mim. Por quê?

Quando morreu o arquiteto Oscar Niemeyer, escrevi, citando Millôr sobre um seu amigo do “Pasquim”, que o artista era “metade gênio e metade idiota”. Eu admirava — e admiro  — seu trabalho; acho algumas de suas soluções admiráveis; a leveza que o concreto armado assume em sua prancheta não tem paralelo. Mas pensava o que pensava em política. O homem morreu stalinista!

Boff ficou revoltado. Este senhor pio, religioso, generoso, decidiu me chamar de “besouro rola-bosta”, expressão que a esgotosfera esquerdista repetiu até se fartar. Hoje em dia, conheço também a esgotosfera de extrema direita. São iguais em tudo. Até na venalidade. Aquela tinha seus financiadores secretos. Esta também.

O homem que me brindou com associação tão poética escreve agora um post  em que entrega Lula e o PT às cobras — sim!, claro, os demais partidos, o PSDB em particular, apanham muito, ainda que de forma oblíqua. Já explico.

Espancando um tanto a língua, o que não lhe é estranho, Boff manda ver:
“Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluídos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido. A mim não interessa o partido mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação, a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco.”

Reproduzindo um texto imbecil
Na sequência, Boff reproduz, em sinal de endosso, um artigo da jornalista de esquerda Carla Jiménez, publicada na edição online para o Brasil do jornal “El País”. O texto dela é de uma ruindade assombrosa. Entre outras razões porque mistura alhos com bugalhos. Leiam isto, por exemplo:

“[políticos] Garantiram suas aposentadorias com dinheiro desviado e agora acreditam ter legitimidade para decidir o destino da velhice de todos os brasileiros que fizeram o verdadeiro papel de palhaços neste teatro.”

Demagogia barata e intelectualmente vigarista. A Previdência estaria quebrada ainda que ninguém houvesse roubado um centavo.

Num outro momento, diz esta senhora:
“Tem até o ex-relator do impeachment no Senado, Antonio Anastasia — que discursava indignado sobre o crime das pedaladas fiscais de Dilma Rousseff no ano passado — e que agora terá de provar que não é criminoso, apesar da acusação de que teria recebido caixa 2 de baciada da Odebrecht.”

Em primeiro lugar, ela inventou que existe a acusação de que Anastasia recebeu caixa dois “de baciada”. Candidamente — nota-se que a escriba é, digamos, modesta —, ela parece achar muito justo que alguém tenha de “provar que não é criminoso”… É o que acontecia na Espanha do franquismo, né? As pessoas tinham de provar que eram inocentes. O órgão acusador não precisava evidenciar a culpa. Bons tempos, não é, Carla?

No ápice, desculpem-me a expressão dura, da delinquência intelectual, diz a tal:
“Elite criminosa. O que é a pedalada fiscal hoje, se não cosquinhas perto da monstruosidade que o topo da pirâmide política e econômica promove no Brasil.?”

Ora, o crime das pedaladas independe da roubalheira institucionalizada. E foi igualmente cometido. Qual é a sugestão? Que Dilma permanecesse no cargo já que o país é esculhambado?

E, claro!, a doutora em Brasil tem uma receita para resolver a crise:
“Saiam todos, por favor. Vocês são maus exemplos a seguir.”

Não foi o que fez a Espanha. Resolveu enterrar os cadáveres do franquismo e ressuscitar, ora vejam, as varizes azuis da monarquia. E não é que a transição deu certo? Ainda bem que Carla não tinha como opinar. Seu texto é de um jacobinismo ginasiano. Duvido que algo tão ruim saia nas páginas do El País espanhol. Mas sabem como é… Devem pensar: “Para brasileiros, está bom demais”.
Lula
E Carla Jiménez desce o sarrafo em Lula, com o endosso de Boff. Num trecho de esquerdismo pedestre, escreve:
“Lula, por outro lado, mais do que os crimes a que responde, feriu de golpe a esquerda no Brasil. Ajudou a segregá-la, a estigmatizar suas bandeiras sociais e contribuiu diretamente para o crescimento do que há de pior na direita brasileira. Se embebedou com o poder. Arvorou-se da defesa dos pobres como álibi para deixar tudo correr solto e deixou-se cegar. Martelou o discurso de ricos contra pobres, mas tinha seu bilionário de estimação. Nada contra essa amizade. Mas com que moral vai falar com seus eleitores?”

Notem que, nos políticos “de direita”, muito grave é o roubo do dinheiro público. No caso de Lula, um esquerdista, não! Seu maior pecado foi “ferir de golpe (?) a esquerda do Brasil” (…), contribuindo “diretamente para o crescimento do que há de pior na direta brasileira”. Num momento de uma parvoíce ímpar, escreve: “[Lula] Martelou o discurso de ricos contra pobres, mas tinha seu bilionário de estimação. Nada contra essa amizade. Mas com que moral vai falar com seus eleitores?”.

Não é que Carla ache errado o discurso dos “ricos contra os pobres”. Parece que disso ela gosta. Ela só não aprova que o chefão petista o faça tendo um amigo bilionário…

Carla não deve ter noção de quão ruim é. Não por acaso, o Boff gostou…

A jornalista do El País só está praticando seu, como direi?, “hedge” com o espírito da Lava Jato.

Ao agir assim, tenta fazer com que seu conhecido alinhamento com as esquerdas não se confunda com eventual desprestígio à força-tarefa. E ela percebeu também que, hoje, alinhar-se fanaticamente com os procuradores faz bem às esquerdas. Afinal, eles deram a esta senhora a oportunidade de escrever um texto que iguala todos os citados na operação, sejam ladrões ou não. Daí que ela peça que todos saiam.

De volta ao Boff
Boff reproduziu o texto porque concordou. Ele também está procurando se livrar da herança petista. O homem santo já ligou os radares de sua sofisticada moral em busca de outro salvador da pátria. E ele o faz quando Lula está numa pior, convenham.

Esse é o cara que me chamou de besouro rola-bosta. Ainda que eu fosse, uma coisa é certa: jamais rolaria na matéria de que são feitos os Boffs da vida. Eu seria um besouro muito exigente. Vá lá o estrume… Mas nunca a covardia e a deslealdade.
Que estão abaixo da bosta!
Título e Texto: Reinaldo Azevedo, VEJA, 24-4-2017

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