quarta-feira, 22 de março de 2017

A Academia

Após o regresso da primeira viagem a Siracusa e depois da funesta experiência com Dionísio, o Velho, Platão voltou a Atenas, onde fundou um centro de ensino e formação para os seus discípulos, pelos vistos graças ao dinheiro que lhe foi entregue por Anicérides de Cirene, que o libertara da escravatura em Egina. A escola designou-se como “Academia” (nome com que desde então nos referimos a um centro formativo), pela localização na qual foi construída: uns terrenos situados nos arredores de Atenas, nuns jardins que albergavam um santuário dedicado a um herói menor, Academo.

Dispomos de poucas notícias acerca do programa seguido na Academia, porém, atendo-nos ao ideal formativo exposto em A República, os estudos deviam durar quinze anos, o dez primeiros dedicados à matemática, considerada por Platão como a disciplina que aproximava e preparava a alma para a compreensão das Formas (e portanto da realidade). Somente então se encontrava o discípulo em condições de enfrentar os últimos cinco anos consagrados às questões propriamente filosóficas.

Com efeito, chegaram-nos umas quantas provas da importância da matemática no programa curricular da Academia Platónica. Encontramos a primeira mesmo à entrada da escola, em cujo dintel podia ler-se a máxima (ou advertência!): “Que não entre quem não saiba geometria”.

A segunda é-nos proporcionada por Aristóteles, de quem se diz que contava como os recém-chegados à Academia ficavam estupefactos pois, esperando ser instruídos acerca do Bem e do Ser, não ouviam falar de outra coisa que não fosse matemática, astronomia, o Uno e o limite.

Por último, não há melhor prova disso do que a quantidade e qualidade dos matemáticos que passaram ou saíram da Academia, entre os quais sobressaem, acima de todos, Eudoxo de Cnido (do qual, segundo algumas fontes, Platão pareceu sentir uma certa inveja) e Teeteto.

Em qualquer caso, o objetivo da Academia não era outro senão o de formar autênticos “filósofos” em sentido original, isto é, amantes do saber, que pudessem transformar-se em homens de Estado e dignos governantes das pólis.

Aquando da morte de Platão, a direção da instituição recaiu sobre Espeusipo, um filósofo e matemático menor, mas que contava com o indiscutível  “mérito” de ser o sobrinho do fundador (era filho de Potone, irmã de Platão). Não deixa de ser curioso (e ilustrativo) ver como o nobre e moralizador Platão, defensor do governo dos melhores, acabaria os dias com aquilo que se nos afigura como um vulgar ato de nepotismo.

É que não devemos esquecer que entre os discípulos de Platão na Academia se contavam algumas figuras de valor e prestígio indiscutivelmente superiores aos do bom do Espeusipo; em particular, um jovem estagirista destinado a converter-se num dos grandes nomes da história do pensamento e da filosofia: Aristóteles.
Texto: in “Platão – A verdade está noutro lugar”, edição Cofina Media SA, páginas 18 e 19.
Digitação: JP

A Escola de Atenas, 1511, óleo de Raffaello Sanzio, ou Raphaël (1483-1520), Museu do Vaticano. No centro da composição, Platão e Aristóteles debatem sobre a natureza da realidade.


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