segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Presumido culpado

Jacques de Guillebon

Avaliando o número de vítimas contemporâneas, poderíamos julgar que os seus carrascos são uma legião. De jeito nenhum. O autor de todas as atrocidades que devastam o planeta, arruína as existências, provocam loucuras, medos e psicoses é um só. Como um pai perante a sua família numerosa.

É o doce “fucking white male” dos nossos amigos americanos, sim, o homem branco heterossexual, cisgênero, cristão de preferência. Contra ele, no tribunal, multidão de reprovados, de esquecidos, de dominados: feministas, homossexuais, transgêneros, vegans, minorias étnicas, muçulmanos, crianças, inteligências artificiais, todos e todas com um dedo vingador o culpam de ser o organizador das suas infelicidades.

Pensem: ele, o homem branco, deu-lhes nações, medicamentos, uma gramática, catedrais e prefeituras, sábios, constituições, meios de transporte e de comunicação, uma agricultura, um comércio, armas também, filósofos, escritores, pintores, músicos, estruturas familiares, universidades.  A apropriação cultural foi total. Eles se renderam, de boa vontade. E é isto que eles reprovam e acusam o homem branco.

Que a razão seja uma mistura de Édipo com rivalidade mimética girardiana (do filósofo René Girard) salta aos nossos olhos. No entanto, esta banalidade do homem não desarma os seus acusadores. As suas reivindicações têm raízes muito antigas, pelo menos cinquenta anos para algumas, mas elas ganharam um novo fôlego por ocasião da eleição do estúpido e obtuso Trump, encarnação hiperbólica de todos os seus ódios. Pão abençoado para os empreiteiros de demolições. Péssimo tempo para os encaixes perfeitos.

No entanto, nunca se viu o dominador se desculpar tanto. O homem branco habituara-se a abrir a porta às mulheres. Na prática atualmente: deixam-no abrir a porta, mas ele não entra. Nem na universidade, nem nos conselhos de administração, nem nas Assembleias.

Novo Merlin preso no círculo de Viviane, é como prisioneiro da sua própria magia que o antigo ordenador do mundo acabará o seu destino. Certamente, vão conservar alguns exemplares, a modo de poder descarregar os nervos. Mas está assegurado, pelo menos na cabeça desta massa disforme, que usufrui da sua deformidade que chama de indefinição – indefinição de toda a espécie: indefinição no teu gênero, indefinição na tua língua, indefinição na tua história, indefinição no teu sexo e indefinição no teu cu – que o reino do homem branco acabou. O leão morreu esta noite. As hienas brigam pelos seus restos.
Título e Texto: Jacques de Guillebon, l’Incorrect, nº 2, outubro 2017 
Tradução: JP

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