Para não perder eleitores, políticos brasileiros não se acanham em dizer agora o oposto do que diziam antes. E apostam no curto prazo ao invés de olhar para o futuro
Nuno Vasconcellos
Quem acompanhou, na semana
passada, o último capítulo da novela que terminou com a aprovação pela Câmara
dos Deputados da lei que endurece o tratamento às facções do crime organizado,
reparou um detalhe, no mínimo, intrigante. Parlamentares da situação, que
normalmente rejeitam toda e qualquer medida minimamente rigorosa de combate à
bandidagem, acabaram dizendo sim ao mesmo texto que cobriam de críticas em
novembro do ano passado — quando o relatório apresentado pelo deputado
Guilherme Derrite (PP/SP) foi aprovado por 370 votos a 110. No final das
contas, o projeto foi aprovado por votação simbólica e seguiu para sanção do
presidente da República.
Merece atenção, especialmente, essa mudança de posição dos deputados da esquerda a respeito de uma posição que parecia um dogma sagrado em sua cartilha de princípios — o de que bandido bom é bandido solto e sem a obrigação de prestar contas à Justiça. O que terá acontecido nos últimos meses para justificar uma mudança de posição tão radical a respeito de um assunto tão sensível, como é o combate à criminalidade?
Vamos aos fatos. Derrite ocupava a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e se licenciou do cargo para relatar um projeto de lei destinado a punir as facções criminosas que espalham terror pelo país. O momento não poderia ser mais propício. No dia 28 de outubro, uma operação vigorosa conduzida pelas polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro nas comunidades da Penha e do Alemão terminou com 122 mortes. Cinco das vítimas fatais eram policiais. Entre as outras 117, a grande maioria era de narcotraficantes ligados à facção Comando Vermelho.





