quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Reviver o comunismo em Pequim e em Moscovo

Maria João Marques
Tem muita piada que a esquerda sonsa que dá lições de democracia enquanto quer ignorar a vitória eleitoral de PSD e CDS queira fugir às responsabilidades históricas da ideologia que PCP e BE propagam.

Elenco as características mais salientes de António Costa: a) é um megalómano e b) as suas limitações não lhe permitem capacidade de aprendizagem. Pelo que julga-se capaz (ele, cuja competência o fez perder com estrondo eleições fáceis) de domar – da forma que só conta (oh que conveniente) depois de ser indigitado primeiro-ministro – no governo ou no parlamento o PCP e o BE. Como se fosse igual ter um vereador comunista a emitir uma licença para uma festa de uma associação de estudantes e ter PCP e BE a impor legislação (ou lá se vai o acordo) para incinerar a iniciativa privada de um setor, a gerar desemprego ou até, quem sabe, como na Venezuela (esse regime que tanto amam), a ilegalizar o lucro das empresas.

É que, sinceramente, olhando para PCP e para BE, os nossos problemas mais pequenos são os compromissos com a NATO ou a permanência no Euro. O BE apoiou os grupos terroristas ETA e IRA. Estas agremiações estão agora mais recatadas – quem sabe se não por País Basco e Irlanda do Norte, esses territórios tiranicamente colonizados, terem os supermercados cheios (ao contrário da Venezuela) – mas organizaram o seu quinhão de atentados e de mortes de inocentes. Os amigos do BE.

O PCP é um caso ainda mais interessante. Porque há muito mais para dizer – que o comunismo não é unidimensional – do que referir os milhões que morreram à fome nas campanhas de socialização da agricultura de Lenine, Estaline e Mao. Ou requisitar à vitrina dos crimes contra a humanidade os gulags do ameno clima siberiano e a Revolução Cultural Chinesa (sintomaticamente chamada de Holocausto Chinês).

Não devemos ser picuinhas a enumerar as aberrações do comunismo. Há dois autores que recomendo muito: Orlando Figes para a União Soviética com A People’s Tragedy e The Whisperers e Frank Dikotter para a China com The Tragedy of Liberation (reparou na prevalência do termo ‘tragédia’ aplicado ao comunismo, não reparou? pois) e Mao’s Great Famine (e para 2016 está prometida a obra de Dikotter sobre a Revolução Cultural).

Em The Whisperers [há uma tradução portuguesa, Sussurros, da Aletheia], que dá conta da brutalidade estalinista sobre qualquer dissidente, podemos perceber que o perigo do comunismo não é só a nacionalização da banca. É a guerra que faz a qualquer instituição que perigue a hegemonia do partido comunista – por exemplo as famílias, que tinham de ser vergadas, estilhaçadas, quebradas até colocar os indivíduos, atónitos com o terror de serem perseguidos, mais fiéis ao partido comunista que aos familiares.

Na China, esperava-se divórcio rápido de quem estava casado com alguém que por artes do I Ching de repente se via como inimigo do povo. Os filhos denunciavam os pais capitalistas e os colegas direitistas.

Nos dois países a vigilância era constante e omnipresente, a denúncia cobarde era premiada, qualquer pecadilho se usava para destruir uma pessoa e os seus.

O mais curioso nas sociedades comunistas é que com tanta luta de classes produzem as classes sociais mais rígidas, com uma férrea hierarquia determinada pela proximidade com a cúpula do partido comunista. Na URSS a aristocracia partidária usufruía de espaçosos apartamentos em Moscovo, dachas luxuosas nos arrabaldes, estâncias de veraneio na Crimeia; o resto da população morria (literalmente) de frio em exíguos apartamentos enregelados. Na China, durante a Revolução Cultural, cunhou-se mesmo o termo de ‘linha de sangue’ para aferir a classe inescapável a que se pertencia – determinada pela posição social do patriarca da família em 1949. Qualquer bom revolucionário só casava dentro das classes vermelhas (as boas). O amor e o desejo eram luxos burgueses e, tal como os cristãos ultraconservadores que apenas cedem aos apetites para procriar, o bom chinês casava-se somente para dar novos revolucionários ao partido.

Um bom filme para entender o (falhanço do) comunismo é Ninotchka, o filme de 1939 onde Greta Garbo riu. Frank Zappa opinou que ‘communism doesn’t work because people like to own stuff’. Com Ninotchka passa-se algo parecido. Quando chega a Paris escandaliza-se com um chapéu de senhora escultural e pouco prático, exposto numa montra, e decreta que uma civilização que produz tal coisa está amaldiçoada. Mas depois da sua famosa gargalhada – que lhe libertou o humor e até lhe fez perceber que a atração entre uma mulher e um homem envolve mais que reações químicas corporais – Ninotchka compra o silly hat. E o comunismo não resulta também por isto: as pessoas gostam de possuir chapéus (e carteiras e cachecóis e etc.) tontos. De regresso a Moscovo, Ninotchka vive a escassez de privacidade e a abundância de vigilância na casa que partilhava com outras famílias, tão bem plasmada em The Whisperers.

Mas dir-me-ão que o PCP já nada tem a ver com isto, passa à frente, get a life. Errado. É por estar tão destinado a falhar que o comunismo necessita sempre de estar acompanhado de repressões laterais. O PCP nunca renegou a sua matriz soviética nem fez qualquer penitência – e que era devida – pelos crimes do comunismo. Há poucos anos a deputada Rita Rato afirmava desconhecer o gulag (a ignorância é uma benção) e ainda hoje o PCP apoia os odientos regimes comunistas que sobrevivem. Tem de resto muita piada que a esquerda sonsa que agora dá lições de democracia enquanto advoga que se ignore a vitória eleitoral de PSD e CDS, a mesma esquerda que faz vida de atirar o epíteto de salazarenta para cima de uma direita que nada teve a ver com o Estado Novo (de resto o PS é quem melhor capta as figuras que lá pulularam), queira agora fugir às responsabilidades históricas da ideologia que PCP e BE propagam.

Má sorte, que há quem tenha todo o prazer em continuar a acenar com a imoralidade intrínseca ao comunismo. E a ver vamos se o país pobre que em 1974 e 1975 reagiu violentamente à possibilidade de ser tiranizado pelo PCP não irá reagir em 2015, muito mais rico e com muito mais silly hats a perder, de forma igualmente inesperada.
Título e Texto: Maria João Marques, Observador, 21-10-2015

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