domingo, 5 de março de 2017

Castrem o adúltero!

Vitor Cunha

Friedrich Nietzsche foi, ao longo dos seus cinquenta e cinco anos de vida, um homem profundamente solitário. Dotado de uma melancolia facilmente atribuível à débil saúde e à triste incapacidade de se relacionar sexualmente, pouco lhe restou que não andar pela montanha a recriar-se como profeta pós-teísta, apreciando a natureza como os românticos que o precederam e, eventualmente, esgalhando um ou outro misericordioso orgasmo solitário para a neve na esperança de transcendência para Übermensch, o ser relativista — ou perspectivista, além do bem e do mal — que, paradoxalmente, numa aplicação prática da noção de “eterno retorno” (Ewige Wiederkunft) o levaria à loucura e à morte prematura (No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.— Genesis 3:19). É que Deus pode estar morto, mas não anda a dormir.

Homem sem mulher é, por definição e por necessidade, um filósofo. Mulher sem homem é uma ameixa azeda.

Uma taróloga — ou seja, alguém que personifica a lógica pós-gnóstica de Nietzsche — sugeriu, na televisão, a mulher capaz de ligar em direto para se queixar da infidelidade do marido, que esta se deve arranjar, “empinocar”, para que se o marido “fizer muita ginástica em casa” lhe sobre pouca energia para a rua. Parece-me uma boa ideia — já diziam os Beatles que all you need is love —, partindo do princípio que a senhora deseja manter o casamento (recordo que ligou para uma taróloga da televisão a pedir conselhos). Porém, as gajas da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta — expressão que deve ter significado apesar de críptico), associação que discrimina 50% da população, e que também veem com afinco os programas de Tarot (ou Reiki, ou Feng Shui ou o Prós e Contras) ficaram indignadas ao ponto de terem soltado uma gotinha de xixi em forma de queixa ao Público.

Com a experiência de incontáveis anos a partir cascalho para que se desperdicem os bíceps ao volante de um camião, as ameixas azedas decretaram imediatamente que o casamento da senhora não funciona, que tem que ser terminado, e que a culpa é do heteropatriarcado, ou do patriarcado ou sabe-se lá de quê. Não sei se sugerem a castração imediata do ex-marido, mas parece-me o passo lógico seguinte. Que se lixe se a mulher que quer manter o casamento e arranjar estratagemas de evitar posteriores traições: as ameixas secas já decidiram o que é que a mulher tem que fazer, independentemente de isso ser um passo que lhe origine felicidade ou não.

Que os homens sabem que não percebem as mulheres, é óbvio. Que haja mulheres que achem que percebem os homens é que é só triste. Que haja mulheres que nem a maioria das outras mulheres percebem é que é cómico. 
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 4-3-2017

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