terça-feira, 25 de abril de 2017

França deve eleger candidato sem partido. O impasse político continua

Cesar Maia
               
1. Uma certa euforia de quase todos, incluindo a imprensa, com a passagem de Macron para o segundo turno na eleição presidencial da França, deixou de lado o fato de que se trata de um candidato sem partido. Macron criou seu partido – EN MARCHE – em maio de 2006 e utilizou as letras de seu nome. Terá que governar sem base parlamentar, a qual terá que atrair caso a caso, supondo que a tradição partidária na França não deverá gerar uma migração partidária expressiva para sua base parlamentar.
                   
2. O isolamento de Marine Le Pen, de extrema-direita, gerou um alívio. Os riscos para o Euro se vão. Mas o fato de um país como a França - referência histórica da política e da sociologia desde a revolução francesa, que batizou as expressões direita e esquerda conforme seus posicionamentos no plenário da assembleia nacional - ter levado ao segundo turno e, provavelmente, à presidência um candidato sem partido, mostra a gravidade da crise política na Europa.
                   
3. Ex-ministro de economia de François Hollande, dissidente que adotou um programa híbrido, de corte liberal, social, nacional, etc., talvez por isso tenha sido caracterizado como candidato de “centro”. Seu programa de governo não indica isso.

4. Comprometeu-se em seu programa de governo a suprimir 120 mil vagas de servidores e a reduzir os gastos públicos em relação ao PIB com corte de 60 bilhões de euros durante seu mandato. Disse que vai aumentar as pensões mínimas em 100 euros por mês, sinalizando uma postura social-liberal. Fala em exigir ficha-limpa de candidatos e proibir parlamentares de contratar familiares, numa alusão ao candidato do PS – Fillon – desgastado com o fato de sua esposa.
           
5. Diz que vai restabelecer o serviço militar obrigatório, criar 15 mil vagas de prisão e contratar mais 10 mil policiais civis e militares, num aceno ao eleitorado impactado com as ações terroristas.
       
6. Num aceno à modernidade, apresentou um plano de investimentos de 50 bilhões de euros priorizando os incentivos à formação profissional e à transição energética.
           
7. Em outro aceno, agora aos nacionalistas que cresceram com a crise dos refugiados, Macron informa que vai criar mecanismo de controle de investimentos estrangeiros em setores industriais estratégicos e vai lutar contra a otimização fiscal de grandes grupos de internet.
       
8. Os analistas políticos e partidos brasileiros devem ficar atentos à situação francesa. A provável pulverização do quadro eleitoral na eleição presidencial de 2018 tende a levar ao segundo turno candidatos que, como na França, não atingirão 25% dos votos, abrindo espaço à antipolítica ou a candidatos quase-independentes, e que incluirão em seus programas de governo uma mescla de propostas que agradem a persas e babilônicos, e um governo híbrido e de pouca mobilidade política.
    
9. Se for assim, a crise política brasileira, como provavelmente a francesa, não terão solução em curto ou médio prazos.
Título e Texto: Cesar Maia, 25-4-2017

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Um comentário:

  1. Dois pequeninos reparos:
    Não, a euforia não ‘incluiu’ a imprensa, ao contrário, a euforia (antes, durante e depois) foi da imprensa. Oxalá essa euforia midiática e ‘clintoniana’ tenha o mesmo desfecho do que aquele que ocorreu lá pertinho do Canadá.

    François Fillon não era candidato do Partido Socialista, mas sim do ‘Les Républicains’, que sucedeu ao UMP-Union pour Un Mouvement Populaire; o candidato do PS foi Benoît Hamon.

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