sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Passos e Costa, o ouriço e a raposa

Rui Ramos
Passos Coelho sabe uma grande coisa, António Costa sabe muitas pequenas coisas. O que é que convém ao país?

Ainda se lembram do debate de anteontem? Talvez não. Mas deu jeito a variadas famílias, na véspera, antecipá-lo como um duelo decisivo, não só porque as televisões pretendiam recordes de audiência, mas porque, após tantas sondagens tecnicamente empatadas, até teria a sua graça haver um desempate. Por tudo isso, houve mesmo que inventar um vencedor na noite, e esse vencedor foi, de acordo com um compreensível princípio de justiça, quem mais necessidade tinha de vencer: António Costa. Na manhã seguinte, porém, a vitória já não parecia tão clara. Como as flores de certas plantas raras, não durou uma noite.

Ganhar um debate, para quem precisa de ganhar de qualquer maneira, não é complicado: basta fazer o indispensável para que a claque se sinta à vontade ao clamar vitória. Há um truque: estar sempre ao ataque, disparar sobre tudo, não parar de chutar à baliza. Nem é preciso acertar: basta mostrar agitação. Foi o que Costa fez, aproveitando, aliás, a previsível opção de Passos pela impassibilidade do estadista. Costa não teve escolha: depois de tantos azares de pré-campanha, sentiu certamente que o PS lhe estava a escapar. O modo exasperado como procurou marcar pontos no debate é talvez a prova mais clara da sua fraqueza.

Entretanto, o país, pela voz dos seus comentadores, declarava-se pouco “esclarecido”. O facto é que a situação do país é tal que uma hora de debate nunca seria suficiente para o “esclarecer”. Em 2011, quando veio a troika, já levávamos dez anos de crise: desde 2001 que havia défices excessivos, que a economia divergia da Europa, que o desemprego subia, e que o endividamento aumentava. Daí, aliás, a austeridade de Manuela Ferreira Leite em 2002-2004, e os PECs de Sócrates. Nada começou em 2011, e também nada vai acabar em 2015. Tal como em ajustamentos anteriores, pagámos mais impostos e exportámos mais. Mas os problemas não parecem resolvidos, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, em 1986, depois do programa do FMI de 1983-1985. Por isso, talvez para muitos portugueses não seja claro se devem continuar com quem executou o ajustamento, ou dar uma oportunidade a quem esteve contra.

Passos Coelho fez do ajustamento a sua “missão”. Durante quatro anos, aguentou tudo, não se foi abaixo, mesmo quando muitos à sua volta perdiam a coragem. Convenceu-se que era fundamental recuperar o crédito, o que só podia ser conseguido em colaboração com os credores no quadro da União Europeia. Em 2011, pouca gente acreditara na viabilidade do ajustamento. O sucesso, até por inesperado, impressionou: fez o PSD e também o CDS aceitarem a “missão” de Passos. Hoje, os anti-passistas da direita estão isolados, ou em trânsito para o PS. Passos pode permitir-se ficar no mesmo sítio, sem variar os temas nem levantar a voz.

António Costa vive outra vida. A sua expectativa, o ano passado, era ser acolhido consensualmente. Não o foi. Viu-se forçado a andar pelos mais variados caminhos e atalhos. Aproximou-se e afastou-se do Syriza. Arranjou Nóvoa, mas também Centeno. Grita contra a “austeridade”, mas quer parecer responsável. Precisa de se distanciar de Sócrates, mas não o pode renegar. A sua guerra tem duas frentes: de um lado, o PCP, o BE e os novos radicais disputam-lhe o voto de esquerda; do outro, o governo compete pelo voto de “centro”. Pior: o próprio PS é um baralho de correntes opostas e de facções quase incompatíveis. Tudo isso significa, para Costa, uma ginástica tremenda. Precisa de ser e dizer demasiadas coisas.

O debate desta semana confrontou assim duas maneiras de ser. De um lado, Passos Coelho, mais ou menos rígido e solene, avesso a aventuras, preocupado em lembrar o que lhe parece essencial, com muitas explicações, embora por vezes sem eloquência nem rasgo, como durante a segunda parte do debate. Do outro lado, António Costa, cheio de artes e de artimanhas, desesperado, e portanto disposto a tudo, mas frequentemente sem critério, como durante a primeira parte do debate, em que não evitou o ridículo (“foi o PSD quem chamou a troika!”).

Isaiah Berlin, inspirado por um velho adágio grego, dividiu um dia os intelectuais em ouriços e raposas: a raposa sabe muitas pequenas coisas, mas o ouriço sabe uma grande coisa. Passos sabe uma grande coisa, Costa sabe muitas pequenas coisas. Uma das questões para os portugueses é saber se, neste momento, lhes convém mais um ouriço ou uma raposa.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 11-9-2015

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