segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Passado, presente e futuro – II: O suicídio

Alberto José
Nos anos 50, o Carnaval começava na Praça Onze. O desfile das Escolas de Samba era ao longo da avenida Presidente Vargas onde o povo se acotovelava para assistir à passagem das escolas. Não havia Sambódromo, [projeto de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, que foi implantado durante o primeiro governo fluminense de Leonel Brizola (1983-1987), visando a dotar a cidade de um equipamento urbano permanente para a exibição do tradicional espetáculo do desfile das escolas de samba. Inaugurada em 1984, com o nome oficial de "Avenida dos Desfiles", marcou o início do sistema de desfiles das escolas de samba em duas noites, ao invés de em apenas uma noite, como era costume até então. Posteriormente, seu nome oficial mudou para "Passarela do Samba" e, finalmente, a partir de 18 de fevereiro de 1987, seu nome oficial passou a ser "Passarela Professor Darcy Ribeiro", numa homenagem ao principal mentor da obra, o antropólogo Darcy Ribeiro.]


Naquela época os atuais "flanelinhas" colocavam caixotes ao longo da avenida e milhares de pessoas pagavam CR$ 5,00 para ficar horas em pé sobre as caixas "alugadas". Na avenida Rio Branco, super decorada pela Prefeitura, desfilavam as sociedades, Cordão do Bola Preta, Tenentes do Diabo, etc. pois as sedes dessas agremiações ficavam na Cinelândia ou na Lapa.


As arquibancadas eram nas escadas da Biblioteca Nacional ou sobre caixotes de CR$ 5,00! No Theatro Municipal, no lado esquerdo do Salão Assírio, era montado um hospital de pronto-socorro com dez ambulâncias. O trabalho era intenso, pois nos chamados "blocos de sujos" praticava-se o verdadeiro arrastão; quando o bloco passava, várias pessoas ficavam caídas no chão feridas de faca, navalha e furador de gelo. Naquele tempo, esses blocos eram uma verdadeira ameaça para quem estava na rua.


O baile do Teatro Municipal era o máximo, com artistas e celebridades internacionais pulando no salão. A vibração chegou a abalar a estrutura do teatro o que causou a posterior proibição do evento. 

Na Cinelândia, para ir ao cinema exigia-se paletó e gravata. Eu tinha um terno para assistir a A Um Passo da Eternidade, Suplício de Uma Saudade, Sansão e Dalila, Ama-me ou Esquece-me, Tarde Demais Para Esquecer, etc. Nesses filmes eu me familiarizava com a Nova Iorque que veria depois, mais de duzentas vezes!

No Natal, a loja inesquecível era a Mesbla que comentei anteriormente; outra loja muito boa e moderna era a Sears Roebuck, que tinha muita coisa importada e era frequentada especialmente pelos alunos que matavam aula e desfrutavam das suas escadas rolantes e do ar condicionado perfeito. A Sears passou por um "retrofit" e foi transformada no Botafogo Shopping!

Sears, Praia de Botafogo, 1949
O Natal era a alegria do povo que se reunia no Largo da Carioca para ver o Papai Noel chegar em um helicóptero Bell, tipo bolha, e sair em um grande desfile promovido pelo incorporador Santos Vahlis! Nessa época, o Medina pai, do Rock in Rio, tinha uma pequena loja de discos - o Rei da Voz - no grande Hotel Avenida, no Largo da Carioca!

Para ir ao Cristo Redentor, tanto de dia como de noite, não havia fila e podia subir facilmente de carro. Não havia assalto ou sequestro naquela época. Como ainda não havia "democracia plena" a Polícia andava pelas ruas e revistava qualquer pessoa ou veículo que eles achassem suspeito.

Até 1965, se você estivesse em casa doente, bastava ligar para o SAMDU Serviço de Assistência Médica de Urgência e - em 20 minutos! - eles mandavam uma ambulância na sua casa com médico(a), enfermeiro(a), motorista e equipamento de pronto atendimento.

Isso era feito pelo sistema convênio com os institutos de aposentadoria - IAPB Bancãrios - IAPI Industriários - IAPFESP funcionários públicos - IAPETEC funcionários de transporte - IAPC comerciários, etc.

Então, os militares tomaram o governo e decidiram que havia muita corrupção política nos institutos. Recolheram os bilhões acumulados nos IAP’s e criaram o INPS!... e convidaram empresários amigos para implantar Planos de Saúde copiados do Blue Cross (USA)!

Em 1962, o governador Carlos Lacerda - o mesmo que detonou a tragédia do Getúlio - resolveu acabar com os bondes da canadense Light e importou duzentos ônibus elétricos italianos "para melhorar o trânsit ". No desembarque, um ônibus caiu no mar e cento e cinquenta ficaram jogados no porto aguardando pagamento de taxas de alfândega! Quando começaram a funcionar, descobriu-se que, por algum motivo técnico (sabotagem?), a rede aérea ficou muito alta e nos cruzamentos as hastes de contato escapavam dos fios de energia e o ônibus ficava parado no meio da rua até o condutor conseguir colocar as duas hastes nos fios. Isso inviabilizou o funcionamento em relação ao trânsito e os ônibus foram tirados de circulação. Foram doados para Niterói e outras cidades. Os que sobraram foram equipados com motor diesel, o que ficou pior ainda.

(Quando acabaram com a Light, pelo contrato de exploração todos os equipamentos passariam para o governo. Acontece que a Light "bateu o pé" e contratou um advogado com ligações políticas para defender o ressarcimento do patrimônio da empresa. A Light ganhou na "justiça" e o governo teve que pagar bilionária indenização!

O advogado da Light ganhou muito dinheiro mas, depois que morreu, a sua belíssima esposa "torrou" nas mesas de pôquer todo o dinheiro que havia herdado; não sobrou nem a casa onde morava!)

A parte trágica do que eu presenciei deixei para o fim:

Escola José de Alencar, 1908
No dia 24 de Agosto de 1954 eu fui para a Escola José de Alencar, ao lado da Escola Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado. Às 07h40 a porta estava fechada e havia um aviso informando que não haveria aula. As pessoas passavam correndo, esbaforidas, em direção ao Palácio do Catete, trezentos metros distante.

Como qualquer criança doida para ver confusão corri para o Palácio, ultrapassei a aglomeração e me coloquei bem embaixo do quarto do presidente, quase esquina da rua Silveira Martins. Eu estava com medo pois a "massa ignara", o povo, parecia um animal enjaulado, tinha ímpetos de arrebentar as grades e entrar no Palácio. Xingavam o presidente de todos os palavrões possíveis, chamavam-no de covarde e mandavam que ele saísse para a rua! De repente, cerca das 8h00, ouviu-se um tiro abafado!

Dali a minutos, o ministro Lourival Fontes, vestindo um terno bege, abriu as duas grandes portas da varanda e anunciou: "O presidente está morto"! Nesse momento parece que uma onda de choque estremeceu a multidão; deu para sentir a violenta e inesperada comoção!

Imediatamente, todos começaram a chorar e a se debater amaldiçoando e ofendendo o Carlos Lacerda – que deu início ao problema, que resultou no suícidio – e saíram dali quebrando tudo pelo caminho. Viraram bondes, carros de jornais, colocavam fogo em carros e bancas de jornais e a horda enlouquecida seguiu em direção ao centro da cidade – e eu seguindo atrás!
 
Rua do Catete, agosto de 1954, depois do suicídio de Getúlio Vargas
Quando chegaram ao Tabuleiro da Bahiana, que era o terminal dos bondes da Zona Sul, um jovem correu, escalou um barranco e começou a quebrar um painel de propaganda política do Carlos Lacerda. Um policial PM correu e mandou que ele descesse, como ele continuou a quebrar o painel, o policial pegou o revólver calibre 38 e disparou contra o rapaz. Nesse instante, a turba enraivecida cercou o PM e o agrediram com socos, paus e pedaços de ferro.

Deixaram o corpo no chão, irreconhecível e sem a arma e a farda!
Título e Texto: Alberto José, 25-10-2015

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5 comentários:

  1. Obrigada por trazer essas recordações históricas.Infelizmente a última notícia que é a morte de Getúlio eu desconhecia esse detalhe da ida até o tabuleiro da baiana. valeu.
    Maria

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  2. O mundo está em constante evolução a cada minuto .No passado não havia internet nem celular, e as pessoas viviam do mesmo jeito; a economia andava, crimes ocorriam, políticos atuavam com "duas caras" e a vida seguia em frente. Dificuldades em alguns setores ocorriam em menor escala e intensidade . As informações demoravam mais para chegar ao objetivo .
    Não havia a globalização . Hoje tem-se toda a informação na palma da mão e nas telas em questão de segundos , mas os problemas enfrentados são "mega-monstruosos".

    Por outro lado, o Brasil agradece aos militares ( apesar de eventuais excessos cometidos) o favor cívico de terem extirpado o comunismo que tentava se infiltrar na pátria auri-verde naquela ocasião na década de 60 . O projeto da linha vermelha que corta 7 bairros no rio até o centro da cidade ( 21 Km) , e concluído no governo de Leonel Brizola ( anos 80) foi idealizado pelo , então governador, Carlos Lacerda , um homem de fibra e coragem.
    Atualmente, indivíduos extremistas populistas tentam de todos os modos reacender e reimplantar a chama cancerígena da filosofia Marxista, com o símbolo da foice & martelo - um regime sobretudo hipócrita.
    Essa é a nossa opinião democrática.
    Abraços.

    Sidnei Oliveira
    Assistido Aerus - RJ

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  3. ADENDO:
    O comunismo é a arte sutil de dividir entre todos, igualitariamente, os pertences adquiridos; desde que não atinja os idealizadores.
    E o melhor combate quimioterápico são doses maciças de educação.

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  4. Em 1875, Karl Marx preconizava: "De cada qual, segundo sua capacidade: a cada qual,segundo suas necessidades"! Uma teoria muito bonita mas que não é para este mundo, Como está explicitado no livro A Revolução dos Bichos de George Orwell, "todos são iguais, mas alguns ( PT! ) são mais iguais do que os outros"! Então, na comunidade socialista, na hora de dividir os lucros, sempre aparece um "chefe mais esperto" que passa os outros para trás ( vide Aerus ) ! Alberto José

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  5. Matéria muito bem elaborada e ilustrada, lembro da repercussão em Porto Alegre. A comoção foi muito grande seguida de um quebra-quebra feito por oportunistas.
    Parabéns ao autor e editor.

    Nelson Schuler

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