quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Passado, presente e futuro

Alberto José
No começo de 1950, o Maracanã estava sendo construído na estação Derby Club da Central do Brasil. Nos trens do ramal de Deodoro viajavam jovens professoras Oficiais do Exército, fardadas, que iam e vinham da Vila Militar.

O passageiro que chegava na Central, pegava confortáveis ônibus ingleses (Leyland) ou norte-americanos (GM) para ir para a Zona Sul.

Para ir a São Paulo, às 23 horas, o passageiro podia embarcar no confortável trem de aço, chamado Vera Cruz, com refinado serviço de bordo e café da manhã. Chegava em São Paulo, na Estação da Luz, às 8h da manhã.


Para Belo Horizonte, um trem idêntico, Santa Cruz, também saia da Central.

A segurança pública era feita pela recém-criada Rádio Patrulha, que eram os veículos Ford canadenses equipados com radiofonia, que deu origem ao nome.

Para as intervenções "mais pesadas" em conflitos, havia veículos vermelho e preto, denominados Socorro Urgente, que hoje é conhecido como Tropa de Choque.

Havia também, uma polícia política, muito violenta chamada Polícia Especial, sediada onde era o morro de Santo Antônio, ao lado do Mosteiro de Santo Antônio, no centro do Rio.

Onde hoje estão os prédios Avenida Central e a Caixa Econômica existia um fabuloso hotel, de linhas clássicas, tipo Copacabana Palace onde, no andar térreo, sob o hotel havia uma grande praça onde os bondes se cruzavam e havia também muitas lojas de presentes, sucos e sanduíches.


Para ir a Niterói ou Paquetá era necessário pegar a barca na Praça XV, no Rio.

Certa vez, eu estava na barca indo para Paquetá e comecei a ouvir tiros de canhão; então, eu vi que não era tiro mas eram várias arraias – do tamanho de um carro – saltando sobre as águas da limpíssima Baía da Guanabara, pois ainda não havia favelas nem rios poluídos!

De vez em quando, uma barca a vapor explodia no meio da travessia.

Em 1959, por conta do mau serviço da família Carreteiro, que explorava o transporte, houve uma revolta popular que destruiu quase todas as instalações e a mansão dos Carreteiro em Niterói (nessa época o povo ainda não levava desaforo prá casa).

Para ir até o areal chamado Barra – o Recreio não existia – o cidadão seguia pela Avenida Niemeyer e depois alugava um barco para ir até a praia do Joá.

No Carnaval, todos os bairros tinham coreto com banda de música da Prefeitura. O grande baile era o Baile do Municipal. Os mais cotados, com muitas mulheres era o High Life, o baile da Esso e o do Fluminense! Nessa época, não havia assalto com arma de fogo – que era muito cara – os assaltos eram com navalha, faca e furador de gelo!

No Natal, todos compravam presentes na loja mais animada, imbatível, que era a MESBLA, na rua do Passeio onde ainda existe uma torre com o relógio que tocava músicas de Natal! Parecia uma loja de filme americano. Todos iam lá, pois apresentavam shows e teatro infantil durante o expediente. Vendiam também lanchas e automóveis importados. A grandiosa Mesbla acabou como a Varig, liquidada por um escroque!

Nos anos 50, a televisão estava começando em São Paulo. Na rua onde eu morava, à noite, todos se aglomeravam em frente à casa de um vizinho para assistir pela TV novela ao vivo, diretamente de São Paulo. Ele era da Marinha e trouxe dos EUA uma TV Zenith, 23 polegadas, que ainda não havia no Brasil.

Outra coisa que não havia era geladeira e máquina de lavar roupa. Só quem morou fora do Brasil podia trazer a sua GE, Frigidaire, etc. O meu tio era muito rico, ele foi uma das primeiras pessoas a importar uma geladeira de oito pés. Por causa disso, eu fiquei dois dias abaixado contando os pés da geladeira - só achava quatro – pois eu ainda não conhecia essa medida norte-americana!

Ter uma lavadeira exclusiva era um sinal de "status" e toda a semana a lavadeira recolhia a roupa usada depois de fazer o "ról", que era a lista da roupa para lavar.

Na minha casa, a geladeira era uma grande caixa de madeira onde era colocada pedra de gelo com serragem, para não degelar. Quando o governo liberou a importação, compramos uma GE importada!

Para chegar ao Aeroporto Santos Dumont, precisava atravessar um extenso matagal de quase um metro de altura. No Aeroporto já havia aqueles grandes painéis pintados, e as empresas eram Panair do Brasil, Aerovias Brasil, Real, NAB Navegação Aérea Brasileira, Lóide Aéreo, Aero Geral, Cruzeiro do Sul, VASP, etc. quase toda semana havia um acidente pois a tecnologia da época já estava no limite.

No Santos Dumont, onde hoje é a Polícia Federal Marítima havia uma estação de Hidroaviões da Panam, que depois ficou com a Panair. Por isso, para São Paulo e Belo Horizonte a maioria preferia ir de trem. O Correio Aéreo (FAB) promovia um voo semanal de C-47 para levar crianças com coqueluche. Eu fui curado da doença no segundo voo.



No Galeão, operavam os voos internacionais com a Aerovias Brasil (DC-4 para Miami), Panair do Brasil (Constellation para Europa e Oriente Médio), Lufthansa (Constellation), KLM, SWISSAIR, IBERIA, AEROLINEAS (com DC-6), a PANAM operava o luxuoso Boeing 377 que esteve envolvido em cerca de 20 acidentes, o pior deles sobre a Amazônia. Não lembro se a TAP já operava naquela época. A Varig parece que ainda era restrita ao sul do país.

Em 1952, o fato mais comentado foi o Crime do Sacopã onde um bancário foi supostamente assassinado pelo Tenente Bandeira, Oficial Aviador, que foi condenado e depois absolvido em outro julgamento pois diziam que o verdadeiro assassino foi o filho de um ministro do governo!

Ladeira do Sacopã, 1952, foto: O Globo

Então, o salário mínimo era Cr$ 1.190,00 e o dólar valia cerca de Cr$ 35,00 (cruzeiros)! O governo era o de Getúlio Vargas, os Deputados e Senadores "matavam o tempo" pegando as vedetes na Cinelândia ou paquerando na porta da Confeitaria Colombo, ali perto.
Título e Texto: Alberto José - testemunha ocular da história, 22-10-2015

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Um comentário:

  1. Excelente o seu comentário, de quando este país era civilizado.
    Só esqueceu de dizer que o Rio de Janeiro chegou a ter 430 quilômetros de trilhos de bondes ou a maior rede da América latina e uma das maiores do mundo
    Agora vem uns idiotas com esse papo furado de VLT, e esquecem de fazer a rota praça XV aeroporto Santos Dumont, direto, dois pontos de chegada e saída de turistas, fora os coitados que chegam à praça terão que fazer a curva do vento, ou seja ir até à Rio Branco depois até à beira mar, para depois então chegar ao Santos Dumont.
    Coisas de aloprados que só querem ver os seus futuros políticos, sem se importar com a população. Coisas de incivilizados.
    José Manuel

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