quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quais as razões da ascensão mundial da direita?

Cesar Maia
           
1. O processo de globalização não é privativo da economia. Da mesma forma, a cultura. E, claro, da mesma forma, a política. O mercado de marketing político comprova isso. As experiências adquiridas por publicitários em campanhas eleitorais num país são contratadas por candidatos de outros países. Na América Latina isso é geral. Na Europa, essa mobilidade também é ampla, mas com as naturais restrições de língua.
           
2. Nos últimos dias, candidatos de direita e centro-direita venceram as eleições em Portugal, Polônia, Guatemala e em Bogotá. Na Argentina, a votação de Macri surpreendeu até mesmo a sua campanha e parte para o segundo turno como favorito. A extensão desses fatos e a diversidade das situações e tantos outros casos nos últimos anos permite pensar que se trata de uma ascensão globalizada da direita nas expectativas do eleitorado.
           
3. Um fator comum a todos esses casos foi a corrupção política. O vencedor do segundo turno na Guatemala – um comunicador de TV – com seus 70% de votos, contra a candidata da esquerda, usou o slogan: “Nem ladrão, nem corrupto”. E “a política pode ser feita sem corrupção.”
Em Portugal e Guatemala os anteriores chefes de governo foram presos por corrupção. (Em Portugal trata-se do ex-primeiro-ministro, José Sócrates, do Partido Socialista). Em Bogotá, o ex-prefeito de esquerda foi afastado por irregularidades. Na Polônia, os dois primeiros lugares foram dos partidos de direita e centro-direita.
           
4. Na Argentina, os escândalos que envolveram o governo de Cristina Kirchner foram o tema eleitoral. A economia em crise profunda, com inflação de 30%, PIB estagnado, Banco Central sem reservas, dólar paralelo quase 80% maior que o oficial, inacreditavelmente, não foi tema de campanha. Taxistas em Buenos Aires repetiam: não queremos um governo como esse de Dilma, aqui. O foco era a corrupção.

5. Um corte nos temas que levaram os eleitores a optar pela direita e não pela esquerda foi a corrupção política. Mas nesses anos todos para trás, os escândalos afetaram os políticos de direita e os governos de direita. Então por que a direita política surge como uma alternativa? A resposta pode ser encontrada em conversas coloquiais com as pessoas nas ruas, nas praças e em reuniões.
           
6. A percepção é que a corrupção na direita é de responsabilidade individual de políticos. Talvez pela inorganicidade dos partidos brasileiros mais à direita, o foco se dirige às pessoas dos políticos. No caso da esquerda nos governos, é como se fosse uma corrupção orgânica das direções partidárias e não apenas de um ou outro político ou dirigente. E os fatos ajudam a reforçar esta percepção. O Brasil é um exemplo, destacado entre outros.
           
7. Os destaques na imprensa reforçam isso: o PT faz parte das manchetes continuamente. Os demais partidos surgem nas manchetes, mas o foco é individual nos políticos e não no coletivo. As redes sociais comprovam e reforçam esta percepção. Vídeos e memes não só destacam políticos do PT, assim como o próprio PT, como o personagem principal.
            
8. Quando Dilma, no precipício da crise econômica e moral, chama um economista de direita, ajuda a reforçar esta percepção. O PT – e sua estrela – em todas as mobilizações e campanhas eleitorais sempre destacou a sua marca. Esse foi um multiplicador positivo na oposição. Agora, no governo, com os escândalos envolvendo ex-presidentes e tesoureiros, ministros, líderes do PT, a percepção da corrupção partidária passou a ser um multiplicador negativo.

Ilustração: Lézio Junior
           
9. E, pelo menos em 2016, não haverá tempo para reversão dessa percepção. E não é da natureza do PT esconder a sigla atrás do número. Até pode ser feito numa cidade menor. Mas nas maiores, especialmente com cobertura da TV, é impossível, pois o foco maior do PT e Lula é 2018. No Rio querem coligar com o PMDB. Assim escondem o partido e deixam o campo livre para seus candidatos a Vereador. Isso ocorrerá em outras cidades maiores. 
Título e Texto: Cesar Maia, 29-10-2015

Um comentário:

  1. Tese inteligente tecida por César Maia. Se a corrupção da esquerda é orgânica e não individual fica entendido que o foco principal é o poder pelo poder. Os eleitores já perceberam isso e preferem agora a direita onde a corrupção é menos escandalosa por ser do indivíduo e de fácil identificarão... Um corrupto no Japão, por exemplo, é imediatamente afastado do governo, sem consequências maiores para a administração. Aqui no Brasil a corrupção orgânica da esquerda é de difícil debelação, só uma faxina geral dará novo impulso para o rumo certo.... Portanto, à direita tem suas chances agora...
    Valdemar

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