sexta-feira, 24 de março de 2017

O Fim do Mundo em Cuecas

Cristina Miranda


Foi o fim do mundo em cuecas esta semana por causa de uma frase, completamente descontextualizada (claramente propositado) e depois manipulada, alegando ser do socialista holandês, Dijsselbloem. Ora, nossa querida Comunicação Social escreveu que o presidente do Eurogrupo terá dito que ” os países do Sul gastavam o dinheiro todo em álcool e mulheres.”

Porém, a frase foi precisamente esta:  “Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como socialdemocrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede, tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em álcool e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”. Dijsselbloem AFINAL falou na primeira pessoa, dando-se como exemplo. Por que então toda esta indignação?

Este episódio lembra-me uma anedota que era assim: Virou-se um indivíduo para outro: “Olá bom dia!” O outro, pensativo ao fim de uns segundos, responde: “Bom dia?!!  Ora bom dia significa sol. O sol faz crescer a erva. A erva é comida pelas vacas… Ó carago! Você chamou-me de boi!!!!” É estúpido, não é? Mas foi assim o raciocínio destes últimos dias…

Ora, não faltou quem visse nestas declarações claramente fabricadas, insultos, falta de delicadeza, falta de diplomacia, falta de ética e por aí fora. Desculpem, mas realmente é caso para ficar-se parvo a ouvir tanta gente com formação académica acima da média a deturpar uma metáfora transformando-a numa tempestade dentro de uma tampinha de água. Francamente!

Eu sei bem que levar com um banho de realidade sobretudo vinda de um socialista, dói e que para o governo das esquerdas foi traição. Mas há limites. O bom senso mandaria que se olhasse como deve ser para um comentário que nada mais é do que um aviso à governação daqueles que andaram a receber largos milhões de euros da UE e que em vez de os bem gerir, estoiraram literalmente em coisas fúteis e benefícios próprios colocando seus países em situação de pré-bancarrota. E se fôssemos gente séria, em vez de arrancar cabelos faríamos mea-culpa e aceitaríamos os factos com humildade. Fica bem e os credores louvariam tal ato.

Mas não. Sai uma ameaça aqui, mais a exigência de uma demissão acolá e um voto de repúdio a acompanhar, como se fossem virgens ofendidas imaculadas. A sério? Um governo composto por gente que compara as negociações a uma feira de gado, que manda apanhar pokémons, que se caga para o segredo de justiça, que atribui disfuncionalidade temporária cognitiva à oposição, que é mal educado no parlamento, tem alguma legitimidade para se pronunciar e pedir demissão seja contra quem for?

Acontece que aquela metáfora, goste-se ou não, assenta que nem uma luva, em terras portuguesas. Não pelo seu povo, o único que trabalha arduamente qual “campo de trabalho forçado”, para pagar as contas quase perpétuas dos desvarios governamentais, mas sim, nos políticos que fizeram a farra toda sem pedir licença a ninguém. E foram muitos com muitos mil milhões... Foi a festa do parque escolar, foi a festa dos aeroportos e dos TGV, da festa das autoestradas vazias, festa das rotundas, festa das formações fictícias, festa dos dinheiros a fundo perdido aplicados em porsches e casas de férias e offshores, a festa das obras megalómanas, a festa dos empréstimos milionários sem garantias, a festa dos aumentos salariais, pensões e regalias públicas.

Na minha opinião, Dijsselbloem pecou apenas por ser pouco preciso e não ter dito gastar dinheiro em “fotocópias, garrafas de vinho em envelopes com fita cola” ou “Metro do Mondego que paga striptease, vinho, perfumes e festas“. Aí sim, já ninguém se revoltaria e não haveriam erros de percepção mútuo.
Título e Texto: Cristina Miranda, Blasfémias, 24-3-2017

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