domingo, 20 de março de 2016

Para ver o bando passar

Alberto Gonçalves

A extraordinária quantidade de especialistas em política brasileira que ocupou as nossas televisões e imprensa dispensa os palpites de um leigo. Ainda assim, não me dispenso de os fornecer, principalmente porque esta coluna se alimenta de temas da actualidade e, na última semana, a actualidade pareceu resumir-se às proezas do senhora Lula & Associados. Logo, ou escrevo sobre o Brasil ou vejo-me forçado a escrever sobre futebol, ou sobre a gripe que me atacou há dias. Desgraça por desgraça, antes o Brasil. Eis, pois, as minhas impressões a propósito.

Primeira impressão. O efeito produzido por milhões de pessoas em protesto nas ruas dissolve-se no instante em que, no meio da multidão, é descoberta uma família branca com uma ama-seca preta. Pelos vistos, este bombástico pormenor desvaloriza imediatamente as manifestações e prova o "racismo" e o "classismo" dos manifestantes. A circunstância de a ama-seca ter confessado empregar, ela própria, outra ama-seca, ignoro de que cor, não invalida o essencial: se o povo está contra a esquerda, não se trata de povo, mas de serviçais da "direita", do capital e dos EUA.

Segunda impressão. Quando duas criaturas de esquerda são escutadas a arquitectar trafulhices ao telefone, o problema está na divulgação ilícita das escutas - e não nas trafulhices em si. Presumo que se Fulano for filmado a amolgar o crânio de Sicrana com um martelo, o culpado é Beltrano, que filmou à socapa e despejou o vídeo na internet. Isto se Fulano for de esquerda, claro (se não for, configura-se o crime de violência doméstica).

Terceira impressão. A julgar pelos telefonemas entre ambos, a habilidade oratória da "presidenta" e do seu antecessor é um portento. Não me refiro aos palavrões, mas às restantes palavrinhas, das quais quase nenhuma existe nos dicionários. E as poucas que existem não são ordenadas convenientemente. Embora seja absurda a exigência de instrução básica para se subir na política, acho discutível que, conforme é norma na esquerda internacional, a instrução, básica ou elevada, constitua critério de exclusão.

Quarta impressão. Um deputado da oposição que proferiu um impropério qualquer na falhada posse do sr. Lula enquanto ministro foi imediatamente agredido por dirigentes do PT e, de seguida, por jagunços do PT. Isto da liberdade e da tolerância é muito lindo sempre que não afecta os esforços da esquerda em prol da liberdade e da tolerância.

Quinta impressão. Os "telejornais" insistem em falar em manifestações contra o governo e a favor do governo. Até sexta-feira, testemunhas avulsas (a soldo da CIA) não tinham conhecimento das segundas. Mesmo as de sexta-feira foram, a julgar pelas imagens (manipuladas pelo FMI), comparativamente residuais. As sondagens (distorcidas pela Mossad) mostram 70% a 80% de opiniões favoráveis à destituição da "presidenta". Como dizia uma comentadora isenta na TVI24, o país está dividido: a divisão é que está mal feita.

Sexta impressão. Garantem-me que diversas "figuras da cultura" local (de facto artistas de variedades e escritores ilegíveis) defendem o sr. Lula e a "presidenta". Nada de surpreendente: é público que a esquerda acarinha o saber. Certa ocasião, inquirida acerca do livro da sua vida, a dona Dilma admitiu ter lido um, e por pouco se recordava do respectivo título sem o auxílio das assessoras. E o sr. Lula prefaciou a tortura do eng. Sócrates.

Sétima impressão. O sr. Maduro da Venezuela, estadista credenciado, apela à "solidariedade mundial" para com o sr. Lula e a "presidenta". Aguardam-se as posições do sr. Kim da Coreia do Norte, do Estado Islâmico e de três régulos africanos para completar o pleno democrático.

Oitava impressão. Os camaradas de cá não tardaram a aderir à onda solidária exigida pelo sr. Maduro e a denunciar o "golpe" em curso no Brasil. Onde o cidadão alienado vê um gangue de salteadores a roubar o que se move (e o que não se move também, dado o Cristo do Aleijadinho encontrado num cofre do sr. Lula), PCP e BE detectam conspirações "neoliberais". E detectam bem. Se não a refutassem, a propaganda capitalista faria esquecer o inegável trabalho social do PT, a começar pela melhoria das condições materiais de inúmeros membros do PT. E a terminar na preservação do património (ver estátua do Aleijadinho e obras sortidas).

Nona impressão. O nosso querido PS oscila entre a "neutralidade" (neutralidade, aqui, é fingir considerar tão graves as acções dos juízes "justiceiros" quanto as dos políticos corruptos - de modo a desvalorizar a corrupção) e o silêncio. É uma atitude adequada: na verdade, o PS andou anos a venerar o sr. Lula e a "presidenta", pelo que arriscaria o pleonasmo. Ou o descaramento.

Décima impressão. Quem acredita na desonestidade, na inépcia e na prepotência de um governo de bolcheviques analfabetos, acredita em tudo. Acredita, inclusive, que a aliança da esquerda caseira é, para Portugal, uma tragédia sem precedentes. Fora o precedente brasileiro e o imenso rol de sucessos comunistas.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 20-3-2016

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