quinta-feira, 23 de março de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Estranho num lugar esquisito

Aparecido Raimundo de Souza

1
Durante meses, Panetôncio frequentou um consultório psiquiátrico com a reclamação de que havia um imenso jacaré debaixo de sua cama.
— E toda noite ele me mostra uma boca cheia de dentes...
— Não são dentes, são presas. E não se diz “boca”. Jacarés não têm boca, e sim mandíbulas.
— Não importa, doutor, o caso é que não aguento mais.

2
O médico tentava persuadir o paciente de todas as formas possíveis:
— Panetôncio, você não reside num prédio de apartamentos em plena Barra da Tijuca com segurança, circuito interno de televisão e alarmes por todos os cantos?
— Perfeito, mas o jacaré me amedronta apesar de toda essa tecnologia de ponta.
— Não existe nenhum jacaré.
— Claro que existe, doutor. E a cada dia parece mais furioso.
— Só na sua imaginação.
— Não é imaginação, doutor, é real.
— Sua esposa viu esse suposto jacaré?
— Não.
— Nem seus filhos?...
— É verdade!
— Seu sogro chegou a dormir uma noite no quarto e também nada viu, ou ouviu?
— Meu sogro dorme mais do que a cama. É só recostar a cabeça e no minuto seguinte está contando carneirinhos.
— Sua sogra?
— Uma besta quadrada. Não enxerga um palmo adiante do nariz. A única coisa que sabe fazer, e cá entre nós, muito bem, é ver defeitos em mim e maquinar intrigas do arco da velha com minha mulher.

3
— Seu irmão dormiu lá com a esposa dele, na semana passada, não dormiu?
— Dormiu.
— E não viu nem ouviu absolutamente nada?
— Meu irmão, doutor, só pensa naquilo vinte e quatro horas por dia. Não tem uma noite que deixe a mulher descansar em paz. Esteja em casa ou na casa dos outros, o negócio dele é furunfar. Nem os dias sagrados da companheira -, o senhor compreende -, aqueles do famoso “lacinho vermelho”, ele respeita.
— Fazer amor faz um bem danado à saúde, Panetôncio. Alivia o estresse do dia a dia. A alma se liberta das tensões e fica mais leve e solta. Concorda?

— Concordo, doutor, concordo plenamente. Mas o senhor precisa entender o seguinte: balançando o esqueleto, ele não vai ver nada, como, aliás, não viu. E o jacaré continua embaixo da minha cama, tranquilo, sem problemas, me enchendo o raio do saco.
— Insisto, Panetôncio, que não há nenhum jacaré debaixo da sua cama. Volte para seu quarto e procure ficar em paz. Sua esposa, da última vez que falou comigo, reclamou que, por causa desse bendito jacaré, você não só mudou de quarto, como abandonou a cama. Esse negócio está me cheirando a outra coisa...

4
— Que outra coisa, doutor?
— Amante. Você arranjou uma namoradinha e está engabelando dona Lílian com essa história sem pé nem cabeça.
— Não trairia minha cara-metade por nada deste mundo. Ainda que encontrasse a Bruna Lombardi peladinha, dos pés à cabeça.
— Escute o que vou dizer: sua esposa, com essa conversa toda, está abalada. Muito abalada. Sem contar que também está necessitada. Mulher necessitada é perigosa. Começa a subir pelas paredes, a se masturbar com cotoco de vela, embalagem de Neutrox. Se você não dá conta, não comparece...
— Sei disso tudo, doutor. Mas como posso me concentrar?
— Você pode. Você é um homem ou é um rato?
 — Depois que o jacaré apareceu comecei a ter dúvidas sobre minha masculinidade. Acho que sou um coelho assustado. E coelho tem medo de jacaré. Li algo a respeito numa revista especializada em animais.

5
O doutor seguia na sua linha de conduta e perseverava com acirrada veemência na ânsia de demover a ideia fixa da cabeça de seu paciente.
— O jacaré, Panetôncio, ou melhor, esse famigerado jacaré é apenas uma alucinação passageira, fruto da sua estafa, da sua debilidade. Resumindo, meu amigo, coisa provocada pelo excesso de trabalho e pela fadiga. Você tem se desgastado muito, ultimamente. Sua ocupação, na Bolsa de Valores -, compreendo -, é muito pesada e irritante. Deixa os nervos à flor da pele, a cabeça a mil, os neurônios em frangalhos. Sei que não é fácil passar o dia inteiro com três telefones no ouvido...
— Quatro, doutor, quatro.

6
— Que seja! Três, quatro ou apenas um, não importa. O que conta, o que faz diferença, é você estar o tempo todo gritando, berrando e gesticulando feito um desmiolado e despirocado da cabeça. Preste atenção no conselho que vou lhe dar, e vou fazê-lo como seu amigo, não como médico. Tire uns dias e saia com a família em férias. Coloquei, inclusive, meu sítio, em Pedra de Guaratiba, à sua disposição. Está lembrado?

7
— Estou doutor. Mas o jacaré está cada vez mais esfomeado. Se o senhor, que é um especialista, que estudou anos a fio para procurar dar uma solução plausível para o meu caso e, no final das contas, não puder, ou não conseguir me ajudar, quem poderá me levar à cura dessa merda, ou à merda dessa cura?!

8
O rapaz continuou a frequentar, ainda por um bom tempo, as seções no consultório, como sempre fazia todas as quartas-feiras, na parte da tarde. Com isso, o médico estava quase convencendo a criatura de que tudo não passava, realmente, de fantasias e devaneios oriundos de um desgaste físico e mental acima da linha do ponderável, e que, em decorrência disso, se levasse os próximos encontros mais a sério, logo sairia completamente restabelecido.

9
Entretanto, por três quartas-feiras seguidas, Panetôncio não compareceu ao consultório, nem comunicou à secretária o motivo de sua ausência. Apreensivo e visivelmente preocupado, o psiquiatra ligou para a residência de seu cliente.
— Gostaria de falar com seu Panetôncio — disse o doutor à mulher com a voz chorosa que o atendeu.
— O Pane morreu... quero dizer, o Panetôncio faleceu ... — respondeu a pessoa, em soluços.
— Com quem falo, por gentileza?
— Lílian, a esposa.

10
— Dona Lílian, sou eu, o médico psiquiatra do seu marido.
— Doutor, desculpe não o ter avisado antes. Sabe como são essas coisas. Uma correria: liberar corpo no IML, correr atrás de funerária, avisar todos os parentes e amigos, cuidar do enterro, fretar ônibus, comprar flores, coroas, escolher cemitério, ver jazigo, colocar anúncio em obituário de jornal, marcar com antecedência a missa de sétimo dia, uma loucura!
— Estou pasmo, dona Lílian. Fiquei realmente sem saber o que lhe dizer...

11
— Pois é. O senhor que é médico ficou assim, assombrado, praticamente sem saída. Imagina como estamos nós que convivíamos diariamente com ele. E todo o resto da família. Completam sete dias, amanhã. A propósito, gostaria que o senhor viesse para a missa. Vai ser na Igreja de Nossa Senhora das Cabeças, na Rua Belizário Pena, ali na Penha. Escolhemos essa paróquia porque o padre atual, meu cunhado, é o irmão dele.
— Farei o possível. De qualquer forma, minhas sinceras condolências.
— Obrigada, doutor. Obrigada por tudo, pelo seu carinho, pela sua atenção.

12
— Nada a agradecer, senhora. Não via Panetôncio só como meu paciente. Tinha nele um amigo. Não querendo ser chato ou inoportuno, esclareça uma dúvida, dona Lílian. Como ele não veio ao meu consultório por três quartas-feiras seguidas e agora a senhora me dá essa notícia assim, na bucha, sem eu estar preparado, do passamento dele, juro por tudo quanto é mais sagrado, fiquei sem chão.  Dessa forma, quero mais uma vez deixar meus pêsames sinceros à senhora e aos demais familiares. Só mata uma curiosidade que está me incomodando. Panetôncio morreu... morreu de quê?!
— Foi devorado por um jacaré que estava escondido debaixo da cama dentro do nosso próprio quarto.


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Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Sítio ”Shangri-La” – Um lugar perdido no meio do nada. 23-3-2017

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3 comentários:

  1. CANSEI, NÃO CONSIGO LER MAIS.
    SÃO REALMENTE PALAVRAS PERDIDAS NO MEIO DO NADA.
    As anedotas inteligentes são as curtas...
    fui... e não volto mais...

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  2. VOLTE, AMADO. EMBORA AS PALAVRAS ESTEJAM PERDIDAS NO MEIO DO NADA, SEMPRE HÁ UM CAMINHO ONDE ENCONTRA-LAS.

    Dessa forma, vá, mas volte. O retorno sempre é uma chegada esperada.
    Abraços

    Aparecido

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  3. Veja bem, é a minha opinião. Há alguns poucos meses atrás, comentei que os textos eram muito longos e poderiam ser mais sucintos. Digo mais, estes textos muito frequentes e longos, perdem o interesse, sou sincero, não os tenho lido. O que acontece, não rasgo o verbo, rasgo o texto. Entendam como "crítica construtiva"!
    Abs
    Heitor Volkart

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