quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Não é um jogo

Paulo Tunhas
Como desviar os olhos e aguentar o que se passa quando nos estão, pura e simplesmente, por interesses pessoais e de facção, a lixar a vida? Quando as regras que normalmente nos orientam são rompidas?


Em tempos políticos mais ou menos normais, o que quer que isso seja, as considerações morais não desempenham um papel por aí além, a não ser quando, ritualmente, os políticos são criticados por falharem num tipo ou outro de promessas (quase sempre em matéria de impostos). Aí acontece-lhes verem-se acusados do feio acto de mentir. Também há a pergunta cíclica: “Comprava-lhe um carro em segunda mão?”. Mas, somando tudo, é coisa pouca. Felizmente, diga-se de passagem. A pregação moral é um labor cansativo e, para as almas mais dubitativas, costuma deixar um sabor amargo na boca.

Há, no entanto, circunstâncias em que o juízo político não pode, por menos exaltada que uma pessoa seja, deixar de se acompanhar por um juízo moral. A nossa situação actual é um exemplo disso. Não pretendo falar por enquanto da terrível trapalhada em que António Costa nos anda a meter, já nos meteu, nem na reacção de matilha que o acertado discurso do Presidente suscitou à esquerda e nas franjas do costume da direita. Sobre o personagem de António Costa, Viriato Soromenho Marques disse, de resto, o essencial: António Costa corre “o risco de ser visto como o único caso da III República de um secretário-geral que em vez de se tornar primeiro-ministro depois de ganhar as eleições quer ser primeiro-ministro para se manter secretário-geral, mesmo depois de as ter perdido”.

Resta que é uma questão interessante a de saber o que é que quase obriga uma pessoa pacata, em circunstâncias particulares, a misturar considerações morais aos juízos políticos. Porque é que, em certos casos, coisas geralmente separadas, vocabulário político e vocabulário moral, se unem quase fatalmente? Porque é que, em determinadas situações, um juízo político despido de considerações morais é um juízo político falso e enganoso, que falha a realidade ou não a ilumina, antes a obscurece?

Provavelmente, porque a própria realidade política é, nesses casos, vítima de uma subversão que deve ser denunciada, e falar dela sem a denunciar, limitando-nos a aceitá-la como algo normal, é, como se diz, representar Hamlet sem o príncipe. O juízo político tem de reagir a essa subversão da realidade política, particularmente quando ela é perfeitamente intencional e premeditada. Aceitá-la sem uma tal reacção é que seria anormal. E na denúncia de uma situação desse tipo o vocabulário moral surge quase inevitavelmente, até porque expressa mais facilmente a nossa reacção espontânea à situação.

Falar de uma subversão da realidade política é usar uma fórmula muito geral. Mas é propositado. Mencionar que uma tal subversão é o produto de uma intenção política consciente é também propositadamente geral. Não interessa ainda referir turpitudes particulares. O que interessa mesmo, é importante repetir, é tentar perceber porque é que, em certos casos um juízo político desacompanhado de considerações morais é, quase por definição, um juízo político falso.

A necessidade de reagir à subversão da realidade política é uma razão. Há gestos que não se podem deixar passar em silêncio, porque correspondem a algo muito próximo de um um corte abrupto com o nosso quadro normal de expectativas. Não de expectativas mais ou menos conjunturais, por mais respeitáveis que sejam (mais ou menos dinheiro, modo de vida), mas de expectativas por assim dizer estruturais, respeitantes a certas regras que ordenam o nosso quadro político. Uma segunda razão será talvez a de que essa subversão traz consigo o sentimento de um perigo certo e iminente. O perigo é existencialmente visto como uma ameaça arbitrária à nossa integridade e a reacção mais elementar ao arbitrário é uma reacção que apela à moral. O perigo que vem do arbitrário força a um juízo político com componentes morais. Em parte, admito, por fraqueza e sentimento de impotência: mas nós somos criaturas frágeis.

Finalmente, a subversão da realidade convida-nos a distinguir, banalmente, a decência da manifesta falta dela. E a distinguir, concomitantemente, entre quem cai dentro da primeira categoria e quem cai dentro da segunda. Não é matéria opcional ou de gosto. Resulta da necessidade espontânea de nos orientarmos na ordem política e de saber quem é susceptível de alguma confiança e quem não é. O juízo político tem de exprimir essa necessidade espontânea, tem de distinguir tipos de atitudes que, em última análise, revelam tipos de carácter distintos. A alternativa é o cinismo puro e simples.

É claro que há sempre a velha possibilidade da indiferença. E, para quem tiver estômago para isso, essa possibilidade é uma tentação efectiva. Até porque falar em nome da moral não é, como disse, um prazer propriamente dito, e porque há, sem dúvida, várias coisas de beleza maior, entre as quais, se se tiver sorte, as do trabalho e do amor.

Mas como desviar os olhos e aguentar impassivelmente o que se passa quando nos estão, pura e simplesmente, por interesses pessoais e de facção, a lixar a vida? Quando as regras que normalmente nos orientam são rompidas, quando nos colocam conscientemente numa situação de perigo, quando o pudor, que é, à sua maneira, uma categoria política, é agressivamente deitado pela borda fora? Desviar os olhos é difícil. Desviar os olhos, na nossa situação presente, e é a altura de voltar à situação presente, é particularmente difícil. Se calhar, são tempos interessantes. Mas é permitido não apreciar particularmente os tempos interessantes, sobretudo quando é fácil prever como vão acabar.

Porque o que se está a preparar, mesmo que um Governo de António Costa dure só oito meses ou coisa assim, vai-nos trazer complicações sem fim e, muito provavelmente, fazer voltar a troika a estas paragens. Pode-se, é claro, pretender que nada se passará deste modo e que o melhor dos mundos virá aí, com muito mais dinheirinho nos bolsos. Claro que é possível pensar assim. As capacidades mentais da espécie manifestam, às vezes, grandes limitações. Ulisses, de retorno a Ítaca, disfarçado de mendigo, já se surpreendia com a displicência e a ignorância dos pretendentes de Penélope quanto ao destino que os aguardava.

Essa cegueira roça, também ela, um defeito moral, um defeito de moral política, porque releva de uma manifesta vontade de não-ver que compromete a nossa existência colectiva. A outros, o prazer de apreciar o maquiavelismo da jogada, ou, mais modestamente, a esperteza do embuste, como se tudo não passasse de um jogo. É que não é um jogo. E é imoral fingir que é.
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 29-10-2015

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