sábado, 16 de setembro de 2017

Adoro o dia de eleições!

Vitor Cunha

Levanto-me às oito, visto rapidamente os calções e a t-shirt do Che, calço as sandálias e corro para a mesa de voto. Adoro o dia de eleições: representa a democracia em funcionamento, a força fundamental que assegura a liberdade das pessoas. Dou à senhora/senhor/outro presidenta/presidente/presidento o meu cartão de cidadão, renovado há dias para o evento, só para ter a certeza que está tudo em ordem, apesar do anterior ainda ter validade por mais três anos. Sei de cor o número de eleitor, que confirmei com o serviço gratuito de SMS e reconfirmei com o serviço online com o meu Magalhães. “Vitor Manuel Gaudêncio Parreira da Cunha” — diz a senhora/senhor/outro presidenta/presidente/presidento —, “cidadão número 10926724, eleitor B traço 1016”. Mostro a toda a mesa a tatuagem no antebraço, a do número de cidadão com código de barras, perante a aprovação dos meus superiores, um dos quais apresentando-me o boletim de voto, o cálice de onde sorvo todo o meu poder de cidadão. Hesito em profaná-lo com uma cruz, tal o êxtase de beleza que um simples boletim apresenta para um verdadeiro amante da democracia. Faço a cruz, devagarinho, sem sair das margens, bissectrizes exatas para uma escolha plena de consciência. Abandono o local de voto com a melancolia de fim de Verão, a de que passarei mais um longo ano apenas à espera de repetir o momento de dever e direito cívico.

Os meus filhos dizem-me que a televisão não funciona. “Claro que não, hoje não há televisão! É dia de eleições!” — respondo, bruscamente, que o papel de um pai é educar as crianças para o que realmente importa na vida. “Não há futebol, não há handebol, não há cinema, não há teatro, não há música, não há internet… até não há sol, o mar está revolto, com bandeira vermelha mais aquela roxa das alforrecas… não há restaurantes, não há bares, os piqueniques estão proibidos, não há postos de gasolina abertos e as portagens são novecentas vezes mais caras… e, já agora, digam à vossa mãe que não há sexo, graças a Deus, que hoje é dia de eleições”.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 14-9-2017

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