quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um pequeno dado singelo

Henrique Pereira dos Santos

Por acaso ouvi partes do discurso de António Costa na apresentação do candidato do PS à Câmara de Coimbra, e transcrevo uns pedacitos:

"E com toda a sinceridade, virem falar do aumento dos impostos indiretos ... é ignorar este pequeno dado singelo: é que o memorando da troika só obrigava a aumentar em 400 milhões de euros a receita do IVA ... pois apesar da meta ser só 400 milhões é o melhor exemplo de onde fomos além da troika porque a receita obtida com o gigantesco aumento do IVA, foi dois mil milhões de euros, muito para além daquilo que a própria troika exigia".

Fui verificar de onde vinha esta informação que era evidentemente um bom exemplo da prática de torturar os dados até que digam o que queremos.

Creio ser de um trabalho do Público sobre os três anos da troika, algures em maio de 2014.

Nesse trabalho está o memorando comentado.

No seu ponto 1.23, o Memorando diz "Aumentar as receitas de IVA para obter uma receita adicional de, pelo menos, 410 milhões de euros durante um ano fiscal inteiro" e no comentário do Público, de 2014, é dito "Alterações do Governo ao IVA desde 2011 rendem encaixe superior a 2 200 milhões de euros".

Percebemos então que António Costa confunde o limite mínimo do objetivo a atingir num ano com o seu limite máximo e depois compara o valor mínimo para um ano com o valor obtido em três anos.

Omite que o enorme aumento de impostos resultou da decisão do Tribunal Constitucional que impediu o cumprimento do Memorando em matéria de contenção da despesa da administração pública "1.9. Assegurar que o peso das despesas com pessoal no PIB diminua em 2012 e em 2013", em consequência do que sempre esteve previsto no Memorando de Entendimento "Se os objetivos não forem cumpridos ou for expectável o seu não cumprimento, serão adotadas medidas adicionais".

Ou seja, o único pequeno dado singelo relevante é que António Costa pode dizer o que quiser, incluindo retintas mentiras como esta, porque é do lado certo do espectro político e porque a imprensa estará mais interessada em apimentar títulos (um bom exemplo é o recente título de uma entrevista do Ministro da Defesa em que o DN acha normal retirar da frase do Ministro "por absurdo" para não estragar uma frase bombástica que dá uma manchete bem apimentada), que em fazer o que deve: escrutinar verdadeiramente o que é dito como forma de aumentar o custo político da mentira e da manipulação, pressionando os políticos para um debate público mais factual e menos manipulador.

E, já agora, demonstraria a utilidade da imprensa, devolvendo-me o tempo que perco a verificar as parvoíces que são ditas pelos chefes partidários, o que justificaria o dinheiro a pagar por um jornal, aumentando a probabilidade dos jornalistas manterem o emprego e serem bem pagos. 
Título e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 11-9-2017

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