sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Eis o óbvio: Cunha afrouxou no discurso e apanhou três vezes. É assim que funciona

Luciano Henrique

Se há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia, igualmente é difícil entender o que se passa pela mente de Cunha [foto] com certeza. Certeza, por enquanto, só temos em relação ao seu desempenho político nos últimos dias: é uma grande decepção. (É claro que ele pode ter tocado o “foda-se” em um momento onde se preocupa com outras coisas, mas isso não pode mudar uma avaliação de desempenho)

O fato é que o capital de Cunha é esmagado a cada dia que passa. Mas qualquer pessoa que tenha prestado atenção – realmente prestado atenção – no que ocorreu nas eleições 2014 já perceberia o óbvio. Como em política, o agressor geralmente prevalece, e como o PT sabe disso, a ação do partido resume-se a deixar esta regra fluir, além de tentar controlar o fluxo de informações no grau máximo em que suas verbas estatais o tenham capacitado.

Quando não se percebe esta regra, a pessoa pode achar que a derrocada moral do PT vai derrubar o partido. Porém, mesmo nesta situação, ao atacar o oponente em quantidade muito mais volumosa (e muito mais propagada, pelo controle do fluxo de informações), a tendência é que, embora a rejeição ao partido diminua muito pouco, a do adversário com certeza vai crescer em escala considerável. Nas eleições de 2014, todas as semanas de embate direto contra Marina, e depois contra Aécio seguiram o mesmo padrão: a popularidade de Dilma subia muito pouco, mas a rejeição de cada um de seus adversários sob foco principal de ataque aumentava 3% a 4% por semana.

Algumas pessoas saíram reclamando de urnas fraudadas após o término das eleições – e, curiosamente, em um ritmo muito superior ao de antes dos resultados saírem, como sempre acontece nesses casos -, mas na verdade já se percebia que Aécio escolheu a linguagem dos derrotados, tal como Marina havia feito anteriormente. E, hoje, Cunha fez este mesmo tipo de escolha.

Ontem, por exemplo, Cunha deu a declaração frouxa dizendo: “O fato de ter a pedalada, por si só, não significa que isso seja razão para o pedido de impeachment. Tem que configurar que há a atuação da presidente num processo que descumpriu a lei”. Pode parecer um discurso de barganha, em uma época em que ele já se queimou publicamente, pelos fatores expostos anteriormente. Independentemente de quais sejam suas intenções, elas aumentam o capital político do PT, jamais o dele.

E o PT tem sede de sangue, especialmente ativado quando o adversário afrouxa ainda mais no discurso. Daí foram três estocadas em um só dia.

Primeiro: o vice-líder do governo, Silvio Costa, entrou com representação na PGR pedindo o imediato afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara. A alegação de Costa é que Cunha está usando o cargo de presidente da Câmara para retardar o processo contra o último no Conselho de Ética. Na representação, Costa escreveu: “Não é possível que a gente tenha que conviver com uma situação inusitada como essa, onde um presidente que está denunciado com contas na Suíça diz que não renuncia e essa Casa está nesse marasmo”. Observe: um lado vem com discurso frouxo. E o outro surge com uma ação direta. Não dá para comparar. É uma briga de adulto com criança. (Aliás, eu peço que prestem atenção nos discursos de Silvio Costa. Eis um adulto em política.)

Segundo: a título de humilhação pública de Cunha – mais uma vez, para destruir o capital político do presidente da Câmara -, Teori Zavascki negou o pedido para tramitação em sigilo do inquérito para investigação das contas na Suíça. Claro que os petistas terão direito a sigilo se vierem mesmo a serem investigados – e se o STF não for pressionado -, o que deixará claro para o público que se trata de uma ação seletiva. A coisa é tão descarada que eles nem se preocupam em esconder o seletivismo. E, pensando bem, o seletivismo também serve como humilhação.

Terceiro: o mesmo Teori Zavascki decretou o sequestro do dinheiro que Cunha tinha em contas na Suíça, totalizando R$ 9 milhões. Quer dizer, enquanto os petistas morrem de rir, usufruindo tudo que receberam, Cunha perdeu sua grana. Ele deve estar se sentindo muito humilhado perante seus pares – e com razão.

Pelo menos ninguém pode dizer que tudo isto é surpreendente.
Título, Imagem e Texto: Luciano Henrique, Ceticismo Político, 23-10-2015

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