segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um primeiro-ministro que vive no subúrbio pode fazer a diferença? (1ª parte)

Temos um primeiro-ministro que vive em Massamá. Isso é uma oportunidade?
Capa do Público, domingo, 19-06-2011
Pedro Passos Coelho não é da Lapa, de Campo de Ourique, do Parque das Nações ou das Avenidas Novas e isso tem relevo, dizem especialistas. O novo primeiro-ministro terá uma visão diferente do território por viver na periferia de Lisboa?
Vítor Belanciano, “Cidades”, jornal “Público”, 19-06-2011

Parece um desenho de criança. Há frentes de prédios quase sempre iguais, por vezes matizadas de estendais de roupa colorida. Depois de se contornar uma rotunda, estamos na Rua Milharada, em Massamá, linha de Sintra, subúrbio de Lisboa. É uma rua vulgar, semelhante a tantas outras.
Com esta pequena nuance. No nº 27, lá em cima, no 5º andar, habita há sete anos Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, na companhia da mulher, Laura Ferreira, a filha mais nova e enteada. É lá também que recebe as filhas mais velhas, Joana e Catarina, fruto do seu primeiro casamento com a cantora Fátima Padinha, que integrou as Doce. E será ali que continuará nos próximos tempos, já que prescindiu habitar com a família no Palácio de São Bento.
Foto: Enric Vives-Rubio/Público
Domingo, 19-06-2011, 19h35. Foto: JP
“E então?! Não é uma pessoa como as outras, não estamos fartos de ‘D. Sebastiães’ que nos querem salvar numa manhã de nevoeiro? Não estamos fartos de políticos que idealizamos como sendo gente superior aos demais? Talvez tenha chegado a hora de descer à terra e percebermos que quem está no poder é uma pessoa igual a todos nós”, dispara, quase à beira da indignação, Joaquim Alvarães, reformado de despachante oficial, quando lhe perguntamos o que sente por viver na rua do primeiro-ministro.
Habita em Massamá há 20 anos. “Quando vim para aqui, ainda isto era formado por uma série de quintas”, diz-nos, valorizando o facto de Pedro Passos Coelho viver como a generalidade dos cidadãos, um sentimento partilhado por outras pessoas com quem falamos. “Ao menos assim acaba por ter conhecimento da forma como a maior parte vive.”

Parece um argumento razoável. Mas a verdade é esta: parte do país surpreendeu-se, quando soube que o primeiro-ministro do país vivia na periferia. José Sócrates, por exemplo, habita bem no coração da capital, ao lado do Marquês de Pombal. Durante a campanha eleitoral, embora veladamente, esse facto acabou por ser recordado, quando expressões como “Obama de Massamá”, ou “africanista de Massamá”, aplicadas a Passos Coelho, se tornaram familiares de muitos portugueses.
Uma surpresa alicerçada nos factos. As pessoas mais qualificadas escolhem, por norma, o concelho de Lisboa para habitar. “Continua a ser factor de atracão para os mais qualificados, quer do ponto de vista escolar, quer profissional”, diz-nos Teresa Costa Pinto, professora e investigadora do ISCTE na área da sociologia do território. “Analisando o total da população, continua a ser o concelho mais qualificado e com maior peso das profissões I e 2 da classificação nacional de profissões. Daí a estranheza.”
Domingo, 19-06-2011, 19h35. Foto: JP
Em inquéritos sobre qualidade de vida, o que salta à vista é que são os habitantes de Lisboa os menos satisfeitos em comparação com os da periferia, quer da margem norte, quer da sul” Teresa Costa Pinto, docente no ISCTE

Mas mesmo que não existissem os números, de um ponto de vista impressionista não é difícil perceber que há um preconceito social em relação ao subúrbio, à periferia, às zonas dormitório. “Claro que há”, afirma o arquiteto Manuel Graça Dias. “Um preconceito de classe, elitista, que não faz sentido, mas que existe. Entre as elites existe uma tendência para conotar negativamente tudo o que é vida suburbana, que pode não ser o ideal de vida para alguns, mas que acaba por ser uma inevitabilidade para outros.”
O que talvez não seja tão evidente é que esse chavão é devolvido por quem vive no subúrbio aos que habitam no centro da metrópole. “Não sei como conseguem viver no meio daquela confusão em Lisboa, com carros por todo o lado, no meio do passeio, e com assaltos”, diz-nos Armanda Antunes, 28 anos, madeirense de origem, a viver em Massamá há seis anos, a trabalhar em Oeiras. Faz parte de uma nova geração de habitantes dos subúrbios que não necessita da capital para viver – “Para quê? Tenho tudo o que preciso aqui!” -, como também desvaloriza a vida urbana no centro. “Se quero fazer compras, ir ao cinema, faço-o aqui. E ainda por cima estou mais perto da praia.”
Surpreendente? Talvez não. “Em inquéritos sobre qualidade de vida o que salta à vista é que são os habitantes de Lisboa os menos satisfeitos em comparação com os da periferia, quer da margem norte, quer da sul”, revela Teresa Costa Pinto. “Manifestam uma expressão de sentimentos de satisfação com a própria vida superiores, valorizando componentes do modo de vida periférico que não valorizam os de Lisboa, como estar mais próximo da natureza, não ter problemas de estacionamento ou a proximidade de familiares – o que indicia um modo de vida mais local, menos móvel, mais concentrado no local de morada do que os lisboetas.”
É evidente que subúrbios há muitos. Viver no coração de Sintra, em algumas zonas da linha de Cascais, na Quinta da Marinha ou em Fontanelas (Sintra), como acontecia com o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, não é nada desqualificador. Bem pelo contrário. Mas para muitas outras zonas das margens sul e norte de Lisboa continua a sê-lo.
“As periferias são muito heterogéneas”, afirma Teresa Costa Pinto. Pode-se falar de um eixo nobre da metrópole constituída pelos concelhos de Lisboa, Oeiras e Cascais, que têm alguma continuidade em termos da sua estrutura económica e na sua composição social. “Portanto são estratos mais qualificados onde param profissões do topo da hierarquia – profissões técnicas e científicas, quadros de empresas ou algumas profissões liberais.”
Massamá não é dos subúrbios mais qualificados, mas também não é dos mais estigmatizados. Fica no meio. “Essa zona tem escolas magníficas e uma dinâmica social, com associações ou bibliotecas, interessante”, diz João Seixas, investigador do Instituto de Ciências Sociais e especialista em geografia urbana. Mas é um território “fragmentado e difuso, onde se deixou construir, que sofreu pressões urbanísticas e que não é de fácil planeamento”.
Do ponto de vista estético, as cidades novas, como lhes chama Manuel Graça Dias, vão demorar anos para ganharem uma densidade semelhante à da cidade antiga. “Mas claro que há exceções”, diz ele, apontando algumas zonas de Oeiras como exemplo. “Ao pé da estação de Oeiras, aquilo é agradável e a chamada ‘Nova Oeiras’ tem habitação colectiva de qualidade.” Mas essa não foi a dominante ao longo dos anos, na visão do arquiteto, “pela urgência de fazer, pela especulação e porque o Estado se demitiu do seu papel social de criar habitação para toda a gente e entregou muito à iniciativa privada”. “Há muita porcaria por aí, mas é possível melhorar e não nos devemos demitir dessa função.”
Massamá fica a 20 minutos de carro do centro de Lisboa, se não houver trânsito. Mas de manhã, ou no regresso de Lisboa ao final da tarde, a realidade é diferente. Nessas circunstâncias, no IC19, pode passar-se entre uma hora e uma hora e um quarto dentro do carro. As alternativas são o comboio, os autocarros ou a A16. Um problema? Sim, claro, mas para os que vivem em Lisboa. Para os locais nem por isso. “Essa é uma das grandes surpresas dos trabalhos já feitos”, analisa Teresa Costa Pinto. “Exagera-se imenso essa história do trânsito. É claro que às vezes o trânsito é chato, principalmente no Inverno, mas faz-se sem grandes problemas”, diz-nos Cláudia Marques, dentro do café onde Pedro Passos Coelho costumava ir pela manhã, mesmo na porta ao lado do prédio onde habita. “Desde que foi eleito que não deixam o homem em paz!”, exclama.
Fim da 1ª parte
Continua aqui

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