terça-feira, 15 de setembro de 2015

Bem-vindos, refugiados

Alberto Gonçalves
A solidariedade é assim. Na Alemanha, desde Junho que uma escola da Baviera aconselha as alunas a vestir "modestamente", leia-se a taparem-se inteirinhas para não ofender as centenas de refugiados muçulmanos alojados nas imediações. Na Grécia, refugiados muçulmanos recusaram ajuda da Cruz Vermelha, supõe-se que por causa da iconografia. Em Portugal, o município de Penela prepara-se para acolher refugiados muçulmanos e providenciar-lhes aulas de português com separação de sexos. E parecem-me evidentes os motivos que levam centenas de refugiados muçulmanos a fugir da ilha de Lesbos. Os refugiados, não sei se o referi, são na maioria muçulmanos, característica associada a numerosos preceitos comportamentais que nós, em nome da hospitalidade e boas maneiras, devemos respeitar.

A existir a séria possibilidade de uma família alargada de iraquianos acabar cá em casa ou na vizinhança, estou empenhado em evitar ofensas gratuitas. Ou até pagas. É verdade que não possuo o espírito magnânimo de Raquel Varela, a historiadora/comunista/activista que posou para o Facebook com um cartaz a dizer "Refugees Welcome" e agora tem o conforto do lar incrementado graças à presença de quatro sírios sortidos, dois casais líbios e um paraguaio exilado por dormir com uma chinchila. Porém, basta notar a quantidade de infelizes que fogem do Médio Oriente e dividi-la pela dimensão do território europeu para concluir que é matematicamente impossível um ou oito refugiados não me caírem em cima.

À cautela, adoptando o preceito popular segundo o qual é melhor prevenir do que ter um afegão furioso a perseguir-nos na cozinha, há regras de hospedagem a cumprir. A minha mulher começou a andar embrulhada num lençol da cabeça aos pés (enquanto não chega a remessa de bonitas burkas encomendadas online). O fiambre e os enchidos foram para o lixo, e só não foram para os cães porque estes, sendo considerados demoníacos pelos seguidores de Alá, também foram para o lixo. No que toca a livros, já despachei os que tratavam do Holocausto, os que incluíam referências simpáticas sobre Israel, os EUA e as democracias em geral, os que padeciam de licenciosidade em matéria de costumes e três romances de Michel Houellebecq (neste momento, a minha biblioteca resume-se a dezassete fascículos da Teleculinária e Doçaria, com as páginas alusivas às costeletas de porco devidamente excisadas). Os canais televisivos estão bloqueados em peso, com as naturais excepções da Al Jazeera e da SIC Notícias. Por falta de paciência para catar blasfémias, doei todos os DVD ao ecocentro local. Por fim, aboli a expressão "Cruzes, credo" e enterrei uma garrafa de aguardente velha Ferreirinha.

Em suma, decidi facilitar a vida aos refugiados, para que estes possam regressar a cada fim de tarde da limpeza das matas e encontrar um ambiente compatível, não com os decadentes horrores do Ocidente, mas com a fé e a cultura que tanta alegria lhes têm dado. Se eles não fariam o mesmo por mim, seria obviamente para o meu bem. Bem-vindos, pois. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Sábado, nº 593, 10 a 16-9-2015

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