quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um exemplo de uma manchete indutora

Parem as máquinas! Congelem a comunicação online! O PSDB está tentando desgastar o governo! É uma denúncia grave!

Há coisas realmente curiosas na imprensa. O Estadão publica hoje um editorial — um dos três — impecável sobre o caso “Mercadante e os aloprados”, demonstrando a óbvia necessidade de se reabrir o caso, uma vez que há um importante fato novo: um dos petistas que participaram da tramóia, Expedito Veloso, confessou que Aloizio Mercadante foi um dos comandantes da operação criminosa. Há uma gravação com a revelação dos bastidores da lambança. Ouvido pela VEJA, ele confirmou o conteúdo.
Muito bem! O mesmo Estadão do editorial impecável publica hoje uma reportagem sobre o caso, de Eduardo Bresciani. O texto está correto, sem dúvida. Demonstra governistas mobilizados para defender Mercadante, e oposicionistas, para levá-lo a se explicar na Câmara, o que certamente desgasta um tanto o governo — especialmente se o sujeito não tem muito como se explicar.
Que título A EDIÇÃO deu à reportagem de Bresciani? Este:
PSDB tenta desgastar governo com ‘aloprados’”
Meu Deus! O que será de nós!? Onde já se viu uma oposição que tenta desgastar o governo? Desse jeito, a democracia ainda nos leva para o buraco. Como todos sabem, o papel das oposições é reforçar o governo, é solidificar suas posições, é garantir que tudo está de acordo com o script…
Notei a coisa na madrugada, mas deixei pra lá. Vejo agora no Estadão Online que acharam a formulação tão boa que ela foi parar na homepage. Sim, leitor, é verdade: Eles também acham que a notícia está aqui: “Depois de Palocci, PSDB tenta desgastar governo com ‘aloprados’”.

As palavras fazem sentido. Não fosse a intenção da oposição de “desgastar” o governo, o problema não existiria. Ou seja: a edição compra a versão planaltina de que tudo não passa de uma ação artificial dos adversários, uma — como chama o PT, emprestando à expressão caráter negativo — “exploração política” do caso.
Pois é… Que tempos, não? Os editoriais de antigamente do Estadão recorreriam à Primeira Catilinária, de Cícero: “O tempora, o mores!” (”Oh tempos, oh costumes”). Nos EUA, os republicanos usam o programa de saúde, a crise econômica, o déficit, a intervenção na Líbia, as negociações com o Taliban… Tudo para desgastar o governo! Republicanos são homens maus! Também tentam “desgastar” o governo as oposições do Chile, de Portugal, da Espanha, da França, da Itália, da Dinamarca, da Suécia… Até nos países árabes as oposições tentam hoje “desgastar” o governo! Convergem em Alá, mas divergem sobre o resto. Vocês sabem como oposições costumam ser impatrióticas. Mas se comportam com correção na Coréia do Norte e na China.
Oposição que tenta desgastar governo não é notícia, certo? É como o cachorro que mordeu o menino. Se, nessa relação, algo merecer o título, só acontecerá quando o menino morder o cachorro. Ou por outra: no dia em que se puder noticiar que “Oposição usa o ‘Caso X’ para fortalecer o governo”, então estaremos com uma manchete.
Há uma coisa inescapável e irrespondível: esse título do estadão serve para qualquer notícia sobre a oposição; é o que chamo “tíulo-gaveta”; guarda-se qualquer coisa nele:
“PSDB tenta desgastar governo com sigilo em gastos da Copa”:
“PSDB tenta desgastar governo com sigilo de documentos”;
“PSDB tenta desgastar governo com lentidão do Minha Casa, Minha Vida”…
Enfim, escolham aí alguma coisa em que a oposição não concorde com o governo, e se pode dizer que ela está numa tentativa de desgastá-lo… Vênia máxima, isso não é notícia, mas juízo de valor, opinião, e das mais problemáticas, porque sugere que há certa ilegitimidade na ação oposicionista.
Reinaldo Azevedo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos comentários "anônimos".

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-