terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Presidir!

Miguel Lourenço Pereira

Perder em Alvalade não foi surpresa para ninguém. O estádio do Sporting tem sido, neste século, o local preferencial para o Porto tropeçar. Mais do que na Luz – onde um espírito de combate especial pareceu sempre tomar conta dos jogadores até ao ano passado – o terreno leonino converteu-se numa espécie de chão maldito do qual poucos treinadores saíram sem ser vergados por uma derrota. Mas não foi pelo passado pouco alegre que o Porto perdeu, e perdeu bem. A ausência total de surpresa vem da incapacidade da equipa do FC Porto – jogue quem jogue – de se apresentar como tal, uma equipa, trabalhada e mecanizada para impor o seu modelo de jogo. O Porto tem o melhor plantel de Portugal e salvo algumas posições – os centrais e o avançado, as mais evidentes – as melhores individualidades da Liga. Poucos treinadores do FCP tiveram à sua disposição material mais do que suficiente para armar um bom onze com alternativas à altura. É a total falta de fio de jogo, desde Agosto, que mais preocupa. No ano passado o Porto foi na Liga muitas vezes uma equipa sem chama, sem garra, sem um plano B mas o plano principal quase sempre funcionou bem e só quando este emperrou se notou a falta de alternativas de jogo ou de uma mentalidade ganhadora. Para 2015/16 já nem isso se vê. Não há um criativo que pegue no jogo desde o meio (como houve Oliver). Não há um avançado que se associe (e o Porto teve dois anos para preparar o pos-Jackson) com os colegas nem há centrais que saibam sair a jogar (o desesperante pontapé para a frente de Maicon só encontra rival no passe para os laterais de Marcano ou Indi). Os defeitos do ano passado continuam todos lá. As virtudes, nem vê-las.

Criticar não é amar menos.
Criticar o treinador, o presidente ou os jogadores não é, necessariamente, um exercício negativo. Muito pelo contrário. Quando as evidências estão aí, à vista de todos, não criticar ou, melhor dito, assobiar para o lado como se nada estivesse a acontecer, é o primeiro passo para cair no precipício. Houve uma grande vontade da SAD em que o projecto Lopetegui funcionasse. Deu-se ao treinador tudo o que ele pediu e raramente se lhe impôs o que a outros. A aposta num treinador sem experiência não era nova (sem experiência e know how do futebol português, sim) mas o sonho de Pinto da Costa de criar um Barcelona na foz do Douro, com um modelo de jogo espanhol, apoiado no 4-3-3 blaugrana, era sedutora para muitos e houve momentos, no ano passado, em que se vislumbrou essa possibilidade. O clube gastou dinheiro em jogadores, aumentou como nunca a folha salarial e segurou o treinador nos piores momentos porque acreditava no futuro da ideia. Era bonito acreditar que algo assim era possível. Se calhar até é. Mas o homem elegido para a levar a cabo definitivamente não cumpre os requisitos mínimos para treinar um plantel e uma instituição que, claramente, o superam.

Lopetegui continua a comportar-se como uma avestruz. A crítica não é com ele, ele é o “ungido” e se alguém o questiona é porque está “contra ele”. Podia-se gostar ou não gostar do Lopetegui treinador, o que não se pode obviar é a quantidade incrível de erros de gestão e de trabalho táctico que acumula. Já não vivemos na idade da pedra da informação e qualquer leigo vê um jogo do Porto e percebe o que está mal. Muito provavelmente a imensa maioria dos jogadores que levam meses em sub rendimento, com outro treinador – com ideias que se possam entender, com conceitos claros e com capacidade para adaptar-se ao meio - pudessem render ao seu verdadeiro nível.

Há, naturalmente, futebolistas no plantel que estão muitos furos abaixo do nível de exigência do clube mas sempre os houve. O Porto foi campeão europeu com Maciel, Ricardo Fernandes e Ricardo Costa no plantel. Não é isso que está em causa e não é por culpa de Jose Angel, Evandro, Bueno ou Sérgio Oliveira que as coisas estão como estão. O importante é que esses jogadores sejam minorias, sejam úteis em determinados momentos (Fernandes era com as bolas paradas, a velocidade de Maciel foi útil na liga, Costa era um polivalente que cumpria) e façam parte de algo maior, uma equipa. O Porto tem jogadores de grande nível e tem muita classe média (alguma dela claramente sobrevalorizada pelo catálogo Doyen) mas o que não tem é uma equipa.

Digam o que disserem, as equipas são construidas por dois elementos: o treinador e o balneário.
O primeiro peca por incompetente, o segundo está ausente desde que a SAD achou que mais valia a pena publicitar a política de ciclos curtos do que cultivar o espírito do clube. Sapunaru, que foi precisamente um desses jogadores cumpridores sem nível aparente para ser jogador de um FC Porto, explicou há pouco como se surpreendeu pela negativa quando veio ao Olival de visita e percebeu que nada sobrava dos seus dias em espírito de equipa e força de balneário. Não há equipas que triunfam em campo que não se forjem antes nos vestuários. Essa é uma das mais evidentes regras do futebol e poucas pessoas perceberam isso tão bem como Jorge Nuno Pinto da Costa. O maior presidente da história do futebol português – um homem que será, para o futebol luso, tão relevante como Eusébio, Ronaldo, Figo, Peyroteo, Futre, Pedroto ou Cândido de Oliveira – forjou a sua identidade e a do clube a partir dessa base. Que tenha sido ele a prescindir dela explica quase tudo o que há por saber sobre a derrota de Alvalade onde triunfou um plantel pior, um treinador fraco, um presidente anedoctico mas, acima de tudo, uma equipa superior.

Começa a ser cansativo o chavão “O PdC é que sabe” quando está claro que não é assim, pelo menos não o é há meia década. Isso faz de PdC incompetente? Nem por sombras? Empalidece o seu passado e a dimensão da sua figura? Nem por assombro. O que isso provoca é um dano ao clube que pode vir a ser irreversível porque justifica cada uma das suas ações – boas e más – sem se pensar no impacto que isso possa ter. Desmontar o balneário para apostar-se na política low cost e na potencialização de vendas foi um erro que se está a pagar caro quando não há líderes no balneário capazes de pegar nos colarinhos do plantel e por ordem na casa. Apostar todas as fichas num treinador que pode ser excelente na teoria mas é nefasto na prática também o foi e maior o vai ser ficar com ele até ao fim apenas e só esperando por outro “momento Kelvin” que poupe justificações a dar aos sócios e adeptos. Entregar o clube ao catalogo Doyen, esquecendo as reais necessidades do plantel também foi um erro e hoje, quando sabendo há mais de um ano que não íamos ter nem centrais de jeito nem Jackson, ninguém se incomodou sequer em reforçar essas duas posições chaves, apostando antes em atrair a figura mediática de um Iker Casillas que não tem culpa nenhuma de ser quem é mas que, desportivamente, não trouxe nada que Helton já não desse à equipa.

Pinto da Costa está mandatado pelos sócios para tomar decisões.

Todos sabemos que enquanto se candidate será vencedor porque a imensa maioria dos portistas é grata ou tem medo do incerto futuro de um clube sem ele. O que no entanto começa a ser evidente é a necessidade que Pinto da Costa faça aquilo que não faz há largos anos de cem dias, ou seja, presidir. A ausência de decisões presidenciais, de tomadas de posição claras e evidentes apenas reforça a sensação de vazio de liderança e de desnorte de um clube que se fez grande na Europa precisamente por ter sempre claro o caminho a seguir. Perder em Alvalade não é o fim do mundo e houve seguramente piores treinadores na história do clube do que Lopetegui. Nem uma coisa nem outra é o grande problema a resolver nos próximos episódios porque está em causa algo maior. A necessidade de um reboot à cultura de clube, a necessidade da instituição de ser liderada – de facto – por quem foi eleito para isso com toda a justiça. Está na hora que os adeptos esqueçam os pequenos detalhes que podem ser os tropeções em campo que têm solução (basta reeditar a serie de triunfos lógicos contra rivais inferiores e decidir o titulo no Dragão) e focarem toda a sua atenção em quem tem escolhido os últimos treinadores (com uma total ausência de critério comum). Em quem dinamitou a cultura de balneário que ajudou a criar. Em quem transformou os sócios e adeptos em consumidores mas continuou a alimentar o peso das claques organizadas de forma desproporcionada. Em quem, em suma, desviou o clube do excelente caminho por onde seguia. Porque são eles os únicos responsáveis e os únicos com poder e capacidade para corrigir os seus próprios erros. Ficamos à espera!
Título e Texto: Miguel Lourenço Pereira, Reflexão Portista, 5-1-2016

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