segunda-feira, 7 de março de 2016

O “redentor” Lula, a jovem Yasmin e indignação

Gonzalo Guimaraens - Destaque Internacional (*)


1. A detenção por algumas horas do ex-presidente Lula da Silva, a fim de ser interrogado pela Polícia Federal por suspeitas de vinculações com uma gigantesca cadeia de corrupção, colocou no alvo um dos mais propalados ícones da esquerda latino-americana.

2. Lula, que com a ajuda de hábeis especialistas em marketing exerceu a presidência do País em dois mandatos, foi modelado pela publicidade como um homem simples, honesto e humilde, proveniente de uma camada inferior, uma espécie de “redentor” dos pobres, numa imitação da Princesa Isabel, conhecida como “A Redentora” dos escravos.

3. Pouco depois da recente “condução coercitiva” de Lula, um punhado de partidários dele se aglomerou no aeroporto de Congonhas, onde ocorreu o interrogatório, bem como diante de sua residência e do Instituto Lula — um think-tank lulista. Tais partidários passaram a atacar a socos e pontapés os transeuntes que ousaram manifestar alguma mínima censura ao ex-presidente. Mas logo depois, como por arte de telepatia, os lulistas passaram das agressões violentas à defesa de Lula, como sendo alguém perseguido politicamente, uma inocente vítima da “oligarquia” empresarial (o mesmo empresariado que se aliou a Lula e o sustentou no poder durante seus dois mandatos presidenciais).

4. A impressão que se tem é de que o epíteto de “vítima” já estava previamente preparado por Lula e por sua equipe de marketing, à espera de sua detenção. Falando à imprensa após seu interrogatório, o próprio Lula lamuriou bastante, reforçou junto à mídia seu papel de vítima expiatória, revelou seu projeto político e dispôs a candidatar-se para as eleições presidenciais de 2018. Em seguida, manifestou singular “modéstia” ao afirmar que foi o melhor presidente da história do Brasil e, como se esse autoelogio fosse insuficiente, acrescentou que foi o melhor presidente do século em nível mundial.

5. Tanto nas pesquisas de opinião quanto nas opiniões de rua, constatam-se altos índices de rejeição ao ex-presidente Lula e à sua “filha política”, a atual presidente Dilma Rousseff — embora as últimas pesquisas, antes da referida detenção, tenham detectado uma ligeira diminuição no nível de rejeição. Ainda não se sabe se esse declínio seria circunstancial ou se indicaria uma tendência crescente. Por outro lado, pouco ou quase nada se fala publicamente sobre os resultados de pesquisas qualitativas realizadas paralelamente pelas mesmas empresas de sondagens. Tais pesquisas são muito mais profundas, porquanto não medem apenas o sim, o não ou o talvez dos entrevistados, mas avaliam na população a intensidade das reações, ou a falta delas, bem como as motivações reais que movem as pessoas a favor ou contra determinados líderes.

6. Muito poucos têm acesso a esses resultados de pesquisas qualitativas, que certos “laboratórios sociais” guardam como informações privilegiadas. De qualquer modo, antes da detenção de Lula havia certo desgaste, cansaço e refluxo, começando alguns setores da população a se acostumar com as descobertas de corrupção. Notava-se também uma consequente diminuição da intensidade das indignações, que iam ficando restritas e até mesmo confinadas em setores ainda mais amplos — considerando-se as dimensões continentais do País —, mas já minoritários.

7. Os mecanismos de desgaste da intensidade de indignação merecem estudos específicos. Recentemente, Yasmin Brunet, uma jovem empresária do mundo da moda, foi assaltada em Ipanema, um dos pontos mais simbólicos e considerados mais seguros da orla marítima do Rio de Janeiro. Em declarações reproduzidas pelo diário “O Globo”, ela descreveu em câmera lenta, com notável percepção, os movimentos que se produziram em sua mente durante e depois do assalto, destacando a naturalidade com que tomou o fato de ser furtada e a incapacidade de se indignar que percebeu em si mesma: “É muito louco porque eu não fiquei mal. Você fica assustada na hora, você não está esperando que alguém venha e arranque uma coisa de você, mas é muito doido porque você morando no Rio já espera que isso aconteça, como se fosse normal. Então você não fica chocada [...] Eu estava pensando: aonde o mundo chegou de você aceitar que alguém roube suas coisas? Ao mesmo tempo que o cara roubou e me machucou, eu não fiquei com raiva”.

8. Em que medida estará ocorrendo no Brasil esse eventual desgaste em relação à corrupção? Trata-se de uma questão-chave para o futuro desta grande nação. Com efeito, se a indignação em relação à corrupção diminuir, poderá ficar aberta uma porta psicológica para o retorno político do demiurgo Lula. Por isso, será de suma importância observar, sob este ponto de vista, como se transcorrerão as manifestações marcadas para o próximo dia 13 de março.
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(*) Notas de “Destaque Internacional” — uma visão “politicamente incorreta” feita a partir da América do Sul. Documento de trabalho (Sábado, 6 de março de 2016). Este texto, traduzido do original espanhol por Paulo Roberto Campos, pode ser divulgado livremente.

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