sexta-feira, 14 de abril de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Algumas definições para síndico

Aparecido Raimundo de Souza

“Para esse prédio virar gente de respeito, precisamos eleger um síndico o mais rápido possível”.
Cézar, o ‘Cavernoso’.

O síndico é antes de tudo um destemido, valente, afoito, arrojado, pelo menos, no espírito. Como diria Euclides da Cunha, “um forte”. Sujeito cabra macho, bom de briga sabe como descer o braço, sem dó nem piedade, nos costados dos moradores para os obrigarem a pagar em dia o condomínio.

Síndico é ainda aquele que faz tudo o que todos deveriam fazer, mas não têm tempo de porra nenhuma, pelo bem da comunidade que administra. Aprendeu, desde cedo, com o diabo, a difícil arte de se manter disfarçado, como um cordeirinho, por períodos que duram exatos trinta dias.

Passada essa vacância, retorna com toda corda, ou mais precisamente no quinto dia útil de cada novo mês, transformado numa espécie de lobo faminto e devorador, pior que o asqueroso Lula, quando pediu dinheiro à empreiteira Odebrecht. Só para lembrar aos leitores, o ex-presidente pulou com tanta sede nos colhões do pote, que um dos diretores chegou a comparar o ato desse verme nojento, como a goela muito aberta e escancarada do PT (Partido dos Trambiqueiros) de um jacaré com fome de crocodilo.

Como tal, em suas “funções” o síndico ataca sem contemplação as suas presas e vítimas, começando pelas vovozinhas. É meio aparentado do tal bicho papão. Tem a estranha mania de se manter por detrás da moita, sentado, numa cadeira confortável, vendo televisão pelo circuito interno e, quando menos se espera, cria vida, asas e se materializa, dando o bote.

Aparece do nada e assusta como se fosse um barco descontrolado diante de banhistas incautos. Existe um ditado rolando entre os arranha-céus, que diz mais ou menos o seguinte: “quando um síndico começa a afundar com o prédio onde você mora, não reze. Mude imediatamente de edifício”.

Saibam, senhoras e senhores, que existem dois tipos distintos e conhecidos de síndico. Além do síndico comum (aquele que administra nossos espaços de moradias), temos também o síndico da massa falida, ou seja, o síndico (ou vulgarmente o sínico) da massa falida, aquela pessoa altamente qualificada que cuida dos bens de um inventário, até que o verdadeiro dono morra e ele tome posse definitivamente, passando a usufruir desses frutos e haveres, como se fossem adquiridos com o suor do seu trabalho.

Nos prédios onde temos nossos lares, esposas e filhos, é muito comum depararmos o síndico da massa não a falida, mas a fodida. Que diabo venha ser isso? Explicamos. Do alto do seu nobre cargo, todo síndico que se preza se sente na pele do ilustre Saddam Hussein, falecido nos idos de 2006.

Como o estadista iraquiano, o desnaturado não tem complacência. Apela sempre para meios escusos, não dorme, está constantemente em vigília (principalmente de butuca nos condôminos que tentam fugir na calada da noite, disfarçados de Renan Galheiros ou Fernando Pó de Melo) e se o porteiro ou o vigia noturno entram numa de cochilar, aplica-lhes uma advertência de três dias (o famoso balão) e aproveita para embromar e comer os trocadinhos que os infelizes teriam a receber no final do mês.

Salvador Decá, com muita propriedade, apregoava. “A diferença entre um homem e um síndico, é que o homem é ponderado, o síndico não sabe o que é isso”. Daí, senhoras e senhores, afirmarmos que geralmente essas figuras não têm mãe. Talvez, em razão disso, as más línguas, asseverem que as putas que os pariram, morreram de puro desgosto,  – uma porque um miserável, logo que se viu eleito, teve a coragem de cobrar da própria genitora, uma taxa extra, em aberto, referente à troca dos cabos dos elevadores –, enquanto o outro estuprou o cofrinho com as economias da pobre da velha, para ajudar no complemento do dinheiro para saldar o décimo terceiro dos funcionários alegando falta de caixa e alta inadimplência.

Observem que somos obrigados a acreditar na sorte. Como lecionava o francês-brasileiro Jean Coquiteull “sem ele, o síndico, como explicarmos o sucesso de um maldito vagabundo que tanto detestamos?”. Falando em vagabundo, em cada edificação urbana existe um sindico tido como malandro. Aquele espertalhão com ares de anjinho bucólico, pacato, bom falador, bem-apessoado, todavia, que faz da gente um completo idiota. Geralmente eles põem a culpa nas escadarias, que é para parecerem menos ladrões.

“Precisamos trocar – berram nas reuniões enfadonhas - os degraus do terceiro, do quinto, do novo, do décimo oitavo, os corrimãos do ‘vinte e dois’ ficaram velhos, se faz mister substituirmos as lâmpadas do décimo segundo e do décimo quinto, por estarem queimadas, sem falarmos, mas agora o fazendo, nos sensores de presença do onze e do treze por aparelhos mais modernos”.

No final das contas, amadas e amados, fora os eteceteras, eteceteras e tais, nada é substituído e o mais desgastante para os bolsos dos residentes: todo mês vem no boleto, de boca aberta, a parcela equivalente ao extra das escadas, mas as bostas elencadas continuam na estaca zero, pior que os degraus dos porões sombrios e mafiosos do antigo DOPS, na Rua da Relação, com Inválidos, no centro do Rio de Janeiro.

Síndico no entender do Burrão de Itararé, “é aquela grotesca alma penada que faz muito barulho, porém, é extremamente oca por dentro e por fora”. Sindico, não tem rosto. No lugar dele, uma estonteante e sádica cara de pau. Seu perfil masturbado já vem com uma boa camada de verniz que é para não ficar vermelha na hora de aumentar a taxa destinada à limpeza das caixas d’água ou a substituição dos extintores de incêndios por outros que não funcionam. O síndico, no geral, não pede, manda, não dá ordens, vende pensamentos, não perdoa, esfola, não pensa, age e jamais visa o bem-estar de seus semelhantes a não ser para lhes arrancarem os couros, às unhas afiadas como um patrocinador do terrorismo de um estado islâmico interno.

O síndico é, visto por uma ótica mais abrangente, um elemento tido como useiro e vezeiro, ou contumaz e impertinente, amoldado aos sinônimos de taxas extras e cotizações de impostos e contribuições a se perderem de vistas. Usa dessas artimanhas, para maquiar as companhias de água, luz e fornecimento de gás com as desculpas de permutar meia dúzia de canos ou vistoriar redes com suspeitas de gatos latindo.

É, ainda, o síndico, o advogado e juiz, que ingressa na justiça para “tomar” (dentro da lei), a unidade daquele Mané desempregado, que por ter várias prestações em aberto, e não tendo como adimplir, de vez, se vê, de repente, jogado na rua da amargura com todos seus cacarecos.

O síndico, por derradeiro, é aquele pai desnaturado, que deixa o filho com fome e a mulher de olho no big brother merda Brasil, enquanto nesse intervalo desce as carreiras à casa da administração para dar uns agarros vapt-vupt na faxineira boazuda.  
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Fortaleza, no Ceará. 13-4-2017

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