terça-feira, 11 de abril de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Falta de assunto dava nisso...

Aparecido Raimundo de Souza

Não sei se fico em casa comendo as fatias da adocicada “Melancia” da Marian Keyes ou se me concentro nas memórias de Mercúcio Parla, personagem do genovês Mino Carta em “À Sombra do Silêncio”. Talvez seja melhor do que ligar a televisão. Os jornais de hoje me informam que o comitê da campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, coordenada pela Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados divulgou o último ranking do ano, formado pelos programas mais denunciados pelo público no quesito “baixaria”.

Descubro que a grande campeã da lista de merdas e cagalhões é a novela “Kubanacan”, da Rede Globo, com cento e trinta denúncias. Em segundo, no pé do líder, está o programa “Domingo Legal”, do SBT, com cento e dezessete votos. Em terceiro aparece a “Celebridade” do Gilberto Braga, com cento e oito ligações desfavoráveis. O “Programa do Ratinho” ficou com cento e quatro votos, em 4º lugar, portanto. Depois tem o humorístico Casseta&Planeta, João Kleber, a “Hora da Verdade”, da Márcia Goldschmidt, “Malhação”, “Domingo do Faustão”, de novo, e outras porcarias sem sentido. Com todo esse amontoado de entulho sendo jogado por aí, nem Tarcísio Filho com toda a sua sem-vergonhice na pele de Sebástian em “Chocolate com Pimenta” consegue prender a bunda do telespectador no sofá do hall de entrada.

Resolvo dar um rolé pelo calçadão. Quase final de ano, um monte de novidades aguarda que o cidadão perca o bom senso e meta, compulsivamente, a mão nos bolsos. Mas no meu caso, especificamente, comprar o quê? Um pinheirinho de natal, um cartão? Uma boneca para cada uma das minhas filhas? E para a mãe e o pai? Um aparelho de som, um barbeador elétrico, um massageador para eliminar as dores nas costas que eles vivem reclamando? E para a namorada: uma calcinha cor de rosa ou um fio dental vermelho? E os meus irmãos? Se comprar para um, terei que comprar para todos. Ninguém pode ficar de fora. Seria injusto, desumano. Porra! Haja dinheiro na carteira, disposição, coerência, serenidade, cabeça fria e prudência. Sobretudo, prudência.

Sem um freio na voragem descomedida dos desejos, com certeza, trinta dias, à frente, as contas dos cartões de crédito e os cheques a serem cobertos aparecerão, comendo juntos, na mesa, sem piedade e sem contemplação. É melhor, portanto, um pit stop.

Desço. No elevador, uma beldade que veio lá de cima, de contrapeso, me olha desconfiada. Uaaau!!! Capturo, ao passar pela banquinha do Lineu, aqui na Praça do Relógio, quase ao lado do meu prédio, a nova edição da revista Vip com a fogosa filha do Zezé Di Camargo, a Wanessa, toda sensual. Apanho uma e folheio, bem devagar, sem pressa, os nervos aflorando, a boca cheia d’água, pelo desejo sujo da posse...

Hum!!! A melhor foto, acreditem, é a que ela está trepada na moto, com aquela roupa de couro preta, no maior estilo sadomasoquista, carinha sensual, tipo “faz de mim uma parede, senão te jogo na lagartixa”.

Com certeza, a moto deve ter ficado toda molhadinha com esse ensaio, principalmente depois que a mocinha declarou ao repórter que “saliência faz bem para a pele”.

Ao contrário da bola, em caminho inverso, que faz um mal terrível ao Romário. Já perceberam que toda vez que o sujeito precisa jogar sente o desconforto de um incômodo estranho atacando a batata da perna esquerda? Se eu fosse o baixinho, antes que o Fluminense caísse no rebaixamento dava um chute no traseiro do Renato Gaúcho e ia ouvir o novo DVD do tropicalista Tom Zé acompanhado de um pôster gigante da Hebe Camargo.

Tudo que digo neste momento é puro lampejo de sonho. Aqui entra a eterna confusão do “sonhar o sonho errado”. Lembro Fernando Gabeira em seu discurso no Congresso, em Brasília, por ocasião do seu voluntário desligamento do PT e registrado em praticamente todos os jornais do dia 15 de outubro. Não quero, pois, “sonhar o sonho errado”, repetir o erro do autor de “O que é isso, companheiro?”. Prefiro “Sinais de Vida no Planeta Minas”.

Devolvo a revista ao Lineu e sigo em frente. O calçadão está lotado. Pessoas correm, moças patinam, uma galera anda de skates. Enquanto cumprimento um casal de amigos que mora no meu edifício, torço para que a Wanessa continue mostrando o que tem de melhor. Que na próxima seção de fotografias fique peladona, de ambos os lados.  Faço figa com os dedos, para que o Romário tropece mais vezes na gorduchinha e a batata da sua perna asse em fogo ardente. Que o Fluminense vá para os quintos; que os palhaços do comitê da campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania” tenham uma forte dor de barriga e vomitem marimbondos furiosos; que os safados da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados explodam junto com a Câmara e, de roldão, levem o Congresso junto; que a Globo, o SBT, a Rede TV sigam despejando seus lixos imundos e infestando nossas telinhas.  Não quero “sonhar o sonho errado”, ou acreditar na teoria meio paranoica de Luiz Fernando Veríssimo de que “há pessoas que, com o tempo, acrescentam outra. O rosto fica carnudo, a cintura se expande tudo engrossa: incorporam um estranho”.

Não quero virar, pois, um estranho, nem me transformar num outro, desconhecido, esquisito, anormal, pelo menos no ninho onde estou metido agora. Termino, pois, por onde comecei. Vou dar meia volta em frente ao posto policial e procurar o caminho de casa. Meu doce lar está logo ali. No conforto do meu apê, tomando um copo de refrigerante bem geladinho, acomodado no divã, de frente para o calçadão e das luminárias que refletem as cores de suas lâmpadas no mar imenso que se abre, solitário e majestoso, além dos navios iluminados, parados, lá longe, à espera de um porto amigo que os abrace e acolha.

Acabar de devorar a “Melancia” da Marian, que deixei fatiada e guardada, na estante, com um marcador de páginas do tempo em que ainda devorava Lucíola, uma prostituta de luxo aqui do Rio de Janeiro do século XIX de José de Alencar. Me vem à lembrança, que nessa época, nos idos de 1850, Alencar já chamava a atenção para os surtos da febre amarela, enfermidade que aliás, deixou todos os parentes da personagem central adoentados e a beira da morte. Esse final de leitura da Melancia me fará um grande bem. Depois, quem sabe, seria de tom excelente sequestrar a bela Core Mio, de Mercúcio Parla e fugir, com ela, para “Budapeste”, sem que o Chico Buarque, evidentemente, entre em cena e queira vir junto, de contrapeso.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Fortaleza, no Ceará. 9-4-2017

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