terça-feira, 11 de abril de 2017

[Aparecido rasga o verbo] A formiguinha valente

Aparecido Raimundo de Souza

1
O TAMANDUÁ chegou na porta de sua casa cansado e furioso. E pior, faminto. Um bom punhado de formigas lhe faria um bem danado. Lembrou-se de um formigueiro bem próximo dali. A alguns passos, somente. Antes de entrar e dar um beijo na mulher resolveu ir conferir de perto os petiscos. Foi. Quando se preparava para saborear o esplêndido banquete, ouviu uma vozinha suave, mas enérgica às suas costas.
- Alto lá! Vade retro! Não tem vergonha?

2
O animal levou um baita de um susto e olhou em volta à procura do inoportuno interlocutor.
- Quem está aí?
- Eu, aqui.
Num pé de bananeira, saboreando um pedaço de jaca, isso mesmo, jaca, uma solitária formiguinha, deste tamanhinho, observava, com a aparência séria e decidida, o brutamontes, parado feito um debilóide à sua frente.
- Por acaso estou incomodando, senhorita?
- Sim, está. Por que não sai em busca de outro tipo de alimento?
- Dê o fora daqui antes que lhe mande direto para a barriga.
- Não se enxerga?
- Quem, eu?
- Só estou vendo um, como diria, um mimercofagídeo aqui.  Por sinal, feio e esquisito pra diabo e, como se não bastasse, desdentado.

3
- Um... um o quê? Tá legal, mocinha, não me interessa. E daí?
- Poderia me responder uma pergunta básica?
- Se estiver ao meu alcance...
- Por que insiste em fazer mal à minha gente?
- Mal à sua gente?
- Exatamente o que acabou de ouvir.
- Olha aqui, gracinha. Não estou entendendo aonde quer chegar. Daria para ser mais clara e objetiva?
- Você e a sua maldita raça nos dizimam.
- Que diabo é isso?


- Além de feio e desdentado, é igualmente estúpido e burro. Dizimar significa destruir, exterminar, devastar, desfalcar. Quer mais adjetivos?
- Escute bem, ó insignificante e reles inseto. Apesar dos seus abundantes conhecimentos de informática, digo, de português, nada disso me interessa.  Fique sabendo que vou me banquetear com você e vai ser agora.
- Antes quero que saiba, não estou sozinha.

4
O tamanduá espiou demoradamente em todas as direções. Não viu ninguém, a não ser a impertinente formiguinha.
- Posso ser feio, esquisito, desdentado como acabou de mencionar. Não ligo, não estou nem aí também.  Concordo que não possuo a aparência de um Thiago Lacerda, ou Rodrigo Faro, mas uma coisa que não sou é cego. Aqui e agora, só vejo você e eu, gostosinha do papai. Portanto, chegou a hora de acabar com a sua raça.
- Se der um passo, um só, que seja, nós o atacaremos. 
- Nós?
- Exatamente. Eu e minha colônia.

5
O Tamanduá caiu na gargalhada.
- Assim que colocar o guardanapo em volta do pescoço, a senhorita se transformará no meu prato predileto. E para completar a minha refeição, depois que me deleitar com você, darei uma chegadinha até a cantina do compadre macaco, na beira do rio e tomarei uma cervejinha bem gelada.
- Seu presunçoso convencido, você é que será nosso prato do dia, nossa melhor fatia do filé mignon. Somos pequeninas, é verdade, mas em número tão grande e imenso que, em menos de cinco minutos sua pose de rei virará um amontoado de ossos desengonçados.

6
- Conhece aquele ditado “falar é fácil, difícil é botar em prática?”. Quero ver você ou Kikikikikik... vocês partirem para a empreitada e dar cabo do meu tamanho. Essa balela toda já me cansou e só fez aumentar meu apetite. Chega de conversa fiada. Se prepare que vou entrar em ação. Adeus, formiguinha... tive imenso prazer em conhecê-la.
- Não se aproxime. Está vendo este apito? Se fizer uso dele, creio que mil da sua laia não bastariam para escapar da nossa fúria e acalmar o ódio mortal que nutrimos por sua geração. Basta! Estamos fartas de sermos sacrificadas. Em guarda! 
- Escute aqui, trocinho de meia tigela, assim que eu baforar no seu cangote...
- Se der mais um passo pode se considerar um ex-tamanduá. Estou pronta e disposta para o que der e vier.

7
A impávida formiguinha fez, então, menção de colocar o apito na boca. O tamanduá se desconcentrou. Por momentos permaneceu meio que estático, os olhos arregalados, ouvidos atentos, perscrutando cada centímetro daquele lugar e vigiando cada movimento da sua diminuta desafiadora.
- Foi um prazer enorme conversar. Gosto de ouvir a opinião dos demais a meu respeito. Saiba, todavia, que não me agradou em nada ser chamado de feio, de burro e de desdentado.
- O prezado esqueceu do mimercofagídeo.
- Não tolerarei mais nenhuma espécie de insulto. Vou...

8
A formiguinha levou, finalmente, o apito à boca. O tamanduá partiu pra cima dela, espumando de raiva. Um piiiiiiii... ecoou quase em surdina, devido ao barulho que o tamanduá provocou ao se pôr em movimento na direção da bananeira.  Três ou quatro passos, não mais. A coitadinha da formiga lutou bravamente, pelejou até o fim, resistiu até onde foi possível, com todas as forças. Sua coragem e animo, porém, resultaram em vão. Acabou submissa, vencida, sucumbida e, pior, sugada como uma folha seca no meio de um temporal.  Ao se dar conta da sua desdita, era tarde demais. Estava no papo do seu pior inimigo.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Fortaleza, no Ceará. 9-4-2017

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