domingo, 3 de setembro de 2017

A gaveta

Helena Matos

É aqui que está o logro em que a geração de Cavaco Silva caiu: a ideologia não fica na gaveta. Muda é de gaveta. O controlo ideológico das nossas vidas é a gaveta que agora está no centro da questão.


O Governo anuncia que quer dados étnicos nos censos. Mas isso não era racismo?

Mariana Mortágua não percebe a polémica com a retirada dos livros da Porto Editora. Mas isso não era censura?

Na Auto Europa vê-se a força do PCP. Mas o PCP não se tinha convertido à democracia, usando a sua força sindical para defender os trabalhadores?

… Parece um mundo às avessas, mas é apenas um mundo ordenado pelo ritmo e pelo pensamento dos radicais. É sempre assim. O que causa espanto não é a agenda dos radicais, mas sim a vontade de acreditar que eles mudam.

Como aqui escreveu Rui Ramos a propósito da intervenção de Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD, acreditaram os homens da geração do ex-Presidente da República que nos tinham libertado do vírus das revoluções ao anularem o confronto ideológico entre a esquerda e a direita. De facto, a geração política de Cavaco Silva acreditava que a amenidade da vida numa doce e civilizada Europa seria mais que suficiente para garantir a razoabilidade dos eleitorados, devidamente balizados à direita pela democracia cristã e à esquerda pelos socialistas democráticos.

Tudo isto se traduziu em Portugal numa visão paternalista da extrema-esquerda (a atitude para com a extrema-direita foi outra). Para ilustrar as contradições dessa gente que publicamente maldizia o sistema, mas vivia confortavelmente instalada nele, contavam-se com bonomia histórias como a do compagnon de route que nos idos de 1975 confidenciara a um celebrado cantor de protesto que se o PCP ficasse a governar ele fugiria. Ao que o cantor, tido como irredutível comunista, teria respondido, pedindo segredo: “Eu também!”

O PCP quase parecia um rancho folclórico; a foice e o martelo um adereço vintage; os trotsquistas mais o dr. Louçã desempenhavam um papel incontornável no denunciar da corrupção e do que na legislação e na administração sobrara da ditadura.

Depois chegou o bafio versus as causas fraturantes. A família, a educação, a natalidade, o casamento… tudo isso era bafio, bafiento, ranço que no fundo eram sempre um resquício do país cinzento e triste do salazarismo. Até que chegava o dia em que, devidamente apadrinhado pela extrema-esquerda, o assunto se transformava em causa fraturante e entrava no paradigma do “ainda”: “Portugal ainda não tem legislação”; “Portugal ainda não permite”; “Portugal ainda mantém”…

Implícito ao “ainda” estava o sentido único da História: os amanhãs não cantariam, mas nós, por via da “abertura de mentalidades” (os governantes deixaram de querer governar, a abertura de mentalidades tornou-se o seu principal desígnio) aderiríamos mais cedo ou mais tarde ao que os promotores da causa fraturante em questão já tinham decidido ser bons para nós.

Apesar do imparável frenesim dos radicais na introdução de novas causas vivia-se convicto que laboriosas regras orçamentais a par dos superiores valores da democracia e um cumprimento rigorosamente institucional dos procedimentos seriam suficientes para nos preservar de tentações autoritárias e derivas populistas. Acreditava-se que deste modo seríamos tolerantes e razoavelmente governados senão para sempre pelo menos por largo tempo.

Tendo sido isso verdade durante alguns anos tornou-se rapidamente numa armadilha: o centro só falava de economia, mas os extremos só tratavam da ideologia.

Os primeiros a sentirem na pele as consequências desse logro do campo democrático foram os socialistas. Com programas assentes na redistribuição de rendimentos, os socialistas ficaram sem propostas quando a crise chegou e em países como a França e a Grécia os seus eleitorados foram engrossar as hostes da extrema-esquerda. Ou como acontece em Espanha, os socialistas acabaram a discutir o próprio país.

Em Portugal o trajeto dos socialistas teve características únicas: primeiro foi Sócrates e os seus mil casos. Depois, em 2015, os socialistas tomaram uma opção cujas consequências não se conseguem ainda avaliar: não viabilizariam uma solução governativa ao centro – que país seríamos hoje se isso tivesse sido possível? – e optaram por fazer seus parceiros os radicais. A estes últimos pagam os socialistas em poder na máquina estatal e em legislação ideológica. Não é um acaso a multiplicação dos poderes de comissões e comissariados, verdadeiras correias de transmissão política, constituindo um mundo paralelo que ninguém escrutina e de cujas decisões não se recorre: por exemplo, se as indignadas criaturas tivessem recorrido para a Justiça, a Porto Editora alguma vez teria sido levada a retirar os livros do mercado?

De repente tudo é ideológico. À excepção das Finanças. De facto, como Cavaco Silva lembrou, Tsipras aplica medidas de austeridade, Hollande frustrou todas as expectativas nele depositadas para derrotar a disciplina orçamental e, em Portugal, António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa fazem cativações. Esta espécie de choque com a realidade levou estes governantes, segundo Cavaco Silva, a “pôr a ideologia na gaveta”. É aqui que está o logro em que a geração de Cavaco Silva caiu: a ideologia não fica na gaveta. Muda é de gaveta. A ideologia fica aliás com rédea solta para se instalar em todas as gavetas à excepção da das Finanças. A cada obrigação que se cumpre para com os credores lá temos mais uma gaveta entregue nas mãos de um Mário Nogueira, de uma comissária para isto ou para aquilo, mais uma gaveta-programa anunciada pelo ministro Eduardo Cabrita…

Aquilo que António Costa tem para dar aos radicais para contar com o seu voto, o seu silêncio, a sua propaganda enquanto trata de “pôr a ideologia na gaveta” nas relações com o BCE é tão só deixar que cada gesto do nosso quotidiano seja visto, avaliado e julgado pelo crivo ideológico dessa gente a quem deu estatuto governamental.

Quando esta aventura socialista acabar não sei como estarão as Finanças do país, mas as nossas vidas essas estarão sem dúvida menos livres.

P.S.: A deputada Paula Teixeira da Cruz declarou que qualquer alteração legislativa no sentido da legalização da eutanásia não requer revisão constitucional. Se esta sua tese vingar temos de admitir que o texto constitucional português é a versão escrita da pastilha elástica.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 3-9-2017

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