segunda-feira, 25 de setembro de 2017

[Para que servem as borboletas?] A Rocinha e as ervas daninhas...

Valdemar Habitzreuter

A sociedade carioca está desesperada. Os tiroteios nas favelas envolvendo gangues de traficantes, forças federais e policiais sinalizam um cenário de guerra e deixam marcas de medo e terror. As favelas cariocas são excelentes redutos de marginais criminosos, devido à topografia da cidade do Rio de Janeiro, mapeada de morros onde a população mais carente – esquecida pelo Estado – acaba se estabelecendo, construindo seus barracos desordenada e precariamente, ensejando ruelas estreitas e becos que servem de esconderijos a traficantes e criminosos.

A maioria dos favelados é do bem e labuta pela sobrevivência, descendo dos morros para o asfalto todos os dias para trabalhar lá embaixo na cidade; as mais das vezes tem subempregos ou algum bico com os quais garante a subsistência própria e de sua família; gente boa, portanto, que quer trabalhar e levar uma vida digna e normal, e, se possível, ter seu churrasco na laje e rodas de samba nos finais de semana.

O grande problema, no entanto, é o alastramento e a desorganização das favelas, permitidos pelo governo e, aliado a isso, a falta de uma assistência mais profícua a essas comunidades – melhor escolaridade, educação, saúde e saneamento básico – que possibilitasse aos favelados uma vida mais digna, proporcionando sua inserção na sociedade carioca com bons empregos e não marginalizados com exíguos salários que lhes impõem uma vida difícil, ao ponto de nutrirem simpatia aos bandidos traficantes que, muitas vezes, distribuem benesses ao moradores.

O Estado sempre esteve distante e omisso quanto à assistência e melhoria social dos favelados. Se recentemente se preocupou em olhar para essa classe desfavorecida é porque em seu seio surgiu um Estado paralelo confrontando o Estado de direito. Traficantes têm um ambiente favorável nas favelas para estabelecerem aí seus quarteis generais onde arregimentam facilmente seus “soldados” para traficar drogas, com um soldo melhor do que se estivessem exercendo algum subemprego na cidade.

A comunidade faveleira sente-se refém desses marginais e grande parte é conivente com eles, uma vez que recebem a assistência que o Estado lhe nega. Os que não aceitam as diretrizes dos traficantes ou são expulsos ou mortos; o diálogo entre os chefões do tráfico e a comunidade se faz através de fuzis...

Este status quo de guerra que ora presenciamos nas favelas do Rio é uma demonstração de falência e fraqueza do Estado de direito do Rio de Janeiro. O que ocasionou esse caos foram duas vertentes de bandidagem, principalmente, nas últimas duas décadas: a roubalheira e corrupção dos que usurparam do poder do Estado, de um lado; e o imenso império marginal dos traficantes de drogas e armas que se estabeleceu nas favelas cariocas, de outro.

Se quisermos estabelecer a origem do desmonte e destruição do Estado do Rio é só voltar ao passado e averiguar o governo Brizola: sua grande jogada eleitoreira foi a de que as favelas eram imensos redutos de eleitores e não seria conveniente que a polícia subisse os morros à procura de bandidos; estes passaram, então, a apoiar Brizola e foram fieis cabos eleitorais junto às comunidades. Daí em diante, esta tática eleitoreira foi adotada e levada adiante pelos candidatos a cargos eletivos. Assim, o Estado paralelo estabeleceu-se e fortaleceu-se a tal ponto que, agora, nem as forças conjuntas – federal e estadual – são capazes de debelá-lo, como estamos vendo.

Mas, em rigor, a principal causa dessa nefasta situação de guerra e violência no Rio é o grande contingente de usuários de drogas na sociedade carioca dando poder de fogo aos traficantes; é um enorme exército invisível que alimenta as gangues do tráfico de drogas e armas; daí a demonstração de poder dos traficantes que se viu na semana passada na favela da Rocinha, uma verdadeira guerra entre gangues rivais sem que a forças legais constituídas – militar federal interveniente e policial local – tenham êxito em combater esses criminosos. Essa situação subsistirá enquanto houver demanda por drogas e o Estado permanecer desorientado, abobado e hipnotizado, sem reação exemplar e inteligente no enfrentamento da criminalidade...

A Rocinha, outrora fazenda onde se plantava e se colhia bons frutos, é hoje símbolo da desigualdade social do Rio e, ao mesmo tempo, proliferação de ervas daninhas – esta praga de traficantes de drogas espalhando medo e terror pela violência sem limites...
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 25-9-2017
  
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Um comentário:

  1. Prezados, o Poder de fogo dos Marginais, principalmente do Tráfico, demonstra o quão grande é o consumo de Drogas no Rio. A Sociedade Carioca dá o dinheiro para a compra do Fuzil, e com o qual ela é assaltada nos Túneis e demais localidades.
    Habitz muito bom Texto!
    Abs,
    Heitor Volkart

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