segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os dois Rios

Carlos Guimarães Pinto

De todas as cidades onde tive o privilégio de trabalhar – mais de 30 em 3 continentes – há poucas em que a minha experiência seja tão diferente da percepção geral como Khartum, a capital do Sudão. Para além de muitas outras coisas, Khartum é a cidade onde confluem os dois Nilos: o chamado Nilo Azul e o Nilo Branco. O Nilo Branco na verdade é azul, límpido e transparente. O Nilo Azul na verdade é castanho porque ao longo dos últimos quilómetros do curso vai acumulando terra agrícola, dejetos e esgoto. Os rios são de tal forma diferentes que na sua confluência dá para perceber exatamente a água que vem de um ou de outro (como podem ver na imagem).


Neste PSD também aparecem dois Rios. Há o Rio dos discursos, que parece ter uma ideia clara e acertada do que quer para o país. Discursos que poderiam ser retirados, linha por linha, de um discurso de Passos Coelho. O discurso de encerramento foi dos mais estruturados e bem pensados que alguma vez se viu não só no PSD, mas em todos os partidos. Tocou nos pontos certos, conseguindo ser mais realista do que muitos elementos da chamada nova geração que, talvez pelo deslumbramento de se querer afirmar moderna, parece viver num Mundo diferente do país velho e falido que o PSD um dia terá de governar. Neste Rio seria fácil votar. Mas depois há um outro Rio: o Rio que escolhe aqueles que o acompanham. O Rio dos caciques, do homem da mala, da Elina Fraga e de todos os outros que me escuso de comentar por não ter dinheiro nem tempo para passar em tribunais. O Rio que mais parece uma versão ressequida de José Sócrates. Este Rio é o pior inimigo possível, não só do PSD, mas também do país. O país aguenta ter um partido socialista, dominado por interesses e susceptível à corrupção, desde que exista uma alternativa para o socorrer. Este Rio que foi colecionando o esgoto do partido na sua subida ao poder é o Rio que manterá o PSD dividido e perdedor. É o Rio que retira a alternativa ao país, obrigando-o a escolher entre as caras que o assaltarão e não entre visões para o país.

Em Khartum, a merda acumulada no Nilo Azul eventualmente dissolve-se e o Nilo, já unido, segue forte e limpo até ao Egito. Sobre o outro Rio tenho menos certezas. O futuro o dirá. 
Título, Imagem e Texto: Carlos Guimarães Pinto, Blasfémias, 18-2-2018

2 comentários:

  1. CGPinto,
    clarividente post.

    Também impressionou neste congresso a facilidade com que certos militantes-catavento, uns mais conhecidos do que outros, se encaixaram na mala do RRio para um lugar ou lugarzinho que seja nos órgãos nacionais ou, no caso do AJJardim-trauliteiro, a satisfação desmedida como assinalou a saída do PPCoelho.

    O PSantana Lopes escusava bajular tanto o Rio publicamente. Sente-se “senador”, uma referência, envelheceu até nas habitualmente parcas ideias, confrange ouvi-lo.
    MRJB

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  2. Elina Fraga no Twitter sobre Pedro Passos Coelho:
    “ideologicamente vazio, cheio de cosmética e muita areia”
    Percebe-se agora muito melhor porque o Rio a escolheu.
    Andreia

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