domingo, 6 de setembro de 2015

Roma, germanos e muçulmanos…

José António Rodrigues Carmo
A questão das migrações islâmicas para o espaço europeu suscita cada vez mais acesas discussões. É bom que isso aconteça, porque o problema é complicado.

Um dos argumentos brandidos pelos que acham que há que acolher e não pensar no resto, é o de que os valores do Ocidente acabam por ser aceites pelas populações acolhidas.

E referem, como exemplo, o período das invasões e migrações germânicas sobre o Império Romano que levaram, não à germanização da România, mas à romanização dos bárbaros.

O argumento é poderoso mas falacioso.

Os germanos, apesar de terem sido os maiores responsáveis pela destruição do governo imperial, não queriam substituir o Império por algo novo e o direito, a moral, a economia, a moeda, o equilíbrio social, a língua, as artes, etc, mantiveram as referências romanas. Até a religião cristã, a religião do Império, acabou por desalojar o arianismo.

Os reis bárbaros eram geralmente vistos pelas populações como generais ao serviço de Roma. E quando vitoriosos, iam ao encontro dos vencidos, adquiriam os seus hábitos e os seus valores, governavam à romana, ou tentavam. As suas cortes estavam cheias de poetas e retóricos, Recesvinto, Rei dos Visogodos, proclamou em 634 um Liber Judiciorum, completamente tributário do direito romano.

Sigismundo, Rei dos Burgúndios, dizia-se um soldado do Império.

O Norte de Africa estava completamente romanizado e até os Vândalos, que ali se instalaram, aceitaram o estilo romano.

Nessa altura os árabes começavam a sua avassaladora jihad e foi tudo muito diferente.

Em 632, quando Maomé morreu os árabes eram umas tribos de selvagens, para lá da Síria.
Os grandes poderes da época eram o Império Bizantino, o Império Persa e, na Europa, os reis germânicos mantinham viva a ideia do Império Romano.

Trinta anos depois já os árabes, galvanizados por uma nova religião, carregavam sobre o Norte de Africa, e conquistavam Creta, Chipre e Sicília. O Mediterrâneo era deles e os Impérios Persa e Bizantino batiam em retirada.

Por que razão não foram os árabes absorvidos pelos valores das regiões ocupadas, como tinha acontecido com os germanos?

Religião!

Os germanos nada tinham a opor ao cristianismo do Império, queriam apenas poder e o brilho que o Império projectava, mas os árabes combatiam por uma nova fé e foi a natureza dessa fé que impossibilitou a assimilação.

Os árabes nada tinham a opor à civilização superior dos povos que conquistaram, e assimilaram-na com grande rapidez, indo beber directamente ao legado helénico.

Nem sequer pretendiam converter os conquistados, apenas que eles obedecessem a Alá.

Ou seja, exigiam a simples e natural, submissão de seres inferiores, degradados, desprezíveis, e abjectos.
Onde chegaram, instalaram-se como dominadores. Os vencidos eram seus súbditos, pagavam impostos especiais (jyzia) e não faziam parte da umma, da comunidade dos crentes. Nenhuma fusão podia acontecer entre conquistados e conquistadores, nenhum esforço os vencedores faziam para agradar aos vencidos. Eram estes que tinham de ir ao encontro dos seus novos senhores e não podiam ir de outro modo que não fosse como servidores de Alá.

A fé dos vencidos não merecia sequer a dignidade de ser rebatida. Era simplesmente ignorada. E esta era a melhor maneira de afastar o vencido do seu estado de jahiliyyah e conduzi-lo a Alá e à dignidade da comunidade dos crentes.

Tudo isto implica que onde o muçulmano se instalou como dominante, a antiga civilização desapareceu. O germano romanizou-se ao entrar no Império. Os povos onde entrou o muçulmano islamizaram-se porque a rotura com o passado foi total. Uma nova língua, novos costumes, um novo direito (sharia), novos valores, instituições e, acima de tudo, uma nova religião, dominadora e intratável.

A sociedade civil desapareceu, sendo substituída por uma sociedade religiosa e totalitária.

Foi isto que aconteceu em todas as regiões onde o Islão chegou, desde a Pérsia a Marrocos. E esteve prestes a acontecer na Península Ibérica, não tivesse havido algumas circunstâncias fortuitas que impediram esse desfecho.

É por isso que o argumento é falacioso. A ideia de que as comunidades muçulmanas são como as outras, serão assimiladas, e acabarão por se converter aos nossos valores, às nossas leis, ao nosso modo de vida, é puro wishfull thinking.

Nada na História corrobora tal esperança, pelo que a sua prevalência se deve apenas à profunda ignorância ocidental, relativamente aos fundamentos doutrinários do Islão.

E, como dizia Sun Tzu, quem não conhece o seu inimigo, nem se conhece a si mesmo, perderá todas as batalhas.
Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, Facebook, 5-9-2015

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