domingo, 3 de janeiro de 2016

O alquimista

António Pinho Cardão
O alquimista de Veneza acabou enforcado em Munique; o alquimista político renasce a todo o tempo e a fórmula persiste e renova-se

Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia e o desvio da rota das especiarias do Mediterrâneo para o Atlântico, Veneza entrou em declínio: a economia ressentiu-se, bancos entraram em colapso, sucederam-se falências, a crise chegou.

Por essa altura, chegavam a Veneza os ecos dos feitos de um alquimista, Il Bragadino, que de cidade em cidade ia mostrando o singular dote de transformar matéria desconhecida em ouro de lei. O seu prestígio crescia à medida que as cortes e os fidalgos lhe entregavam grossas somas para a aquisição da misteriosa matéria-prima que transformaria em ouro. Também manejava com sucesso a pedra filosofal, e a cura da infertilidade de Bianca Capello, Grã-Duquesa de Florença, aumentou-lhe fama e proventos.

Tardando o Doge em resolver a crise, um grupo de venezianos pensou que a aposta nos poderes de Il Bragadino poderia ser a solução. E uma petição levou o Senado, em votação democrática, a contratá-lo para exercer a sua arte a benefício da cidade, a troco de palácio, honrarias e avultados bens materiais.


Empossado, exigiu Il Brigadino substancial soma de ducados para a aquisição da matéria-prima que iria servir a alquimia. Ao mesmo tempo, ia promovendo demonstrações solenes do seu poder, retirando areia de um vaso e deixando-a cair, entre os dedos, misturada com grãos de ouro. Com a demostração, ia pedindo tempo para transformar em ouro toda a matéria-prima aprovisionada. Mas, com o passar dos anos, e não vendo os resultados esperados, desacreditaram os venezianos dos poderes do alquimista, oportunidade que ele logo encontrou para se despedir com justa causa. A alquimia só funcionava em ambiente de grande união e o que ele sentia era profunda desconfiança; o povo tornara-se o culpado do fracasso do processo. Veneza perdeu tempo e dinheiro, mas o mago foi logo disputado por várias outras cidades, da Itália à Baviera.

Aparecem alquimistas em todas as democracias, mormente em tempos de dificuldades. Com uma simples aposta tocada pela pedra filosofal, o alquimista afirma poderes de transformação imediata das crises em crescimento, gerando riqueza abundante para todos. E na propaganda do método e nos laços que vai criando, estabelece a teia que vai permitir a sua entronização por um qualquer Senado. A quem promete e jura que a aplicação das fórmulas químicas constitucionais da aposta vai gerar prosperidade certa e distribuição equitativa.

Mas logo no poder, as fórmulas químicas, antes sagradas, passam a ser modeladas à medida da sua conveniência e a alquimia, antes imediata, passa a demorar anos a produzir efeito.

Como o alquimista de Veneza, também faz demonstrações. Dos pequenos rolos escondidos nos punhos já não saem alguns grãos de ouro que caíam com a areia, mas moedas à razão de 30 cêntimos por mês, transformando a crise dos reformados em riqueza, ou de 70 cêntimos, assegurando o abono pleno de família necessitada.

Num estádio superior de manipulação alquímica, mistifica o fim de impostos que vão continuar a ser pagos e proclama o fim de outros que nunca existiram. E se o ouro não chega na quantidade exigida a alguns dos senatoriais apoiantes, logo lhes entrega pepita mais real, a da exploração das gôndolas nos canais da cidade e no espaço aéreo circundante.

Distribuído o pouco ouro que existia, e já não podendo continuar a ilusão, o alquimista imputa a terceiros a responsabilidade do insucesso.

O alquimista de Veneza acabou enforcado em Munique; o alquimista político renasce a todo o tempo e a fórmula persiste e renova-se.

O alquimista é bem a criação de uma democracia sem qualidade. 
Título e Texto: António Pinho Cardão, Economista e Gestor, Subscritor do Manifesto Por uma Democracia de Qualidade, jornal “i”, 3-1-2015

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