segunda-feira, 17 de abril de 2017

A propósito da Turquia

José António Rodrigues Carmo

Uma revolução telúrica está a acontecer na Turquia sob os olhares cada vez mais preocupados do Ocidente.

Revolução cuja importância se pode comparar à que aconteceu no Irão, em 1979 e que afastou esse país da órbita da modernidade e da ocidentalização, lançando-o no seio do “lado negro da força”.

Recip Erdogan, acaba de ser eleito para sultão e consegue aprovar uma nova Constituição que irá enterrar definitivamente a herança modernizadora de Kemal Ataturk.

Recep Tayyip Erdogan, foto: Alkis Konstantinidis/Reuters
Ataturk, relembre-se, chegou à conclusão de que a decadência otomana se devia ao lastro com que o Islão carregava a sociedade. Feito o diagnóstico, de uma assentada, mudou o alfabeto, do árabe para o latino, e desencadeou uma implacável repressão que afastou a religião islâmica para um canto, colocando-a sob controlo.

A Constituição que legou, firmava esse controlo.

O relativo sucesso da Turquia (em comparação com os restantes países muçulmanos), deve-se, segundo muitos autores, a esta visão de Ataturk.

Mas a ascensão de Erdogan e a do seu partido destruíram deliberadamente a herança de Ataturk e o seu modelo de sociedade.

Nestes últimos anos o erdoganismo islamista infiltrou-se nas instituições, nas empresas, nas escolas, em todo o tecido social, e tem um poder real que vai muito para além do institucional.

Um poder islamista que advoga o regresso ao Islão político, que persegue às claras jornalistas, militares e magistrados, calando toda a oposição aos seus projetos. Um projeto ditatorial ou mesmo totalitário.

Erdogan sempre disse ao que vinha, mesmo quando Obama o achava o seu melhor amigo. Entre despudorados espichos de antissemitismo e incitamentos ao ódio ao ocidente e a judeus, dizia, para quem o queria ouvir, que a “democracia é como um autocarro... quando chegas ao teu destino, sais”.

As ações, essas, falam por si: foi esta elite islamista que apoiou uma flotilha de extremistas contra Israel; foi esta Turquia islamista que se colocou do lado do Hamas, é esta Turquia que ocupa metade de Chipre, reprime violentamente os curdos, ameaça a Holanda, insulta a Alemanha, e silencia toda e qualquer discordância interna.

Face a isto, o que realmente espanta é que ainda esteja na NATO e que haja “especialistas” que recomendam a entrada da Turquia na UE, esquecendo que os turcos são agora os donos do local onde os troianos meteram clamorosamente os pés, ao receber no seu perímetro um belo presente envenenado que ficou para a História com o nome de “Cavalo de Tróia”.
Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, Facebook, 17-4-2017

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