quinta-feira, 13 de abril de 2017

Elogio da indiferença

Paulo Tunhas

Os micrologistas tendem à especialização em áreas particulares: alimentação, linguagem, e por aí adiante. Vigiam e incitam à punição. Os seus porta-vozes mais conhecidos são os “jornalistas de causas"

Confesso que fiquei surpreendido. Estava numa esplanada a ler um livro e a fumar quando a jovem com ar de drogada me pediu um cigarro. Não era nenhum dos meus pedintes privados (tenho três ou quatro naquela rua), mas, é claro, dei-lhe um. Pegou nele e, olhando para o maço com a menina que cospe um líquido vermelho para um lenço, disse-me, fitando-me reprovadoramente e com a voz a roçar o ríspido: “Isto faz muito mal!”.

Como qualquer fumador, já me aconteceu, normalmente no ato da compra do produto em questão, ter de aguentar com uma peroração ou outra vinda de um cavalheiro ou de uma senhora que apreciam exibir a sua virtude. Já nem me irrita muito, até porque, sem me querer gabar, o tempo e a experiência me permitiram desenvolver algumas respostas eficazes para essas intromissões na vida privada. Mas uma coisa assim nunca me tinha acontecido e, compreensivelmente, consegui apenas rir-me.

Mas um espírito avisado não se pode contentar com a surpresa. É preciso ir mais além e tentar compreender. Por que raio a jovem drogada julgou conveniente pôr na ordem o pacato benemérito que lhe tinha mostrado uma impecável solidariedade humana? Afastei imediatamente quaisquer considerações morais sobre a propensão à ingratidão que a espécie humana por vezes manifesta. Nunca se vai muito longe quando se vai por aí. Procurei a sutileza psicológica possível. E veio-me à cabeça o medo, essa paixão de que todos os filósofos falaram e que está sempre presente nas nossas vidas. De acordo com a doutrina inventada para consumo próprio na altura, a minha objurgatória amiga atravessaria um episódio psíquico no qual essa paixão seria dominante. E haverá melhor maneira de a exorcizar, de a expulsar para fora, do que através da condenação do outro?

A sofisticação especulativa, no entanto, está muito longe de garantir o acesso à verdade, e, pouco a pouco, dei comigo a refletir em matérias mais gerais que, deixando escapar por inteiro a singularidade do caso a explicar, lhe diziam no entanto respeito. Estou-me a referir à facilidade muito notória em ter opiniões sobre tudo e em não hesitar por um só segundo em as aplicar ao comportamento dos outros para os censurar. Demos um nome a essa disposição humana: incontinência judicativa.

Se há algo que domina a nossa vida social presente é mesmo a incontinência judicativa. A lista de associações de várias pintas que se dedicam ao exercício de juízos sobre o comportamento dos outros não tem fim. O número de censuras e reprovações com que diariamente nos vemos confrontados em jornais e televisões já não se conta. A incontinência judicativa passou a ser o pão nosso de cada dia e os incontinentes judicativos passaram a ser os tutores permanentes, públicos e autorizados, das nossas vidas.

Um resultado muito palpável da ascensão da incontinência judicativa na nossa sociedade é a progressiva eliminação da categoria do indiferente. O espaço do indiferente reduziu-se drasticamente. Tudo, ou quase tudo, passou a ser objeto possível de juízo. O tempo está para os micrologistas, detentores autodesignados da ciência do bem e do mal aplicada aos mais ínfimos detalhes. Os micrologistas tendem à especialização em domínios particulares: alimentação, linguagem, e por aí adiante. Vigiam e incitam à punição. Os seus porta-vozes mais conhecidos são os “jornalistas de causas”, que elevam a incontinência judicativa e a micrologia à altura de uma arte que se confunde com um modo de vida.

Isto acontece, é claro, porque um bom número de tendências da sociedade contemporânea facilita a coisa. A começar pela regulamentação cada vez maior do comportamento individual pelo Estado. E não é assim de estranhar que certas forças políticas tenham aí descoberto um nicho ecológico para se instalarem, como é patentemente o caso do Bloco de Esquerda, que começou a prosperar sob a direção da figura do incontinente judicativo máximo, Francisco Louçã. Muito mais do que uma novidade política efetiva, o Bloco soube aproveitar uma tendência geral da sociedade, à qual deu voz e representação. A prova do seu sucesso e da sua filiação no ar do tempo está no modo como a sua prática da micrologia, da incontinência judicativa fundada na convicção da não indiferença de nada, se alargou sem dificuldade alguma a outras paragens políticas.

E a liberdade, nisto tudo? Perde, como é bom de ver. Não se nota nunca suficientemente como a liberdade assenta, a par da convicção firme em alguns poucos princípios, no exercício de uma indiferença de base relativamente ao que não é essencial para a vida política. Os clássicos do liberalismo fartaram-se de o dizer e está aí a razão bastante para a sua atualidade. O liberalismo é a doutrina que por excelência se opõe à micrologia e à incontinência judicativa. E que, permitindo-nos centrar nas questões políticas verdadeiramente essenciais, nos deixa pensar com alguma pertinência o que é importante na nossa vida comum.

Resta a jovem do cigarro e da censura. Reflexão feita, se a coisa voltar a acontecer dou-lhe um cigarro à mesma. Nestes tempos pouco liberais o último pecado que quero cometer é eu próprio cair na tentação de julgar uma insignificante incoerência um mal merecedor de represálias. Há mesmo casos em que a indiferença protege as relações humanas. E uma coerência excessiva faz-lhes mal.
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 13-4-2017

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