segunda-feira, 17 de abril de 2017

Uma Carta para o Guardian/Observer sobre Lisboa

Lucy Pepper

O Guardian atribui a corrente renovação de Lisboa a António Costa. Quem é que em Portugal fazia ideia de que o atual primeiro-ministro era o único responsável por este milagre econômico?

Caro Guardian,

Estava para escrever a minha crónica desta semana sobre uma catástrofe global (não, não “essa”, outra), mas li ontem este artigo no Observer (isto é, no Guardian online) e deu-me vontade de responder. A tal catástrofe global pode ficar para outro dia… espero eu. Bem, todas as crónicas poderão perder a sua razão de ser até à próxima semana, com “essa” catástrofe à vista, mas tentemos ser otimistas.

Há três anos que o Guardian escreve liricamente sobre Lisboa. O Guardian é o jornal britânico com mais influência no que diz respeito ao jornalismo de viagens (tenho notado o que acontece no setor do turismo urbano quando o Guardian menciona alguma coisa, por comparação com outros jornais britânicos). Por isso, os vossos trabalhos sobre esta cidade têm tido um impacto forte, em número de visitas e no interesse que provocam na restante imprensa mundial. Bravo! Portugal está em apuros financeiros, e por isso, suponho que posso agradecer-vos, em nome de Portugal e de Lisboa. Suponho.



Hoje em dia, ficar na moda tem logo efeitos fortes e feios. O centro de Lisboa está hoje significativamente diferente do que era há três anos, para o bem e para o mal. A mudança tem sido tremenda e parece imparável, mas talvez a culpa não seja vossa. Afinal, estavam apenas a tentar ajudar e a ser simpáticos. Ainda a semana passada, publicaram um artigo chamado “O Melhor de Portugal Rural: dicas de leitores”, no qual os vossos leitores (que não têm de respeitar os mesmos critérios de rigor jornalístico, nem incorrem nas responsabilidades por causa das suas dicas) deram ao mundo notícia de uns certos lugares pouco conhecidos de Portugal.

Seria ótimo podermos partilhar o turismo mais igualitariamente pelas várias regiões de Portugal, em vez de estar tudo concentrado em Lisboa, no Porto e no Algarve. Porque se Lisboa estava a precisar de ajuda, o resto do país está com problemas ainda mais graves, e dar-lhe-ia jeito encontrar mais umas maneiras de ganhar a vida. Tudo bem, então, a não ser que Ponte da Lima se torne uma repetição de Lisboa e do Porto.

Contudo, o artigo de ontem, mais do que qualquer outro artigo que li no Guardian sobre Portugal e sobre Lisboa, fez-me comichão nos dentes. Pergunto: já que adoram este país assim tanto, porque não contratam um correspondente que viva cá (e não em Espanha), que fale a língua, perceba o país e fosse capaz de dar notícias realistas sobre este lugar maravilhoso? (e não, não estou a pedir emprego!)

O autor do artigo, o crítico de arquitetura do Observer, Rowan Moore, parece ter absorvido cada palavra que saiu da boca do “suave” secretário de estado da indústria, João Vasconcelos, o suspeito do costume nesta espécie de peças jornalísticas. João Vasconcelos tem, como seria de esperar, um interesse óbvio em promover a cidade, porque dinheiro é dinheiro. Também tem interesse em proclamar que o seu chefe, o primeiro ministro, é um ser maravilhoso.

Eis o que Rowan Moore conta, provavelmente a partir dessa fonte: “Enquanto presidente da câmara, Costa acabou com os obstáculos burocráticos, encorajou os empreendedores criativos e técnicos e deu um grande impulso ao turismo. Tornou mais fácil fundar empresas ou hotéis em prédios históricos. Criou programas para ensinar ‘coding’ a alunos e desempregados. Iniciou Startup Lisboa no centro da cidade então moribundo, um espaço onde negócios novos podiam começar, dirigido hoje pelo, agora secretário de Estado, Vasconcelos”. Rowan Moore chama a isto tudo o “Renascimento de Costa”. Quem é que em Portugal fazia ideia de que o atual primeiro-ministro era o único responsável por este milagre econômico? A maior parte de nós não sabia.

Rohan Silva é o outro suspeito do costume. Inexplicavelmente, é muitas vezes entrevistado sobre o tema de Lisboa, talvez porque tenha interesse em promover o seu negócio de “co-working”. Como vive em Londres, sabe tudo sobre Lisboa e Portugal. Assim, conta-nos que o governo de Costa é “popular e favorável ao empreendimento”. Sim, tão popular que precisou de formar a geringonça com o PCP e o Bloco de Esquerda para se tornar primeiro ministro, e, como todos sabemos, não há ninguém mais favorável aos empresários do que o PCP e o Bloco de Esquerda.

Outros entrevistados também contaram como tudo é maravilhoso por cá, desde o “surf” até as pessoas (“incríveis”). São americanos, franceses e ingleses, provavelmente conhecendo duas ou três palavras de português (peço imensa desculpa, mas sou realista… gostava muito de estar errada nisto), e têm todo o interesse em atrair mais gente como eles a Lisboa, para ter mais gente que fala a versão de inglês internacional ao pé. O paraíso fiscal de que beneficiam durante dez anos deve ajudar a criar essa sensação de que tudo é maravilhoso em Lisboa.

Depois, há a expectativa ingênua de que, para a “classe global criativa”, Lisboa é a nova Meca. Bem, os “criativos” terão muita sorte se encontrarem uma casa por menos de €2000 de renda mensal, caso queiram viver no centro da cidade em vez de nos subúrbios. Sorte a eles, digo eu, enquanto os lisboetas são empurrados cada vez para mais longe do centro. Um entrevistado americano revela que veio para Lisboa pelo “baixo custo de vida e pelos baixos salários”. Ah, estamos a ver: mão de obra barata e surf. Simpático.

Bem, no fim do artigo, o autor tenta fazer algum equilibrismo, e explica que há pessoas que não estão de acordo com tudo isto. Mas terá sido tarde demais. Aposto que antes de chegarem ao fim do artigo, já muitos leitores terão comprado os seus bilhetes só de ida para Lisboa, para usufruírem do melhor lifestyle do mundo, para interagirem quase nada com o Portugal genuíno, sem nunca terem de aprender a língua, e, claro, para aproveitarem o paraíso fiscal. Boa para eles.

Ó Guardian, normalmente manténs o teu compromisso com o jornalismo de qualidade, e é por isso que muitas pessoas, até as de outras persuasões políticas, têm a maior estima por ti. Por isso, se fazes favor, acaba com estas “puff pieces” com pouca informação válida, porque estás a mexer com a vida das pessoas nesta cidade.

Obrigada.
Beijinhos e abraços, 
Lucy Pepper (britânica, da “classe criativa” (bah!), a viver em Portugal desde o século passado, e que fala “the bloody” língua). Observador, 17-4-2017

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