domingo, 27 de agosto de 2017

A geringonça gosta da censura

João Marques de Almeida

A censura aos livros escolares serviu também para as esquerdas mostrarem que sabem usar o poder com a brutalidade que for necessária. A censura funciona sempre como um aviso para todos

43 anos depois do 25 de Abril, a censura voltou a Portugal. E regressou com as esquerdas no poder, as que mais lutaram contra a censura do Estado Novo. Com o apoio dos comunistas e dos bloquistas, o governo socialista forçou a Porto Editora a retirar livros do mercado. Fez o que o Estado Novo costumava fazer. A censura aos livros escolares vai muito além da questão do politicamente correto e da igualdade do gênero. A discussão sobre o politicamente correto serve mesmo como uma distração. Estamos perante uma estratégia política com elementos totalitários, a qual não está disposta a tolerar opiniões diferentes. Valerá a pena reler o magnifico livro de Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo (para aqueles que julgam que constitui um livro de referência para a direita, convém relembrar que o Le Monde o considerou um dos 100 livros mais importantes do século XX). A leitura do livro à luz do que se passa em Portugal é perturbadora.

De certo modo, nada disto nos deveria surpreender. O PCP e o BE sempre apoiaram ideologias e regimes políticos totalitários. Aliás, a “marca” Bloco de Esquerda não é mais do que um exercício de propaganda política para esconder a natureza do PSR e da UDP. O sucesso desta operação de “marketing político” é de resto evidente. A maioria dos portugueses olha para o Bloco como um movimento moderno e progressista, quando se trata na realidade de uma coligação de forças reacionárias e totalitárias. É neste aspeto que o politicamente correto das esquerdas serve para esconder a sua verdadeira natureza. A estratégia da dissimulação é de resto bem explicada por Arendt. Quanto ao PCP, nem sequer se dá ao trabalho de disfarçar, como testemunha a sua admiração pela Coreia do Norte e pelo totalitarismo soviético.

Mas onde o totalitarismo das esquerdas radicais é altamente perturbador é na sua tentativa de acabar com a distinção entre as esferas pública e privada. Como explica de um modo admirável Arendt, os movimentos totalitários começam sempre pelo ataque à esfera privada. Nada é privado e tudo é político, como se vê hoje com a discussão política da vida privada, deste a censura à linguagem usada em conversas privadas até aos ataques públicos a hábitos de alimentação. As ideologias totalitárias procuram dominar todos os aspetos da vida dos indivíduos. Ninguém tenha dúvidas, essa é a ambição do PCP e do BE.

No entanto, a linguagem da igualdade entre gêneros e raças não passa de uma propaganda das esquerdas radicais e sobretudo de um instrumento para desqualificar as direitas. Olhamos para as bancadas parlamentares e para os órgãos dirigentes do PCP e do BE, e o que mais se nota são indivíduos negros, ciganos e de outras minorias étnicas. Caso para dizer das nossas esquerdas, façam o que dizemos, mas não o que fazemos. Quanto à igualdade de gênero, o PCP nunca na sua história teve uma líder mulher (tal como o PS). Mas não é necessário chegar ao lugar de topo, a vida do PCP em todos os níveis de direção tem sido completamente dominada por homens brancos. Passa-se o mesmo nos sindicatos ligados à CGTP. Quem são os principais rostos do sindicalismo comunista? Homens brancos. Está na altura dos defensores da igualdade do gênero exigirem a paridade entre mulheres e homens nos órgãos dos sindicatos. Se há pressão sobre as empresas para o fazerem, por que não sobre os sindicatos?

E a antiga União Soviética, o grande modelo do nosso PCP? Alguém se lembra de uma mulher à frente da União Soviética? Nenhuma, nem em qualquer outro regime comunista. Estudem as histórias dos regimes comunistas da Europa Central e verão que não encontram qualquer mulher entre as lideranças políticas. A igualdade de género e a inclusão étnica não passam de propaganda política. O movimento comunista internacional foi construído e liderado por homens brancos.

Mas a censura aos livros escolares serviu também para as esquerdas mostrarem que sabem usar o poder com a brutalidade que for necessária. A censura funciona sempre como um aviso para todos. A geringonça está determinada a mostrar aos portugueses o preço a pagar pela discordância, pelo pluralismo e pela dissidência. Mesmo os que discordam do conteúdo dos livros deveriam defender o direito à publicação e deveriam ter atacado o ato da censura. As nossas esquerdas totalitárias sabem explorar muito bem a passividade, senão mesmo a apatia, da maioria dos portugueses em relação a questões como a liberdade de opinião e os perigos da censura. Foi impressionante como a maioria da imprensa portuguesa desvalorizou, e em muitos casos apoiou, a censura aos livros escolares. Percebe-se que se chegou a um ponto crítico quando a comunicação social não se indigna com a censura.

E o PS, no meio disto tudo? Apesar da geringonça, continuo a distinguir o PS do PCP e do BE. É, contudo, preocupante não ouvir nenhuma figura de referência do PS a criticar um ato de censura. Caramba, ninguém se indigna com o que se passou com os livros escolares? Onde estão as vozes do PS que sempre lutaram pela liberdade e contra a censura? Onde estão os herdeiros de Mário Soares? Soares talvez fosse um defensor da geringonça, mas não aceitaria a censura. Estou certo que se fosse vivo teria criticado o Governo. O Governo socialista tem respeitado os compromissos europeus, apesar da geringonça. Deve fazer o mesmo com as questões fundamentais de liberdades e direitos. Recordando um antigo presidente socialista, o socialismo democrático deve existir para além das regras do défice. A censura constitui um ataque ao coração da democracia.
Título e Texto: João Marques de Almeida, Observador, 27-8-2017

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