quarta-feira, 13 de setembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Riscos de giz no velho quadro-negro

Aparecido Raimundo de Souza

É difícil encarar a realidade quando ela tem muitas faces.
Tony Follari, comediante neozelandês

HÁ MUITOS E MUITOS ANOS, escritores, pensadores e intelectuais, desde o instante em que aconteceu em suas vidas o milagre do perfect-natus – isto é, os vagidos de suas entradas no espaço físico deste planeta, tornando-os reais e palpáveis – ardentemente se viram obrigados a clamarem, com engulhos afogueados, a necessidade de darem existência a um modelo padrão, porém próprio e autônomo, com a intenção de dirigirem e orientarem os rumos, independentemente das fórmulas estrangeiras introduzidas por mentalidades esnobes e tacanhas e que, por sinal, ocasionaram (e continuam ocasionando) lesões profundas e incalculáveis à soberania do país.

A bel-comodismo, por nos darmos às atividades intelectuais de pensar em coisas novas, buscamos nos Estados Unidos, França e Alemanha, e em quase todos os demais continentes espalhados pelo mundo, os paradigmas para direcionarmos as nossas universidades; bem ainda, nortearmos a política econômica e, igualmente, a exploração plena das riquezas e os haveres de raízes. Como resultado prático dessa pesquisa, só recentemente se principiou a incrementar por aqui a criação de escolas polivalentes, cursos de formações técnicas, faculdades de administração de empresas e de administração pública, enfim, todas essas “novidades” ininterruptas que ultimamente sinalizam à consciência dos homens de visão, notadamente a nos apontar de maneira clara e concisa, o quanto estávamos mergulhados nas valas comuns do obscurantismo emperrado.

Aos jovens que escolhiam o cabo da enxada ou o caminho do comércio, da indústria ou das artes, os cabeçudos e retrógrados lecionavam sobre as declinações latinas, contavam a trajetória do meteorito de Bendegó e proclamavam as maravilhas da corte de Luís XIV. A mocidade terminava o clássico ou o científico e queria, em fluxo idêntico, arranjar um “bico” para se tornar autossuficiente. Entretanto, desconhecia completamente a taquigrafia, o Código Morse e a datilografia; nunca tinha ouvido falar em fatura ou duplicata, tampouco sabia escrever uma carta comercial, porque o colégio só lhe colocou na massa cinzenta como fazer descrições sobre as paisagens dos Alpes ou da Normandia.

Muitos estudantes se viram, em razão disso, impossibilitados de ingressarem nas cadeiras superiores e foram reprovados nos vestibulares por ignorarem fatos ligados à Batalha de Peloponeso, ou por não recordarem que o nome de Molière era Jean-Baptiste Poquelin, e que Sartre foi um filósofo e crítico francês conhecido como o pai do existencialismo. As mais diversificadas comunidades, que nos serviram de exemplos para tantos conceitos esdrúxulos e prosaicos, construíram, na verdade, um império econômico e industrial baseado numa matéria-prima de que não dispunham: o petróleo.

E o Brasil, como não poderia deixar de ser, correu atrás, no mesmo ritmo, criando uma idealidade automobilística que se converteu num pasmo de orgulho nacional. Houve uma época (não sei se os senhores se lembram) em que o governo desta republiqueta de merda se mobilizou para ajudar a vender carros. A Caixa Econômica Federal e os bancos estatais se transformaram, da noite para o dia, em agências de automotores, comprando, trocando, alienando, a longos prazos, a períodos a se perderem de vista e, muitas vezes, recebendo os veículos de volta, por falta dos pagamentos das prestações e os cedendo a terceiros.

Tudo isso em vista do falecimento múltiplo da agricultura, setor fundamental para o engrandecimento e desenvolvimento, onde infelizmente, até os dias de hoje domina diabolicamente a sombra negra da estagnação sedentária. Os grandes programas estratégicos sempre tiveram em alça de mira a gestação extemporânea de novas instituições bancárias, usque a fusão fraternizada de empresas, a disciplina das letras de câmbio e a edificação de cidades, se esquecendo, todavia, que todas as bocas que se encontram em serviços burocráticos requerem a existência de um equivalente de brasileiros no interior, originando alimentos. Sem eles, estaríamos literalmente fodidos.

Inúmeras nações, bem sabemos, são cobertas pela neve durante quatro, cinco ou seis meses. Em consequência, só conseguem uma safra anual e, mesmo assim, tida por especialistas, como cadenciada, moderada ou regular. Aqui não. Pela alternação das regiões, podemos ter boas lavouras de janeiro a dezembro. No entanto, sofremos problemas de abastecimento. Uma tremenda vergonha! Em razão dela, vemos crescer, a cada dia, a massa disforme de esfaimados como se multiplicando o número de crianças pobres e dos desabrigados moradores de ruas e praças.

A esta altura do campeonato, trazemos lá de fora (quando deveria ser o contrário) o feijão, o arroz, a batata, a cebola, o trigo e outros itens indispensáveis, o que, aliás, não deixa de ser espantoso, em se tratando de uma terra sã e “eminentemente agrícola” e, onde, segundo o famoso repórter das “coisas” do velho torrão, “em se plantando tudo dá”. Sabemos, entretanto, em paralelo, que aqui assentamos muitos ladrões, cultivamos pilantras, e regamos com nossos suores, vagabundos que deveriam estar mofando nas cadeias. Porém, como o país vive à sombra das gorjetas e propinas, é provável que o Complexo da Papuda nunca abrace esses filhos da puta que se escondem atrás de crimes ambíguos.

Sem falar que temos de contrapeso um presidente ladrão. Ladrão e vigarista. De “fala fina”, conforme afirmou com propriedade o cantor e compositor Ernesto Nunes, em sua linda composição “Apelando pra Deus”, trazida a público no Programa “Querência”


Assim, se o povo continuar no marasmo, não acordar desse sono infame e letárgico, e em nome do garbo ultrajado e da moral devassada e esmerilhada, não adotar providências sérias e enérgicas, logo chegará o tempo em que consumiremos a alface da Groenlândia e a cenoura do Japão, a propósito das melancias piratas do inferno e das bocetas clonadas e disponíveis nos mercados do sexo explícito em plena efervescência em nossas principais capitais, ou mais precisamente, nas redondezas das mansões às margens do belo e inimitável Lago Paranoá.

À vista do exposto, se inspira um ligeiro raciocínio: quem nos forjou esse malfadado destino? Não resta dúvida, os dedos apontam os “técnicos empacotados” e remunerados a peso de ouro, que viviam (ou melhor, que abundam) nos gabinetes dos ministérios em Brasília, nas cadeiras do Senado, na putaria incontrolável dos palácios e na zona da Câmara, onde veados e transexuais (nada contra a turma dos GLBTT, pelo amor de Deus, não nos entendam de maneira errada!) escrevem pareceres confusos, inexplicáveis, e por que não dizer, nebulosos e pasmosos, sendo muitos deles em inglês ou alemão.

Apesar dos pesares, nos resta uma saída: como dizem os antigos que “Deus é brasileiro”. Oxalá, confiemos que realmente seja. Enquanto não sobressai a certeza absoluta, justa e perfeita, o que temos a fazer é cruzarmos os braços, virarmos nossas bundinhas para os engravatados do Epicentro (ou Capital do Cambalacho, como acharem melhor), ficarmos de quatro e esperarmos resignado e pacificamente, como vaquinhas de presépio, que continuem a nos enrabar.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. Da sede da Polícia Federal em Brasília, Distrito Federal. 12-9-2017

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