quinta-feira, 7 de setembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Seta de Setembro

Aparecido Raimundo de Souza

Sete de setembro!  O que foi mesmo que aconteceu de importante nesse dia? O que se comemora nessa data? Qual feito heroico marcou a história? Por mais que leia jornais, revistas, livros de histórias, escute emissoras de rádio e assista aos canais de televisão e, de lambuja, ainda veja, de sobremesa, não sei quantos soldados marchando pra lá e pra cá, feito um bando de babacas, fazendo uma serie de piruetas como veados assustados, a murrinha (é murrinha mesmo), em peso, mostrando seus carros de trocentos anos atrás, a aeronáutica seus tanques sucateados e o exército as suas armas, mísseis e bombas  enferrujadas, sinceramente não consigo atinar com o fio da merda perdão, senhores, da meada. Fio da meada.

Embora seja brasileiro nato, não vim da nata, ou seja, não nasci em berço esplendido, nem com aquilo virado para a lua. Confesso, todavia, me sinto traído como filho da terra. Ou pior, como rebento da pútria. Pútria ou pátria. Ficarei com a pútria. Seguindo em frente, me sinto iludido, enganado, tanto quanto os índios que ainda estão sendo dizimados, até nossos dias, desde os tempos em que um tal de Marechal Rondon vomitou aquela célebre frase “Morrer se necessário for, matar um índio, nunca”. Rondon, para quem não sabe, como militar e sertanista, se constituiu no sujeito que mais mandou índios das tribos Bororo, Nhambiquara e Urupá para as valas. E o povo, burro feito uma porta sem tranca, acredita, piamente, que essa espécie de jargão surgiu com louvores vindos do fundo mais profundo de coração. Da mísera criatura. Ledo engano!

Muito bem, voltando ao texto. Como cidadão filho dessa terra de ninguém, confesso que me sinto atraiçoado, e satirizado por inteiro.  E por que me sinto assim? Por não saber, ao certo, o que aconteceu em sete de setembro? Alguém tem conhecimento? Ninguém sabe? Ah, perdão, não foi com o sete, foi com a seta!...

Algum maluco quebrou a seta. É isso: destruíram a seta?

A propósito, a seta... que seta seria essa?  Indicava o quê? Algum rumo que todos precisassem seguir? Alguma senda a tomar, como atalho, para se chegar, quem sabe, a descoberta de algum segredo importante, ou a um feito maravilhoso e memorável, como por exemplo, o de acabar com a pouca vergonha que assolava o País inteiro? Talvez bater de frente com “os cabeças” do PCC (Partido dos Canalhas Corruptos), ou com os assassinos de rostos ocultos de uma infinidade de criaturas inocentes que perderam suas vidas estupidamente, porque encontraram em seus caminhos um punhado de balas perdidas? Afinal, meus queridos, o que se comemora nesse sete? E por que alguém está falando tanto nessa seta de setembro?

Vamos pesquisar: segundo os compêndios, a história, ou dito de outra forma, a lorota, aconteceu assim: aconselhado por José Bonifácio, Dom Pedro viajou para São Paulo. José Bonifácio queria Dom Pedro longe da mulher dele, pelo menos por uns meses. Eles viviam brigando igual gato e rato e Dom Pedro, nesses rompantes tinha por mania rasgar as calcinhas de seda pura da esposa. E não parava por aí. De roldão, quebrava os pratos de porcelana real que pertenciam a sua sogra, a mãe de Dona Leopoldina, a imperatriz Maria Teresa de Nápoles e Sicília.

Havia outro objetivo em jogo. Era Dom Pedro conversar o quanto antes com os políticos paulistas, para tentar pôr um fim às discordâncias que havia entre eles. Uns queriam derrubar um presidente que nem havia sido escolhido, outros pedir mais dinheiro ao FMI. Corrente paralela, queria porque queria, fosse aberta uma CPI para trazer à baila os secretos motivos de José Bonifácio ter tanto poder sobre Dom Pedro. Enquanto sua majestade viajava, chegavam ao Rio de Janeiro novos decretos de Lisboa anulando as falcatruas que ele, Pedro, havia feito por aqui e exigindo sua volta imediata para Portugal.

De São Paulo, Dom Pedro foi a Santos tomar um bom banho de mar e queimar um pouco o corpo que era branco igual folha de papel. E claro, o mais importante. Visitar uma mulher bonita e gostosa conhecida como Domitila de Castro Canto e Mello. Domitila o pegou, de fato, num canto e deu o golpe, acabando Marquesa de Santos. Na verdade, essa rameira, não passava de uma de suas muitas amantes por aqui arranjadas desde que aportara no Brasil. Antes Pedroca se deitara com uma bailarina francesa Noémi Thierry, com quem teve um filho, Adèle Bonpand, Clemente Saisset e, pasmem, amigos leitores, com a irmã de Domitila, a fogosa e intrépida Maria Benedita. Na viagem de volta, Dom Pedro recebeu um emissário, o soldado Taborda, que vinha do Rio de Janeiro. Nesse momento, Dom Pedro se encontrava às margens de um riacho, que acreditam ser o riacho do Ipiranga, em São Paulo.

O tal emissário lhe entregou uns decretos e as cartas: uma missiva vinha da lavra de José Bonifácio e outra de sua companheira, Dona Leopoldina, aconselhando-o a proclamar a Independência e voltar logo para casa, ou quando chegasse iria encontra-la nos braços de Pilombeta, seu segurança pessoal. Depois de ler os decretos e as cartas, Dom Pedro, furioso e pior, pê da vida, se dirigiu aos soldados e, às pessoas que o acompanhavam. Arrancou de suas roupas as cores portuguesas e disse, aos berros: “Laços fora, soldados! Camaradas! As Cortes de Lisboa querem mesmo escravizar o Brasil. E o veado do cara que cuida da segurança pessoal da minha mulher, o capitão Pilombeta, quer me botar um belo de um par de chifres. Cumpre, portanto, declarar sem mais demora, a minha independência. Estamos definitivamente separados de Portugal. Foda-se o resto...”.

Dizem os autores, nessa hora, levantando a espada, o cidadão gritou, eufórico: “Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil. Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será: Independência ou Morte”. Isso é o que está dito e o que conta a história, por sinal, escabrosamente mentirosa.  Não havia, em verdade, nenhum cavalo por perto, nem Dom Pedro montou em um, para desembainhar a sua real espada. Aliás, nem espada havia. Ele levantou, sim, acima da cabeça, os decretos e as cartas e gritou: “Camaradas, estou com uma diarreia dos diabos. Comi além da conta em casa de Domitila e estou quase a me esborrar pernas abaixo. Por favor, me achem uma boa moita, tenho que aliviar a barriga ou a bosta vai me subir à cabeça”. Era o dia 7 de setembro de 1822. Nada, portanto a ver com a seta que estamos tentando tratar aqui.

Com esse compromisso assumido por Dom Pedro, às margens do riacho Ipiranga, onde, aliás, ele e seus soldados cansaram de lavar os regos de suas bundas, o Brasil sentiu o cheiro forte de suas primeiras e grandes cagadas. Como se pode ver, não houve nenhum feito heróico nesse dia. A não ser o fato do príncipe regente, na falta de papel sanitário, quebrar, cheio de raiva, a seta (finalmente atinamos com a seta) de indicação para o Rio de Janeiro e pendurar nela, um pedaço de sua vestimenta real, com a qual, além dos decretos e das cartas, limpara seu belo e magro traseiro, num dia ensolarado de começo de mês de setembro.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. De Assis, interior de São Paulo, 7-9-2017

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