terça-feira, 5 de dezembro de 2017

[Para que servem as borboletas?] A angústia da inteligência...

Valdemar Habitzreuter

Se a angústia é nossa companheira de vida é porque não sabemos no fundo quem somos. E descobri-lo talvez nos proporcione mais lucidez para nossa existência, mais alegria, mais temperança nas nossas ações, mais compreensão da vida.

Não é tarefa fácil. Colocar-se a questão: quem sou eu? implica uma investigação profunda que usualmente não estamos inclinados a fazer. Mas seria propício fazê-lo e verificaríamos, então, que viver é muito mais do que apenas deixar o tempo se encarregar a que tenhamos uma mera passagem pela existência. Seria a questão, portanto, de dar sentido à vida que levamos.

Tornamo-nos naquilo que queremos ser. Os pensamentos são nossos orientadores, nossos estratagemas de como vivenciar a vida e qual meta atingir como seres humanos. O ser se diz de múltiplas maneiras, como já dizia Aristóteles. De algo diz-se ser pequeno ou grande, ser isso e não aquilo...

Nossa natureza é constituída de um eu que, por assim dizer, se desdobra em dois: em pequeno e grande. Nosso eu pequeno se diz ser um eu superficial (ego) que tem a ver com a inteligência. É o nosso eu desperto e esperto para se virar no mundo. É ele que nos capacita a fabricar os artefatos e utensílios que nos proporcionam facilidades no viver quotidiano para suprir nossas necessidades: garantir o alimento para o sustento do corpo, abrigos contra as intempéries, toda espécie de artifícios de proteção e assim prolongar a vida.

A inteligência é a arma mais preciosa que um ser vivo em evolução pôde conquistar. Este ser atual é o ser homo sapiens ou intelligens. É possuidor de um arsenal de poder incalculável. Esse poder tanto pode ser canalizado para construir como para destruir. Presenciamos isso ao longo da História da humanidade: construção e destruição.

Na era pós-moderna, que, supostamente, estamos presenciando, o homem já não se contenta tão somente com sua inteligência/mente, que julga vagarosa e limitada em armazenar os múltiplos e complexos dados de suas experiências e invenções, e se dedica, agora, ao fabrico da inteligência artificial como extensão de sua mente. Fabrica artefatos que recebem todos os dados e processos calculistas que acontecem no cérebro humano. Por ora, os sentimentos humanos não são transferíveis – máquinas ainda não têm sentimentos.

Esses artefatos robotizados tornam-se mais ágeis e eficientes do que a própria inteligência humana pelo fato de reunir tudo que o homem pensa e já pensou e poder num piscar de tempo torna-lo presente a serviço de seu criador: o homem. A tecnologia robótica está aí a comprovar isso. Somos regidos por ela no dia a dia e já se faz imprescindível.  

Portanto, viva a inteligência! Mas ela continua sendo nosso pequeno eu, superficial. Não é nossa faculdade mais nobre. Porque ela não compreende ou apreende a vida em seu interior. Ela se ocupa das coisas da vida e não propriamente da vida em si. Ela fica de fora. Observa a vida à distância. No máximo que ela faz é rodeá-la e observá-la de vários ângulos. Temos, assim, as ciências naturais que tratam dos vários aspectos da realidade da vida: a física, a química, a biologia, a psicologia, a cosmologia...  Úteis, é claro, para o progresso e bem-estar material do ser humano.

Mas, a nobreza e realeza pertence mesmo ao eu profundo, o grande Eu... Que status tem ele? É aí que está o busílis da questão. Dificilmente ele se manifesta. Só se manifesta quando a inteligência o procura. Mas esta tem receio de procurá-lo por medo de ser admoestada de sua tendência superficial de encarar a vida.

Mal sabemos o quanto perdemos por deixar-nos dominar exclusivamente pela inteligência e deixar dormitar no fundo de nosso ser o eu da vida, o eu que é a própria vida. Todas as nossas mazelas existenciais poderiam ser minimizadas se o eu superficial – a inteligência – cedesse algum espaço ao eu profundo que poderia muito bem dar sua contribuição para passarmos pela existência com dignidade e fazer jus a nossa condição humana. Teríamos assim um eu verdadeiro - a conjugação do eu superficial e profundo – a nos guiar e perfazer uma existência feliz, porque com sentido.

Despertar o eu profundo, eis a questão! Bem difícil esta tarefa! Embora esse eu necessite da inteligência, apresenta-se diferentemente dela: apreende a vida de uma forma intuitiva e não calculadora, ou mensuradora, da qual a inteligência se serve no trato com a vida. Sim, a inteligência tudo calcula para tirar vantagens em suas empreitadas e não apreende a vida em si, ocupada que está em relacionar-se com o mundo físico.

A intuição do eu profundo, embora não despreze as pesquisas científicas da inteligência, quer algo mais: ir além das pretensões tecnológicas da inteligência e estabelecer-se na alegria de viver, que só poderá efetuar-se tendo uma visão interior da vida, intuí-la, isto é, penetrá-la com o espírito, e do seu interior auscultar o que nos tem a dizer e, assim, deixar emergir nosso eu profundo a nos dar o equilíbrio na lide com o mundo da inteligência. 

Enquanto pela inteligência temos o conhecimento científico com suas consequências tecnológicas a nos proporcionar o status materialista do bem-estar, a apreensão intuitiva é um conhecimento que nos mergulha por inteiro na vida para experimentá-la em todo seu esplendor - na dimensão do ser absoluto.

A inteligência tecnicista, em sua ânsia de usufruir a vida, pula de galho em galho atrás de desejos pela conquista de prazeres, mas vive em eterna angústia por não encontrar neles uma saciedade duradoura, pois desaparecem em seguida e, novamente, sente-se jogada no vazio deprimente.

A intuição do eu profundo, pelo contrário, não se deixa enganar pela atração do mundo. Os prazeres passageiros pouco lhe interessam, ela se atém à vida onde a alegria de existir é a tônica, intuindo o que convém à paz da alma. Compreende que as sensações prazerosas às quais a inteligência sofregamente se entrega, não levam à verdadeira alegria, à vida plena.

Alegria e prazer são conceitos diferentes. A alegria se constrói ao apreender a vida em sua essência, vivenciando-a em espírito, e é duradoura. O prazer é uma sensação passageira que o mundo oferece à inteligência, mas que a toda hora tem de ser reinventado de outras formas, porque não a locupleta.

Daí a importância de saber por onde procurar a alegria da vida, isto é, deixar aflorar nosso eu profundo... Como fazê-lo? Que tal deixar-se tocar por uma boa leitura que nos toque profundamente e nos deixe uma alegria duradoura? Que tal assistir a um filme que nos banhe de lágrimas espirituais? Que tal uma música divina? Que tal iniciar-se em estudos filosóficos que despertem questionamentos pelo sentido da vida? Que tal dedicar-se ao estudo das ciências do espírito? Que tal obter a resposta da pergunta: QUEM SOU EU? 
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 5-12-2017

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2 comentários:

  1. Este texto nos remete à um pensamento de Freud que diz: "A ciência não é uma ilusão. Mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar. e ainda: A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas.

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  2. MINHA RESPOSTA É EPICURISTA, quase sempre.
    - EU SOU o resto não importa.
    fui...

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