terça-feira, 28 de novembro de 2017

[Para que servem as borboletas?] Na prancha da angústia...

Valdemar Habitzreuter

Deslizamos na onda do tempo sempre sujeitos ao que pode surgir pela frente e esperançosos de poder surfar até à praia segura. Não é sem razão que o surfista desportista sente-se desafiado quando adentra o imenso mar à procura de ondas gigantescas e poder dominá-las com arte e técnica, fugindo do quebradiço. Assim, o tempo é o mar de nossa existência cheio de ondas bravias onde exercemos nossas habilidades de sobrevivência. Equilibrar-nos na prancha da vida é o que importa e não soçobrar.

O tempo é uma coisa esquisita. Aliás, nem coisa é. Não o vemos. Não o tocamos. Não o cheiramos. Mas, o percebemos como ação e que tem domínio sobre as coisas no espaço. As coisas envelhecem ao seu comando e têm determinada duração. Ele mesmo fica inalterado. Ou seja, é duração pura sem começo e sem fim. Poder-se-ia dizer que é a realidade única da qual tudo depende.

As coisas concretas que enxergamos com nossos olhos são miragens da duração. Não há propriamente coisas. Há somente ações. Tudo se agita na duração. Uma árvore a minha frente é nada mais que uma ação trazendo-nos uma imagem que dura por um determinado tempo. É um recorte da ação no tempo que começou na germinação e terá seu término na corrupção.

E cá estamos nós, também um recorte do tempo, cada qual perfazendo sua duração. E o que estamos realizando como agentes inteligentes? O que ainda nos espera até o fim? O que, afinal, estamos procurando enquanto duramos? Inquirições que nos surgem indubitavelmente.

De uma coisa temos certeza: somos assaltados por mil e um sentimento que não sabemos donde provêm e tão pouco sabemos canaliza-los para um propósito. Somos munidos de psiquismo e, consequentemente, sempre enredados com a angústia do porvir.

AH, a angústia! Que troço estranho que nos acompanha na estrada da vida! Sinceramente, procuramos fugir dela porque ela nos amedronta. Ela nos aperta. Ela, por vezes, nos sufoca. Ela se veste da roupagem da desesperança. Ela nos quer engolir.

Mas, já imaginaram se ela estivesse ausente de nossas vidas? O que seria de nós? Zumbis sem saber o que fazer, sem noção de que existimos. A angústia nos desafia a tomar decisões. É o chicote que nos impele a agir. A inquietude que ela nos provoca faz com que busquemos forças de sempre querer destroná-la de seu poder sobre nós. A angústia é nossa pedra de Sísifo que não nos dá tréguas na procura por libertação, por um sentido de vida.

A angústia mistura-se à “feliz culpa” agostiniana em que, lançados no mundo, estamos em estado de decadência ao qual é necessário reagir e lançar-nos para o futuro, construindo-nos existencialmente, e é a isto que a angústia nos impele: não ficarmos parados em lamentações.

A decadência nos prende na normalidade rotineira da vida, é o pecado da impropriedade, da vida pequena. Apenas vive-se. Mas a angústia nos comprime de aflição nesse estado. Somos instados a reagir. Existir não é apenas viver, é fazer projetos, planos de ser alguém próprio e autêntico, ultrapassando a impessoalidade inapropriada sem definição.

Ao sermos lançados no mundo estamos, inicialmente, às voltas com o nada de riqueza pessoal. É preciso dar o ponta pé inicial para construir nossa existência ao longo da duração. Sair à procura de como realizar-nos. Começar a ser. Se a decadência continuar a nos prender no nada é sinal que fugimos de nosso próprio ser. Do estado de decadência temos que vislumbrar possibilidades de construir nossa existência. Assim o nada pode revestir-se do ser.

Não há outra alternativa a não ser levar em conta a disposição de ser se quisermos nos lançar para além da decadência. A disposição é como que fazer uma abertura para as possibilidades de nossa existência: tornar possíveis nossos projetos de vida. Viver envolvidos no ser e fazer o périplo de nossa finita duração na existência e sentir-nos invadidos pelo ser.

Bem-vinda ANGÚSTIA que nos despertas para a vida! 
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 28-11-2017

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