domingo, 1 de novembro de 2026

Perderam nas urnas. Agora querem mudar o jogo

Três dias depois do segundo turno, os mesmos partidos que encolheram sentaram à mesa para redesenhar a eleição

Rogerio Pires 

Na última quarta-feira, 28 de outubro, os líderes de União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, da federação PSDB-Cidadania e do Podemos sentaram à mesa com o presidente da Câmara, Hugo Motta. O presidente nacional do PSB, João Campos, também estava lá. A pauta era uma só: mudar a forma como você elege deputados.

Repare na data. Três dias depois do segundo turno. Vinte e quatro dias depois de o eleitor escolher a nova Câmara.

O plano, tem três etapas. A primeira é aprovar uma PEC ainda em 2026, com o caminho já combinado com Davi Alcolumbre no Senado. A segunda vem em 2030, com o chamado distritão misto: metade dos deputados sai dos mais votados de cada estado, e a outra metade sai de listas partidárias. A terceira chega em 2034, com o distrital misto definitivo, metade eleita em distritos e metade, de novo, pelas listas.

Parece assunto de especialista. Não é. É sobre poder.

O recado das urnas

No dia 4 de outubro, Nikolas Ferreira recebeu 3.119.318 votos em Minas Gerais. Lucas Pavanato recebeu 3.038.438 em São Paulo. Nunca um deputado federal tinha sido tão votado no Brasil.

Esses votos não ficaram presos ao nome deles. No sistema atual, cada voto entra na conta do partido, e é essa soma que define quantas cadeiras a legenda ocupa. Sem Nikolas, o PL de Minas cairia de 21 para 11 deputados. Sem Pavanato, o PL de São Paulo cairia de 19 para 12. São 15 colegas que chegaram junto. A própria simulação deixa claro que não se trata de transferência individual de votos, e sim do peso que essas votações deram à legenda.

Agora pense em quem saiu de casa naquele domingo, enfrentou fila e digitou o número do seu candidato. Essa pessoa não elegeu só um nome. Ajudou a formar uma bancada inteira. Foi isso que mudou o tamanho da Câmara a partir de 2027.

E foi isso que acendeu o alerta.

Quando o placar incomoda

A reunião não aconteceu num vácuo. Ela vem logo depois de uma eleição em que PL e Novo ampliaram espaço na Câmara e no Senado, com bancadas mais fortes a partir de 2027. Só em Minas Gerais e São Paulo, o PL elegeu 40 deputados federais, puxados por duas votações que entraram para a história. Nos bastidores, as próprias lideranças do Centrão já contam com a resistência do PL à mudança, e o motivo é simples: o partido foi beneficiado pelas regras atuais. Quando quem perdeu terreno propõe trocar as regras, e já sabe de antemão quem vai se opor, a pergunta deixa de ser técnica. Passa a ser política.

Ninguém está escondendo nada. Está escrito.

É como o time que leva uma goleada e, ainda no vestiário, propõe diminuir o gol para o próximo campeonato. As regras podem até merecer revisão. O que não dá para ignorar é quem está pedindo a mudança, e quando.

A lista que você não escolhe

Metade das cadeiras, nos dois modelos, dependerá de listas partidárias. O texto da PEC ainda nem foi escrito, e não se sabe se essas listas serão fechadas. Mas eu faço a pergunta que o eleitor precisa fazer: quem vai decidir a ordem dos nomes?

Não vai ser você.

Nos sistemas com lista, quem está no topo entra primeiro. E quem monta o topo, na prática, é a direção do partido. O voto deixa de ir para a pessoa que você conhece e passa a ir para uma sigla, que entrega a vaga a quem a cúpula preferir.

Hoje, um candidato com milhões de votos puxa colegas porque o eleitor quis assim. Amanhã, essa força passa a ser filtrada pelos mesmos caciques que perderam espaço em outubro. Diminui o peso de quem foi às ruas buscar voto. Aumenta o poder de quem controla a máquina partidária.

Por que agora?

Hugo Motta defende o distrital misto desde o ano passado e chegou a apresentá-lo como barreira contra o crime organizado na política. Gilberto Kassab e o ministro Alexandre de Moraes também estão entre os defensores do modelo. O argumento pode até soar nobre.

O calendário, não.

A ideia é aprovar tudo ainda em 2026, antes de tomar posse o novo Congresso que as urnas acabaram de escolher. Ou seja: a decisão ficaria com a legislatura que está de saída, e não com a que o eleitor formou agora, mais forte à direita.

Se a reforma é tão boa para o país, por que não esperar os deputados que você acabou de eleger?

Eu acredito que mudar a regra do jogo exige o tempo do debate, e não o tempo do susto. Reforma eleitoral feita no calor da derrota tem endereço certo. E esse endereço não é a sua casa.

Por isso, guarde estas duas perguntas, porque elas vão voltar muito em breve. Quem ganha com essa mudança? E quem perde?

Se a resposta da segunda for você, a hora de reagir é agora, enquanto o texto ainda está sendo escrito.

Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 1-11-2026 

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