terça-feira, 14 de junho de 2011

Incêndio no quartel

Revolta de bombeiros no Rio começou justa e degenerou em afronta à ordem pública; líderes devem ser punidos para prevenir uma repetição
Editorial Folha de S. Paulo
De partida, cabe registrar: é confrangedor constatar que uma profissão tão arriscada quanto a de bombeiro conte com um piso salarial de R$ 1.031, como no Estado do Rio de Janeiro. A quantia corresponde a meros dois terços do rendimento médio de um trabalhador brasileiro (R$ 1.540).
Ter motivos para reivindicar aumentos, no entanto, não autoriza ninguém a subverter a ordem pública e a hierarquia da entidade militar a que pertencem os bombeiros. Pois foi assim que agiram milhares de amotinados e seus familiares, ao ocupar o quartel central da corporação no Rio.
Após atos de depredação e ameaças de uso de armas, violenta invasão por batalhões especiais da Polícia Militar resultou na detenção de quatro centenas de revoltosos. Uma semana depois, o grupo foi libertado por determinação da Justiça, mas seus integrantes foram denunciados pelo Ministério Público sob a acusação de motim e danos materiais.
O governador fluminense, Sérgio Cabral Filho (PMDB), busca agora recuperar-se de vários tropeços no início da crise. Depois de deixar os bombeiros sem interlocutor, antes da invasão do quartel, e em seguida chamá-los de "vândalos" e "irresponsáveis", Cabral antecipou aumento de 5,58% que seria parcelado em vários meses. Com isso, elevou o piso a R$ 1.265 - ainda muito aquém da reivindicação original de R$ 2.000.
A excelente imagem do Corpo de Bombeiros desperta uma solidariedade quase automática na população, como ficou patente com a adesão de milhares de pessoas a uma passeata realizada no domingo. O apreço popular pela categoria também atrai o oportunismo de parlamentares estaduais e federais -muitos deles, de resto, correligionários de líderes do movimento, alguns dos quais já se candidataram, sem sucesso, a vereador e a deputado.
Já surgem propostas para anistiar os amotinados. No que respeita aos crimes militares de que são acusados os bombeiros invasores, só uma lei federal aprovada no Congresso e sancionada pela presidente da República poderia levar a esse resultado.
O deputado federal petista Alessandro Molon, que sonha disputar a Prefeitura do Rio, apressou-se em apresentar a ideia problemática no Congresso. Se parece politicamente inviável julgar e condenar todos os invasores do quartel, sob o aspecto criminal, que ao menos os líderes sejam responsabilizados administrativamente, com ressarcimento de danos, suspensões funcionais ou até expulsão da corporação militar.
Uma coisa é certa: alguém tem de sair punido por esse levante, sob pena de ver o mau exemplo seguido por outras corporações policiais, no Rio e noutros Estados.
Editorial do jornal “Folha de S. Paulo”, 14-06-2011
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Um comentário:

  1. Por que o ato dos bombeiros cria um precedente perigoso

    Os bombeiros assim como qualquer categoria têm o direito de pedir melhoria salarial, ocorre que por servirem junto com a PM, sob regime militar, lhes é vetado o direto à greve. Nos últimos dias o que tenho visto no Rio é um circo. Uma categoria que vem sendo “doutrinada” por políticos faz meses, chega ao ponto de rasgar sua lei militar, invadir um quartel, ocupar e inutilizar viaturas.
    Ora, isso é inadmissível em um estado de direito. Imaginemos se médicos decidem fazer greve, invadir hospitais, furar pneu das ambulâncias e trancar as portas; E se um dia policiais em greve ocuparem os presídios e ameaçarem soltar os presos? Não obstante, teríamos ainda a possibilidade de Soldados do exército em greve, colocarem tanques para obstruir vias. Pergunto: Onde a sociedade vai parar? É esse o precedente que a sociedade deseja abrir com os bombeiros?
    Para que não corramos esse risco há uma legislação militar que rege as FFA, Bombeiros e a PM. Independente de qualquer pleito salarial, ela tem de ser respeitada. No momento em que a sociedade permitir que essa lei seja ignorada, estará pondo em risco sua própria ordem.

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