Por enquanto, só vi meia dúzia
de pessoas notar que milhões de outras pessoas ficaram muito mais indignadas
com o sequestro do sr. Maduro do que com o sequestro de 251 israelitas a 7 de
Outubro de 2023. Aliás, este último episódio nem os indignou de todo, visto
que, conforme explicou o secretário-geral das Nações Unidas, o rapto de
centenas de inocentes (e a chacina de mil e duzentos) “não aconteceu no vácuo”.
Já sobre a prisão do sr. Maduro, o ectoplasma que formalmente preside à ONU
mostrou-se “profundamente preocupado”, chamou à operação “um precedente
perigoso” e afirmou que “as regras do direito internacional não foram
respeitadas”. Declarações destas é que acontecem no vácuo, o vácuo que preenche
por inteiro a caixa craniana do eng. Guterres.
Claro que o eng. Guterres nunca fala por ele, coitado. O homem limita-se a ecoar os slogans da ortodoxia em vigor, que lhe puxa os cordelinhos. E se, na sequência do 7/10, a ortodoxia saiu às ruas e entrou nos estúdios televisivos a exigir a extinção de Israel e a difundir propaganda terrorista, esta semana a causa da moda transladou-se do Médio Oriente para o Caribe. De repente, o sr. Maduro, um tirano e um traficante que assassinava opositores, submetia a população à fome e possui contas recheadas na Suíça, substituiu os “resistentes” do Hamas nos corações dos “ativistas” ocidentais. Por pudor e estratégia, os “ativistas” raramente elogiam o sr. Maduro como raramente assumiam servir o Hamas. Antes, disfarçavam (mal) as preferências com alusões ao “genocídio” imaginário em Gaza. Hoje, invocam em uníssono o “direito internacional”.
O “direito internacional” é
evidentemente sagrado. Por azar, se não estou em erro, jamais ajudou um único
venezuelano a escapar à miséria, às prisões ou ao exílio – excepto os
venezuelanos que asseguravam o sucesso da revolução “chavista”. Seria igualmente
útil inventariar quantos desgraçados foram salvos nos últimos anos pelo
“direito internacional” na China, no Irão, na Nigéria, no Sudão, no
Afeganistão, na ex-Birmânia, na Somália, em Cuba, na Coreia do Norte, na
Ucrânia, na Rússia, na Bielorrússia, na Síria, na Etiópia, na Arábia Saudita,
no Qatar, na Turquia e um longo etc. Não muitos, suponho.
Eu sei. Sei que o “direito
internacional” não foi concebido para derrubar ditadores (e de facto não os
derruba). Sei que o “direito internacional” nasceu sobretudo para prevenir
conflitos (e de facto poucos previne). Sei que a legitimidade do “direito internacional”
se confunde com a da atual ONU (e de facto nota-se), de cuja Carta em larga
medida decorre. Sem querer ofender ninguém, o “direito internacional” é uma
moral repleta de buracos, uma bazófia impotente, uma traquitana de que nos
lembramos apenas quando falha. O “direito internacional” ou dispõe de força,
dissuasora e retaliatória, ou não existe.
Nos momentos em que não canta
hinos desafinados ao “direito internacional”, a ortodoxia queixa-se de que
ainda não há democracia na Venezuela, uma semana após a queda de Maduro (com
trocadilho). Curioso: não me recordo de ouvir a ortodoxia queixar-se durante os
27 anos em que não houve democracia na Venezuela. Não dei por uma flotilha, uma
vigília, sequer um lamento sincero pelos mortos, pelos torturados, pelos
desaparecidos e pelos presos políticos que anteontem começaram a ser libertados
graças ao imperialismo americano. No fundo, é natural: a ortodoxia condena o
fim do exato terror que ela própria alimentou, frequentou ou, na hipótese
benigna, ignorou. Os venezuelanos, encarcerados, famintos ou no exílio,
discordam e procedem ao contrário: por insondáveis razões, preferem a
possibilidade de o terror acabar do que continuarem a ser as suas eternas
vítimas. Por isso festejam a esperança. A ortodoxia chora-a.
Com sorte, ou azar para ela,
não é impossível que a ortodoxia em breve deixe de chorar a Venezuela e desate
num pranto pelo Irão. Apesar de a vasta maioria dos “media” se esforçar por
esconder a verdade, a verdade é que os iranianos estão em revolta vai para
quinze dias, fartos do islão e de uma teocracia assassina. Se a teocracia cair
por “dentro”, o que é duvidoso, o masoquismo ocidental já terá motivos para
lamentar a perda de um aliado. Se, conforme apelos que se multiplicam, o tombo
dos aiatolás carecer de um empurrãozinho dos EUA (ou de Israel), a dor da
ortodoxia com o novo abalo ao “direito internacional” será dilacerante.
São tempos estranhos, tempos
em que uma parte do mundo se sacrifica para alcançar os valores ocidentais da
liberdade e da democracia, e em que uma parte do Ocidente está empenhada em
sacrificar quem calha para suprimir tais valores. Há nestes movimentos divergentes
uma tensão que desafia a física e o puro bom senso. E há um homem no meio, um
pantomineiro sem mesuras, um egocêntrico imprevisível, um bruto de vocabulário
ralo, um habilidoso que enfrenta a realidade com os critérios dos negócios, um
alarve em suma. Para acrescentar o improvável ao absurdo, é esse homem que
manda, e é sobretudo dele que depende a defesa da luz contra as trevas. Até
ver, não tem corrido mal: as trevas odeiam-no. Melhor que tudo, o ódio é
correspondido.”
Título e Texto: Alberto
Gonçalves, Observador,
10-1-2026
Uma nova ordem global?
“Então eu acho que cabe à Venezuela mostrar a sua narrativa
Ditador gente boa
Refugiado no Brasil, missionário venezuelano relata alívio e esperança após captura de Maduro
Zero à esquerda
6-1-2026: Oeste sem filtro – Brasil trata prisão de Maduro como sequestro
5-1-2026: Oeste sem filtro – Trump captura Maduro
“Se você não é venezuelano, não tente nos ensinar como sentir ou celebrar. Quem não viveu a dor, que ao menos respeite o alívio.”
Regime Tweaking, Not Regime Change, Is What The US Just Achieved In Venezuela
Deus abençoe a Venezuela! 🙏🏼
Invasão da Venezuela: Trump encarna os Estados Unidos em modo normal

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