segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Venezuela e o irrealismo mágico


São tempos estranhos, em que parte do mundo se sacrifica para alcançar os valores ocidentais da liberdade e da democracia, e parte do Ocidente está empenhada em sacrificar quem calha para os suprimir.

Por enquanto, só vi meia dúzia de pessoas notar que milhões de outras pessoas ficaram muito mais indignadas com o sequestro do sr. Maduro do que com o sequestro de 251 israelitas a 7 de Outubro de 2023. Aliás, este último episódio nem os indignou de todo, visto que, conforme explicou o secretário-geral das Nações Unidas, o rapto de centenas de inocentes (e a chacina de mil e duzentos) “não aconteceu no vácuo”. Já sobre a prisão do sr. Maduro, o ectoplasma que formalmente preside à ONU mostrou-se “profundamente preocupado”, chamou à operação “um precedente perigoso” e afirmou que “as regras do direito internacional não foram respeitadas”. Declarações destas é que acontecem no vácuo, o vácuo que preenche por inteiro a caixa craniana do eng. Guterres.

Claro que o eng. Guterres nunca fala por ele, coitado. O homem limita-se a ecoar os slogans da ortodoxia em vigor, que lhe puxa os cordelinhos. E se, na sequência do 7/10, a ortodoxia saiu às ruas e entrou nos estúdios televisivos a exigir a extinção de Israel e a difundir propaganda terrorista, esta semana a causa da moda transladou-se do Médio Oriente para o Caribe. De repente, o sr. Maduro, um tirano e um traficante que assassinava opositores, submetia a população à fome e possui contas recheadas na Suíça, substituiu os “resistentes” do Hamas nos corações dos “ativistas” ocidentais. Por pudor e estratégia, os “ativistas” raramente elogiam o sr. Maduro como raramente assumiam servir o Hamas. Antes, disfarçavam (mal) as preferências com alusões ao “genocídio” imaginário em Gaza. Hoje, invocam em uníssono o “direito internacional”.

O “direito internacional” é evidentemente sagrado. Por azar, se não estou em erro, jamais ajudou um único venezuelano a escapar à miséria, às prisões ou ao exílio – excepto os venezuelanos que asseguravam o sucesso da revolução “chavista”. Seria igualmente útil inventariar quantos desgraçados foram salvos nos últimos anos pelo “direito internacional” na China, no Irão, na Nigéria, no Sudão, no Afeganistão, na ex-Birmânia, na Somália, em Cuba, na Coreia do Norte, na Ucrânia, na Rússia, na Bielorrússia, na Síria, na Etiópia, na Arábia Saudita, no Qatar, na Turquia e um longo etc. Não muitos, suponho.

Eu sei. Sei que o “direito internacional” não foi concebido para derrubar ditadores (e de facto não os derruba). Sei que o “direito internacional” nasceu sobretudo para prevenir conflitos (e de facto poucos previne). Sei que a legitimidade do “direito internacional” se confunde com a da atual ONU (e de facto nota-se), de cuja Carta em larga medida decorre. Sem querer ofender ninguém, o “direito internacional” é uma moral repleta de buracos, uma bazófia impotente, uma traquitana de que nos lembramos apenas quando falha. O “direito internacional” ou dispõe de força, dissuasora e retaliatória, ou não existe.

Nos momentos em que não canta hinos desafinados ao “direito internacional”, a ortodoxia queixa-se de que ainda não há democracia na Venezuela, uma semana após a queda de Maduro (com trocadilho). Curioso: não me recordo de ouvir a ortodoxia queixar-se durante os 27 anos em que não houve democracia na Venezuela. Não dei por uma flotilha, uma vigília, sequer um lamento sincero pelos mortos, pelos torturados, pelos desaparecidos e pelos presos políticos que anteontem começaram a ser libertados graças ao imperialismo americano. No fundo, é natural: a ortodoxia condena o fim do exato terror que ela própria alimentou, frequentou ou, na hipótese benigna, ignorou. Os venezuelanos, encarcerados, famintos ou no exílio, discordam e procedem ao contrário: por insondáveis razões, preferem a possibilidade de o terror acabar do que continuarem a ser as suas eternas vítimas. Por isso festejam a esperança. A ortodoxia chora-a.

Com sorte, ou azar para ela, não é impossível que a ortodoxia em breve deixe de chorar a Venezuela e desate num pranto pelo Irão. Apesar de a vasta maioria dos “media” se esforçar por esconder a verdade, a verdade é que os iranianos estão em revolta vai para quinze dias, fartos do islão e de uma teocracia assassina. Se a teocracia cair por “dentro”, o que é duvidoso, o masoquismo ocidental já terá motivos para lamentar a perda de um aliado. Se, conforme apelos que se multiplicam, o tombo dos aiatolás carecer de um empurrãozinho dos EUA (ou de Israel), a dor da ortodoxia com o novo abalo ao “direito internacional” será dilacerante.

São tempos estranhos, tempos em que uma parte do mundo se sacrifica para alcançar os valores ocidentais da liberdade e da democracia, e em que uma parte do Ocidente está empenhada em sacrificar quem calha para suprimir tais valores. Há nestes movimentos divergentes uma tensão que desafia a física e o puro bom senso. E há um homem no meio, um pantomineiro sem mesuras, um egocêntrico imprevisível, um bruto de vocabulário ralo, um habilidoso que enfrenta a realidade com os critérios dos negócios, um alarve em suma. Para acrescentar o improvável ao absurdo, é esse homem que manda, e é sobretudo dele que depende a defesa da luz contra as trevas. Até ver, não tem corrido mal: as trevas odeiam-no. Melhor que tudo, o ódio é correspondido.”

Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 10-1-2026

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