terça-feira, 24 de novembro de 2015

Nada nem ninguém nos roube a alegria!

Laurinda Alves
O Papa Francisco repete sem cessar o apelo a que não deixemos que nos roubem a alegria, o que é ainda mais interpelador em alturas tão difíceis como estas em que tudo convoca o pessimismo e o desânimo

Viktor E. Frankl, autor de leitura obrigatória para todas as gerações, explicou bem a diferença entre alegria e tristeza no seu livro “O Homem em Busca de um Sentido”, escrito depois de sobreviver a vários campos de concentração nazi. A alegria é sinónimo de ânimo e vontade de viver. O contrário da alegria não é a tristeza. O oposto da alegria é o pessimismo, a ruminação, o medo e a desistência. Ou seja, os alegres não são apenas os que riem, mas os que conseguem encontrar um sentido para a sua vida, seja ela fácil ou difícil. A verdadeira alegria está muito para além da boa disposição, do riso e das gargalhadas. Foi esta alegria, tão bem enunciada por Viktor E. Frankl neste seu livro autobiográfico (ensinado em universidades como o MIT, onde o autor é apresentado como um verdadeiro caso de liderança!) que lhe permitiu não se isolar, não desistir e sobreviver não a um, mas a quatro campos de concentração. Não foi apenas sorte, note-se, mas uma capacidade para encontrar dentro de si a força interior que lhe permitiu elevar-se acima do seu destino, recordando obsessivamente as palavras de Nietzsche: “aquele que tem uma razão para viver, pode suportar quase tudo”. No caso de Viktor E. Frankl a alegria, neste sentido íntimo e profundo, foi o amor pela sua mulher e pelo filho que geraram. O filho não chegou a nascer e nunca mais voltou a ver a sua mulher, mas foram eles a razão da sua sobrevivência. Ter estas razões para viver, permitiu-lhe aguentar os ‘Como’ da sua dolorosa e dramática existência nos sucessivos campos de concentração.

Hoje em dia o Papa Francisco repete incessantemente o apelo a que não deixemos que nos roubem a alegria, e as suas palavras fazem um eco especialmente interpelador em alturas tão difíceis como estas em que tudo à nossa volta nos convoca ao pessimismo e ao desânimo. Mas como resgatar a alegria depois de Paris, depois do Mali e com tudo o que acontece no mundo? Acontece que a questão da alegria é vital, e também em resposta a esta magna questão, outros jesuítas como o Papa promoveram neste fim de semana em Portugal um grande encontro nacional sobre a Alegria! De dois em dois anos há encontros do SEEI – Estudos de Espiritualidade Inaciana, e este ano o ciclo de conferências reuniu em Fátima mais de 600 pessoas para ouvirem padres como Tolentino Mendonça, Vasco Pinto de Magalhães, Miguel Almeida (cronista deste jornal) e José Frazão, Provincial dos jesuítas, entre muitos outros. Foram 2 dias de verdadeiro luxo espiritual que ajudaram crentes e descrentes a resgatar o sentido da alegria. Voltando aos ‘Como’, a grande questão é mesmo essa: como viver a alegria nesta realidade actual tão concreta, tão negra e tão avassaladora? Vasco Pinto de Magalhães e José Frazão insistiram em esclarecer que o medo é o contrário da alegria, e os nossos medos facilmente nos ameaçam e escravizam. Neste mundo em profunda transição, neste mundo líquido ou ‘gasoso’, em que tudo muda constantemente e nem sempre sabemos bem qual a direcção que devemos seguir, muita coisa nos aterroriza e enche de medos. Na verdade a última palavra sobre a vida não deve ser o medo nem a tristeza, mas a alegria e a confiança. Soa excessivo? Sei que sim, mas revela um olhar realista que nos diz que apesar dos acontecimentos, apesar das mortes e perdas, apesar do extraordinário custo da realidade é possível atravessar as circunstâncias mais adversas do mundo, no mundo!, transformando-o a partir de dentro.

Só a partir da realidade-real podemos transformar alguma coisa em nós e à nossa volta. Numa escala mais à nossa medida, e no concreto da vida de cada um, temos a experiência de ser possível encontrarmos razões para nos elevarmos acima dos acontecimentos, mas num tempo de extremismos, vale a pena pegar em exemplos tão radicais como as mães dos filhos jihadistas que se alistaram nas fileiras do EI, para perceber através dos seus testemunhos aquilo que algumas estão a fazer para recuperar o alento e conseguirem manter um diálogo consigo mesmas e com a realidade. Lemos aqui no Observador que enquanto para umas delas o facto de terem filhos assassinos é uma tortura insuportável, para outras foi a mola que as fez dar um salto em altura, elevando-se acima da sua dor e perplexidade, fundando a Hayat Canada e a Mothers for Life, para ajudar pais de jovens radicalizados. Se atendermos ao que dizem estas últimas, percebemos o sentido que encontraram na morte dos filhos que se fizeram explodir e mataram dezenas de inocentes: “Educamos os nossos filhos sobre drogas, sexo, álcool, bullying. Sobre todos estes assuntos e sobre como lidar com eles, mas não os educamos sobre isto da radicalização”. Christianne Boudreau, uma destas mães, estuda agora os métodos de radicalização dos jihadistas, para perceber melhor o perfil dos jovens escolhidos, e graças a ela as autoridades que buscam os terroristas podem percorrer outros caminhos, mas nós também. Nós, pais e educadores, que saberemos melhor identificar os sinais de alerta em crianças e jovens adolescentes. Os casos extremos das vivências de Viktor E. Frankl ou das mães dos jihadistas, servem-nos para perceber que em circunstâncias menos extremas, mas porventura tão dramáticas como as doenças prolongadas, as mortes prematuras e tantos outros sofrimentos que nos atravessam, é possível partirmos da realidade para nos elevarmos acima dela. Tolentino Mendonça disse, com enorme coragem e clareza, que o pessimismo e a tristeza são a resposta mais fácil e mais espontânea aos que acontece em nós e à nossa volta. “Fácil é ser triste. O mais difícil é permanecer na alegria!” e voltou a insistir no medo que nos paralisa e na ‘doença mortal em que se tornou a angústia’. Sei que tudo isto parece extraordinariamente difícil de assimilar e quase impossível de viver no dia a dia, mas tal como Tolentino Mendonça, também eu acredito que “um mundo gerido por pessimistas não nos deixaria sequer levantar a âncora do porto”. 
Título e Texto: Laurinda Alves, Observador, 24-11-2015

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