sábado, 21 de novembro de 2015

Resistência

Nuno Rogeiro

Hão-de dizer-vos que o vosso executor é, afinal, uma vítima.

Hão-de dizer-vos que a França só teve "aquilo que merecia".

Hão-de trazer-vos a boa nova: o "Ocidente" é o mal maior.

E hão-de afirmar que os que defendem as liberdades civis, a dignidade das nações, e o valor da pessoa humana são os principais culpados pelos massacres de inocentes.

Hão-de dizer-vos que se deve responder à brutalidade continuada com a deserção, com o abandono, com a cedência.

Hão-de proclamar, com todas as letras, que devemos entregar os nossos filhos, os nossos cônjuges, os nossos pais, ao carniceiro, em nome da "paz" e da "tolerância".

Hão-de mesmo dizer-vos que o carrasco não deve ser tocado, porque será pior.

Hão-de tentar confundir-vos, misturando "explicação e compreensão" do fenómeno terrorista com minimização e até desculpa, ou atenuação, do mesmo.

Hão-de dizer-vos que um ataque a bairros populares, multiculturais, alvos fáceis, de uma cidade também portuguesa, é uma ofensiva contra a "grande burguesia" e o "grande capital", cúmplices dos "cruzados".

Hão-de dizer-vos que o problema é a "extrema direita". Ou os marcianos.

Hão-de dizer-vos que as vítimas do terror não são, em grande medida, também muçulmanos.

Hão-de dizer-vos que o terrorismo contra civis é a resposta "igualizadora" dos "humilhados" e "não integrados".

Hão-de dizer-vos que o Dito Estado Dito Islâmico é uma invenção.

Hão-de dizer-vos tudo isto.

E hão-de esperar que acreditemos.

Mas esquecem-se da força especial dos humildes.

E dos injuriados que decidem abandonar o silêncio.

E dos cordeiros que resolvem não tolerar mais os intolerantes.

E dos que se cansaram de perder amigos, maridos, mulheres, filhos, pais e netos, devorados por este Baal Moloch de perversão em nome da "pureza".

E dos que, calmamente, mas com determinação, não vão dar mais um milímetro de caminho, de palavra, de acção, aos imperadores do sangue.

E dos que, atacados, decidem defender os mais fracos e os que não possuem voz nos media e nos parlamentos, mas que são o último reduto da nossa humanidade.

Não passaram.

Não passarão.
Título e Texto: Nuno Rogeiro, revista Sábado, nº 603, 19 a 25 de novembro de 2015

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