domingo, 6 de dezembro de 2015

Aquaparque

Vitor Cunha


Foi em 2005, há dez anos, num parque aquático espanhol, em Fuengirola, entre Marbella e Málaga, que tive oportunidade de me sentir deslocado, apesar dos números, pela presença de uma senhora – presumo, podia ser um homem ou três – envergando niqab, acompanhando o – alegado – marido e filho, ambos de calções e tronco nu, como eu e todos os outros. As mulheres presentes, com a excepção desta, usavam fatos de banho, biquinis, algumas dispensando a parte superior deste quando deitadas sob o tórrido sol, como as pessoas normais da Europa fazem, graças a Deus, obrigado, liberdade.

Tentei, por momentos, imaginar alguém vestido de forma ostensivamente exagerada para o mês de Agosto, de preto escuro, que há diferentes tons de preto, quer pelo espaçamento do entrelaçado do tecido, quer pelo particular esforço de remoção de pigmentação capaz de reflectir qualquer fotão que tente fugir ao aquecimento global da pessoa humana que encontra, no querido mês de Agosto, necessidade de uma segunda pele da cabeça aos pés. Imaginei uma freira, cara destapada – claro – com claro tecido sobre a cabeça que permite vislumbrar algum cabelo e apercebi-me do ridículo de uma religiosa a observar a frenética gritaria da juventude louca pelas cornucópias dos escorregas sem participar nas festividades: não havia uma única freira para ser vista, pelo menos que assim se quisesse anunciar: talvez houvesse, de fato de banho ou biquini. Havia, sim, mulheres de todas as idades, nenhuma com as pernas tapadas.

Tinha a mulher de niqab direito a estar ali com o ostensivo traje? Tinha. Tinha tanto direito como um pedófilo vestido com um traje de urso polar, apesar de – garanto – não ter visto vivalma com traje de urso polar. Devia estar? Se o objectivo era demonstrar às restantes mulheres o quão depravadas são por exporem os tornozelos à vista de homens incapazes de conter o ímpeto de as violar, não foi bem-sucedida. Não deixou, porém, de deixar um gosto desagradável na boca, como que anunciando que a Europa nunca mais seria a Europa em que cresci, infelizmente, para bem pior. 
Título, Imagem e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 6-12-2015

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