quarta-feira, 5 de abril de 2017

Catarina patroa, Catarina costureira

Maria João Marques

O BE não deixa as empresas privadas e os seus acionistas pagarem ordenados milionários aos seus gestores, mas os gestores que estão às costas dos contribuintes podem receber salários estratosféricos.

Por estes dias, qualquer pessoa que esteja familiarizado com o conceito de ‘coluna vertebral’ tem sentido dores nas costas (causadas por curvaturas na coluna demasiado acentuadas e sinuosas) de cada vez que ouve ou lê uma notícia sobre o Bloco de Esquerda. Mais ou menos como quando às vezes nos sentimos corar de vergonha pelas más figuras de terceiros, tão más que é impossível não nos carregarmos de embaraço por empatia. A boa notícia é: se está com medo de ter desenvolvido uma hérnia discal, ou uma contratura na cervical, é bem possível que afinal sejam só dores pelos flic-flacs da coluna dos dirigentes do BE.

Não que nos próprios se note mazelas. Aparentemente vivem bem com as colunas com vários nós de marinheiro. E os votantes do BE, segundo nos informam as sondagens, também não são apreciadores em demasia de uma coluna vertical. Aplaudem hipocrisia e contradição. Vamos conferir.

É ver Catarina Martins, que votou favoravelmente em 2016 o orçamento de 2017, queixar-se agora que o orçamento para a cultura é ‘vergonhosamente baixo’. Desengane-se o leitor se por segundos ponderou tratar-se de um ato penitencial à conta da Páscoa que se aproxima. Não, o bom bloquista é estranho aos exames de consciência dos católicos. Catarina Martins estava mesmo a insultar o documento que considerou bom para o país, dando-lhe o seu voto de deputada, como se nada tivesse a ver com tão vergonhoso documento.

Também é divertido (ou doloroso, para as pessoas mais sensíveis aos engulhos na coluna alheia) observar Catarina Martins pedindo limitação dos ordenados dos gestores das empresas privadas. Salvo rapto por extraterrestre e substituição por um clone, é a mesma Catarina Martins que votou contra as tentativas de PSD e CDS para limitação dos ordenados na CGD. Claro que encenaram umas objeções pró-forma, a salvar a sua alegada reputação virginal, mas quando foi necessário ajudaram o PS a impor salários indecorosos para uma empresa pública. (Se a CGD devia ser pública ou não – e não devia – é outra questão. Enquanto for, há que limitar as responsabilidades assumidas em nome dos contribuintes.)

Em suma: o BE não deixa as empresas privadas e os seus acionistas pagarem ordenados milionários aos seus gestores, mas os gestores que estão às costas dos contribuintes podem receber salários estratosféricos – pagos pelos ditos contribuintes, dadas as volumosas injeções de dinheiro que vários governos já concederam à CGD desde 2008. Em boa verdade, aqui não há grande coluna torcida. Como se vê pelo grupo parlamentar do BE, a maioria vive e viveu de ordenados e subsídios pagos pelos contribuintes. Já os pagamentos feitos pelas empresas, com dinheiros privados, como os deputados do BE pouco têm a ver com essa realidade, bem podem minguar. É o que se chama decidir em causa própria.

Por falar em CGD. Recordam-se da proposta do BE de proibir as transferências de dinheiro para offshores? Foi o mesmo BE que apoiou aquela manigância das obrigações da CGD feita no Luxemburgo – o tal país que, apesar de já partilhar informações com a UE e de não ter sigilo bancário absoluto, tem um sistema bancário e fiscal que na verdade funciona como uma offshore. Alguém faça uma manobra de Heimlich aos dirigentes do BE, que estão engasgados com um sapo. Mais: as obrigações da CGD, pagas majestosamente a 11% ao ano – são uma espécie de pagamento do resgate de Ricardo Coração de Leão exigido por Leopoldo, duque da Áustria, para libertar o rei inglês – foram adquiridas em 40% por fundos de especulação, tal o risco com que o mercado as viu. Que bonito, o BE e os hedge funds de mãos dadas no recreio.

Permaneçamos na CGD. Há uns anos participei num Prós e Contras onde um dos convidados principais era Francisco Louçã. Com os seus olhos muito abertos, às tantas referiu que na CGD, ao contrário de nos bancos privados, não se conheciam situações de roubo. Louçã tinha razão: não se conhecem situações de roubo na CGD. Só se conhecem casos atrás de casos de empréstimos concedidos por conveniência política a empresários amigos sobretudo do PS, contra garantias que não cobriam nem de perto o valor emprestado, com favores escandalosos quando houve incumprimentos, tudo para que o PS dominasse mais umas tantas empresas do setor privado. Isto de facto é alguma coisa, com nome muito feio, mas não é roubo. Ora o BE, outrora tão moralista com estas coisas que não são roubo, fez os possíveis, ao lado do PS, para inviabilizar a audição de Armando Vara na comissão parlamentar à CGD.

Temamos pelas colunas bloquista em forma de espiral. Por um lado, estão vergados ao capitalismo especulativo. Por outro, o BE considera que o único meio legítimo de se ganhar dinheiro e de exercer uma atividade é pendurado no orçamento de estado. Aos teimosos que teimam ficar no setor privado, há que castigá-los com impostos opressivos para sustentarem quem vive do estado e dos contribuintes. Claro que o caminho que sempre se segue é o extermínio dos privados e, em consequência, dos impostos que sustentam os ordenados de bloquistas e das suas clientelas partidárias. Mas presumo que isto não se aprende nos cursos de teatro.
Título e Texto: Maria João Marques, Observador, 5-4-2017

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